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sábado, 7 de agosto de 2010

QUANDO A ARTE CONTEMPLA A CIÊNCIA

McEwan lança romance do clima

POR CINTHYA VERRI


Em romance a ser publicado pela Companhia das Letras,
McEwan costura enredos que exorcizam Freud, Spinoza e Nietzsche

“Solar” propõe um tratado sobre a culpa ao avaliar as decisões de um físico premiado pela Academia Sueca. Ian McEwan sobe os termômetros do mercado e inaugura a literatura sobre as alterações climáticas. A sátira amarga aborda um tema nevrálgico da atualidade – o aquecimento global.

Um dos grandes autores britânicos, Ian McEwan, dos sucessos Na Praia e Reparação, lança Solar. Ainda inédito no Brasil, debutou em março deste ano no Reino Unido e em Portugal. Apelidado de “Ian Macabro”, o romancista, que completou 62 anos no dia 21 de junho, assumiu o bom humor. Uma guinada em toda a trajetória marcada pela seriedade. Porém, quem pensa que graça é leveza, engana-se: serve apenas para tocar em pontos ainda mais obscuros.

Em entrevista ao The Daily Telegraph, antecipou sua preocupação com o novo romance: “Eu quero tentar e de modo útil esbater as diferenças entre os dois reinos (ciência e arte). Por um lado, existe a tradição científica. Os cientistas apoiam-se nos ombros de gigantes, como os escritores. Por outro lado, nas artes é que se fazem descobertas. Por isso, estou discutindo com, ou pelo menos brincando com a ideia de que a arte nunca avança”.

De fato, McEwan levou a cabo sua ambição. Traduziu com alta fidelidade conceitos da física e da mecânica quântica. Solar, que sairá no Brasil pela Companhia das Letras, assume condição híbrida, científico-artística. Ensina e entretém.

Acompanhamos o protagonista e anti-heroi Michael Beard e sua inquetação em sobrepor a genialidade profissional a problemas de excesso de peso e dilemas com mulheres.

A sabedoria ficcional de Ian McEwan pode matar de inveja qualquer estudioso de psicanálise e filosofia. Arruma enredos para exorcizar Freud, Garma, Winnicott, Spinoza e Nietzsche. Afinal, sua obsessão é como a culpa influencia destinos.

Em Reparação, apresentou-nos Briony. A menina escritora que, ao caluniar o namorado da irmã, ocasiona a morte dele na guerra. Com a atitude impulsiva e orgulhosa, a menina sente que arranjou o curso da tragédia, mas não desejava efetivamente que isso acontecesse. Depois do processo espelhado nas páginas, Briony responsabiliza-se por quem ela é, por agir daquele modo quando ainda era uma criança. Livra a culpa e permite-se viver. Ela concebeu, por meio da literatura, um mundo onde os dois, a irmã e o namorado, poderiam ver-se novamente e se amar. É a expressão legítima de quem compreende o acaso e sua imperiosidade.

Michael Beard, personagem central de Solar, exibe justamente o reverso. É sutil a diferença, porque, à primeira vista, se poderia concluir que é um homem sem remorso; que a própria ausência de culpa incita o desenvolvimento da personalidade sedutora e sociopática; capaz de usar qualquer um que cruzasse seu caminho para, sem escrúpulos, extrair vantagens para si. Desse modo se comporta em seus cinco casamentos e com todas as amantes; no trabalho, apropria-se das pesquisas de outro homem, incrimina um terceiro em um assassinato; atribui-se a autoria de relatos alheios para usar em suas palestras; premedita o uso de verbas e patenteia invenções que não foram suas.

Ao exame com mais cuidado, encontramos um homem arrogante e inábil, incapaz de viver bem. Gênio da física, Michael Beard escreveu um trabalho original que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Partiu de Einstein e descobriu uma leitura inédita, curiosamente, sobre a interrelação dos elementos: a chamada conflação. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas ou conceitos, que compartilhem algumas características em comum, tornam-se mistas, até aparentarem uma única identidade – as diferenças parecem perdidas.

Não é à toa: a ideia se assemelha ao borramento ético do personagem; à dificuldade de Beard em apreciar qualquer um de modo independente. Não soube nunca se colocar no lugar do outro, antecipar, sentir empatia ou mesmo cuidar de alguém. Principalmente, porque não sabia cuidar de si mesmo.

Freud, em seu famoso artigo Criminosos por um Sentimento de Culpa, ensinou que a atitude criminosa pode ser gerada pela culpa; o mesmo avalia Nietzche, quando fala dos Delinquentes Pálidos pela interlocução de Zaratustra. Mas foi Paulo Sérgio Rosa Guedes, nos ombros desses gigantes, quem descreveu a conduta com clareza e simplicidade. Em A Paixão – Caminhos e Descaminhos, anuncia o quanto o sentimento de culpa é um sistema, um artifício de ver e agir que instalamos sobre o raciocínio. Com ele nos mantemos em busca do poder; nós é que sabemos como deveria ser; quando nossas ideias valem mais que a realidade; e é possível acreditar que existe um deus e que somos melhores do que ele.

Neste ponto, reconhecemos que culpa e onipotência são a mesma coisa. Na epígrafe, John Updike é empregado para afinar o tom da narrativa nesse sentido: “Que lhe dá grande prazer, faz Rabbit sentir-se rico, contemplar o desperdício do mundo, saber que a terra também é mortal”.

Paulo Sérgio explica:

“1. O sentimento de culpa nunca é consequência de algo, e sim, causa.

2. O sentimento de culpa é sempre oposto, antagônico, à vivência de responsabilidade pessoal. São sentimentos auto-excludentes apesar de, na linguagem comum, serem vistos como sinônimos.

3. O sentimento de culpa é sempre um delírio de grandeza, uma ilusão de onipotência, uma convicção absoluta de ter poder.”

Nossa reação diante do devir, especialmente diante do que nos desagrada, é condenar a realidade. Sentimo-nos poderosos: julgamos o acaso e chamamos de sorte ou azar.

Michael Beard é o exemplo típico dessa inversão. Quando chega ao Polo Norte, por exemplo, conhece que é uma questão de acidente geográfico, mas assinala que está no topo do mundo e que todos, inclusive a ex-mulher, estão abaixo dele. Nessa oportunidade, quando passou a ser admirado pelos companheiros de viagem, não pôde evitar de achar graça em virar o queridinho do grupo, mas se considerou rebaixado por dar valor às pessoas. Ao examinar a condição humana, pondera que “é a melhor, não, é a mais interessante das raças, talvez não a melhor imaginável, mas a melhor disponível”. Confia que poderíamos ser salvos de nossa natureza através da implementação de leis e do respeito à elas. Michael alcança concluir, por um relance, que não superaria a humanidade dentro dele; medita que, na hora da morte, provavelmente estaria usando meias díspares, teria emails por responder, camisas ainda estariam sem botões, a luz do corredor permaneceria com defeito, restariam contas a pagar, amigos esperando por uma resposta e amantes por conquistar. “Esquecimento, a última palavra em organização, seria seu único consolo.”

É contra essa verdade que Michael se dedica e, evidentemente, fracassa.

É um livro trágico e cômico, igual a nossa existência.

Reparação e Solar apresentam a riqueza, a dimensão da força e o antagonismo da culpa e da responsabilidade. Por serem óbvios, tão difíceis de ver. Precisamos de todas as versões disponíveis. Prova de que a arte, de fato, não avança. Não tem sentido. É como a vida: um eterno retorno.

Médica, psicoterapeuta
cinthya@clinicaverri.com.br


Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
07 de agosto de 2010 | N° 16420
Porto Alegre (RS)
Leia na Zero>> clique aqui

QUANDO A ARTE CONTEMPLA A CIÊNCIA

McEwan lança romance do clima

POR CINTHYA VERRI


Em romance a ser publicado pela Companhia das Letras,
McEwan costura enredos que exorcizam Freud, Spinoza e Nietzsche

“Solar” propõe um tratado sobre a culpa ao avaliar as decisões de um físico premiado pela Academia Sueca. Ian McEwan sobe os termômetros do mercado e inaugura a literatura sobre as alterações climáticas. A sátira amarga aborda um tema nevrálgico da atualidade – o aquecimento global.

Um dos grandes autores britânicos, Ian McEwan, dos sucessos Na Praia e Reparação, lança Solar. Ainda inédito no Brasil, debutou em março deste ano no Reino Unido e em Portugal. Apelidado de “Ian Macabro”, o romancista, que completou 62 anos no dia 21 de junho, assumiu o bom humor. Uma guinada em toda a trajetória marcada pela seriedade. Porém, quem pensa que graça é leveza, engana-se: serve apenas para tocar em pontos ainda mais obscuros.

Em entrevista ao The Daily Telegraph, antecipou sua preocupação com o novo romance: “Eu quero tentar e de modo útil esbater as diferenças entre os dois reinos (ciência e arte). Por um lado, existe a tradição científica. Os cientistas apoiam-se nos ombros de gigantes, como os escritores. Por outro lado, nas artes é que se fazem descobertas. Por isso, estou discutindo com, ou pelo menos brincando com a ideia de que a arte nunca avança”.

De fato, McEwan levou a cabo sua ambição. Traduziu com alta fidelidade conceitos da física e da mecânica quântica. Solar, que sairá no Brasil pela Companhia das Letras, assume condição híbrida, científico-artística. Ensina e entretém.

Acompanhamos o protagonista e anti-heroi Michael Beard e sua inquetação em sobrepor a genialidade profissional a problemas de excesso de peso e dilemas com mulheres.

A sabedoria ficcional de Ian McEwan pode matar de inveja qualquer estudioso de psicanálise e filosofia. Arruma enredos para exorcizar Freud, Garma, Winnicott, Spinoza e Nietzsche. Afinal, sua obsessão é como a culpa influencia destinos.

Em Reparação, apresentou-nos Briony. A menina escritora que, ao caluniar o namorado da irmã, ocasiona a morte dele na guerra. Com a atitude impulsiva e orgulhosa, a menina sente que arranjou o curso da tragédia, mas não desejava efetivamente que isso acontecesse. Depois do processo espelhado nas páginas, Briony responsabiliza-se por quem ela é, por agir daquele modo quando ainda era uma criança. Livra a culpa e permite-se viver. Ela concebeu, por meio da literatura, um mundo onde os dois, a irmã e o namorado, poderiam ver-se novamente e se amar. É a expressão legítima de quem compreende o acaso e sua imperiosidade.

Michael Beard, personagem central de Solar, exibe justamente o reverso. É sutil a diferença, porque, à primeira vista, se poderia concluir que é um homem sem remorso; que a própria ausência de culpa incita o desenvolvimento da personalidade sedutora e sociopática; capaz de usar qualquer um que cruzasse seu caminho para, sem escrúpulos, extrair vantagens para si. Desse modo se comporta em seus cinco casamentos e com todas as amantes; no trabalho, apropria-se das pesquisas de outro homem, incrimina um terceiro em um assassinato; atribui-se a autoria de relatos alheios para usar em suas palestras; premedita o uso de verbas e patenteia invenções que não foram suas.

Ao exame com mais cuidado, encontramos um homem arrogante e inábil, incapaz de viver bem. Gênio da física, Michael Beard escreveu um trabalho original que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Partiu de Einstein e descobriu uma leitura inédita, curiosamente, sobre a interrelação dos elementos: a chamada conflação. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas ou conceitos, que compartilhem algumas características em comum, tornam-se mistas, até aparentarem uma única identidade – as diferenças parecem perdidas.

Não é à toa: a ideia se assemelha ao borramento ético do personagem; à dificuldade de Beard em apreciar qualquer um de modo independente. Não soube nunca se colocar no lugar do outro, antecipar, sentir empatia ou mesmo cuidar de alguém. Principalmente, porque não sabia cuidar de si mesmo.

Freud, em seu famoso artigo Criminosos por um Sentimento de Culpa, ensinou que a atitude criminosa pode ser gerada pela culpa; o mesmo avalia Nietzche, quando fala dos Delinquentes Pálidos pela interlocução de Zaratustra. Mas foi Paulo Sérgio Rosa Guedes, nos ombros desses gigantes, quem descreveu a conduta com clareza e simplicidade. Em A Paixão – Caminhos e Descaminhos, anuncia o quanto o sentimento de culpa é um sistema, um artifício de ver e agir que instalamos sobre o raciocínio. Com ele nos mantemos em busca do poder; nós é que sabemos como deveria ser; quando nossas ideias valem mais que a realidade; e é possível acreditar que existe um deus e que somos melhores do que ele.

Neste ponto, reconhecemos que culpa e onipotência são a mesma coisa. Na epígrafe, John Updike é empregado para afinar o tom da narrativa nesse sentido: “Que lhe dá grande prazer, faz Rabbit sentir-se rico, contemplar o desperdício do mundo, saber que a terra também é mortal”.

Paulo Sérgio explica:

“1. O sentimento de culpa nunca é consequência de algo, e sim, causa.

2. O sentimento de culpa é sempre oposto, antagônico, à vivência de responsabilidade pessoal. São sentimentos auto-excludentes apesar de, na linguagem comum, serem vistos como sinônimos.

3. O sentimento de culpa é sempre um delírio de grandeza, uma ilusão de onipotência, uma convicção absoluta de ter poder.”

Nossa reação diante do devir, especialmente diante do que nos desagrada, é condenar a realidade. Sentimo-nos poderosos: julgamos o acaso e chamamos de sorte ou azar.

Michael Beard é o exemplo típico dessa inversão. Quando chega ao Polo Norte, por exemplo, conhece que é uma questão de acidente geográfico, mas assinala que está no topo do mundo e que todos, inclusive a ex-mulher, estão abaixo dele. Nessa oportunidade, quando passou a ser admirado pelos companheiros de viagem, não pôde evitar de achar graça em virar o queridinho do grupo, mas se considerou rebaixado por dar valor às pessoas. Ao examinar a condição humana, pondera que “é a melhor, não, é a mais interessante das raças, talvez não a melhor imaginável, mas a melhor disponível”. Confia que poderíamos ser salvos de nossa natureza através da implementação de leis e do respeito à elas. Michael alcança concluir, por um relance, que não superaria a humanidade dentro dele; medita que, na hora da morte, provavelmente estaria usando meias díspares, teria emails por responder, camisas ainda estariam sem botões, a luz do corredor permaneceria com defeito, restariam contas a pagar, amigos esperando por uma resposta e amantes por conquistar. “Esquecimento, a última palavra em organização, seria seu único consolo.”

É contra essa verdade que Michael se dedica e, evidentemente, fracassa.

É um livro trágico e cômico, igual a nossa existência.

Reparação e Solar apresentam a riqueza, a dimensão da força e o antagonismo da culpa e da responsabilidade. Por serem óbvios, tão difíceis de ver. Precisamos de todas as versões disponíveis. Prova de que a arte, de fato, não avança. Não tem sentido. É como a vida: um eterno retorno.

Médica, psicoterapeuta
cinthya@clinicaverri.com.br


Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
07 de agosto de 2010 | N° 16420
Porto Alegre (RS)
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sábado, 3 de julho de 2010

Saiu na Zero de hoje [Há vida após a Copa]

ZERO HORA
03 de julho de 2010 | N° 16385
Geral | Página 3

O DIA SEGUINTE
Há vida após a Copa
Cínthya Verri*



O que fazer agora que o Brasil saiu da Copa e todos já tinham programado as duas próximas semanas de festa? Foi uma quinzena de entusiasmo e apreensão, onde os problemas poderiam ser adiados, poderíamos nos endividar, a euforia pelo próximo jogo subestimava qualquer responsabilidade sobre casamento, filhos, negócios.


Nada era importante o suficiente para ser resolvido. Ficava-se deslizando entre dois sentimentos, duvidar e acreditar, sendo que quem desconfiava dava sinal de falta de patriotismo.

Já não se tem certeza se a torcida era pelo país ou para interromper o trabalho de manhã ou de tarde e emendar com a comemoração.

Toda idealização traz orfandade. É uma falsa companhia.

O que acontece depois do primeiro dia do fim de um transe coletivo? O rumor inicial é de melancolia: um encanto se quebra, e não existe substituto para colocar no lugar. Chora-se como diante do falecimento de um ente querido. É mais engasgo do que lágrima. Um susto de como serão as coisas daqui para frente. Como a Copa é realizada de quatro em quatro anos, a sensação é de que não haverá vida até 2014.

É um momento de revolta próprio da melancolia, que se transforma em indiferença com a repetição do tema. Curiosamente, o impulso é aceitar com facilidade a derrota para a Holanda. Deve-se entender que aceitar “fácil” é modo de dizer, espécie de truque, como uma criança que confessa, diante da perda de um brinquedo, que não gostava mesmo daquela diversão.

São as primeiras 12 horas, até vir a raiva, a procura louca para pôr a frustração na conta de alguém. Definir um culpado pela tragédia. Trata-se de um mecanismo de proteção: como não funcionou a indiferença e a pontada continua incomodando, o jeito é arrumar logo um bode expiatório para se livrar de qualquer relação com a saída precoce do time.

O preferido será o técnico Dunga. A fé migra com rapidez para o ódio. Ele será identificado como o teimoso e orgulhoso que não convocou Ronaldinho e Ganso e naufragou nas quartas de final como o time de Parreira. Basta acompanhar o Twitter para descobrir que a temporada de caça às bruxas está aberta. Entre os principais tópicos, “Dunga Burro” e “Felipe Melo” ganham as preferências dos desaforos. Até sobrou para Mick Jagger, considerado pé-frio, já que torceu para Inglaterra (que perdeu para a Alemanha) e em seguida para o Brasil (em homenagem ao filho).

Vencer é obrigação, perder é fatalidade

A repulsa vai durar dois dias, entre sábado e domingo. Não se falará de outra coisa que não teorias de conspiração que culminaram na desclassificação. Todos já sabiam que isso aconteceria. Não haverá surpresa. Entra-se no terreno do “se”, o que poderia ter ocorrido com alguma mudança na ordem natural do jogo. Em nenhum instante confia-se na casualidade. A derrota é reconhecida como um erro, não uma eventualidade.

É como se estivéssemos preparados somente para a vitória, representada no hexacampeonato, e nunca para a derrota. Vencer é compreendido como uma obrigação, perder é uma fatalidade. Mas a lógica é justamente o inverso. Esta é a 19ª Copa do Mundo, e o Brasil já chegou a sete finais. Somos bem mais preparados para perder do que para ganhar. É a nossa 12ª desclassificação ao longo de 80 anos. Portanto, é uma novidade bem antiga.

O raciocínio esportivo não pode abolir o lance de dados. Comparar é sadio. Xadrez é um jogo de inteligência: decorar combinações de jogadas e antecipar movimentos fazem um bom enxadrista. Se alguém perdeu a partida, foi porque não soube jogar. Gamão é o contrário, não porque em geral está embaixo dos tabuleiros de xadrez, mas porque funciona com dados. Por mais esperteza e técnica, se alguém ganhou ou perdeu, valeu-se da sorte.

O futebol dispensa o tabuleiro e abraça o acaso. O dado do futebol é roliço, oco, redondo, varia com o vento, com a pegada, com o couro. General do campo, o azar traz o terreno místico que se materializa durante 90 minutos de ações inesperadas. Até a jogada ensaiada depende de macumba. Não há sapo enterrado que um dia não cumpra a promessa de transformar a zebra na rainha da selva.

Precisaríamos de uma final de no mínimo 23 jogos para determinar o vencedor de uma maneira considerada estatisticamente significativa – o que indica que o time mais fraco seria coroado campeão em menos de 5% das vezes. Ou seja, só a partir de 23 contendas entre dois times se poderia determinar o melhor – o melhor de verdade. Sem o dedo do acaso. Isso é obviamente inviável num evento que paralisa o mundo, que cola os pares de olhos na tela como um magneto poderoso. Mais de duas dezenas de finais em 160 dias até o resultado.

Melhor aguentar a desilusão do que tentar provar pelo cansaço quem merecia levantar a Copa. No fundo, justiça no futebol desclassificaria qualquer torcida.

CINTHYA VERRI* | *Médica e psicoterapeuta

Saiu na Zero de hoje [Há vida após a Copa]

ZERO HORA
03 de julho de 2010 | N° 16385
Geral | Página 3

O DIA SEGUINTE
Há vida após a Copa
Cínthya Verri*



O que fazer agora que o Brasil saiu da Copa e todos já tinham programado as duas próximas semanas de festa? Foi uma quinzena de entusiasmo e apreensão, onde os problemas poderiam ser adiados, poderíamos nos endividar, a euforia pelo próximo jogo subestimava qualquer responsabilidade sobre casamento, filhos, negócios.


Nada era importante o suficiente para ser resolvido. Ficava-se deslizando entre dois sentimentos, duvidar e acreditar, sendo que quem desconfiava dava sinal de falta de patriotismo.

Já não se tem certeza se a torcida era pelo país ou para interromper o trabalho de manhã ou de tarde e emendar com a comemoração.

Toda idealização traz orfandade. É uma falsa companhia.

O que acontece depois do primeiro dia do fim de um transe coletivo? O rumor inicial é de melancolia: um encanto se quebra, e não existe substituto para colocar no lugar. Chora-se como diante do falecimento de um ente querido. É mais engasgo do que lágrima. Um susto de como serão as coisas daqui para frente. Como a Copa é realizada de quatro em quatro anos, a sensação é de que não haverá vida até 2014.

É um momento de revolta próprio da melancolia, que se transforma em indiferença com a repetição do tema. Curiosamente, o impulso é aceitar com facilidade a derrota para a Holanda. Deve-se entender que aceitar “fácil” é modo de dizer, espécie de truque, como uma criança que confessa, diante da perda de um brinquedo, que não gostava mesmo daquela diversão.

São as primeiras 12 horas, até vir a raiva, a procura louca para pôr a frustração na conta de alguém. Definir um culpado pela tragédia. Trata-se de um mecanismo de proteção: como não funcionou a indiferença e a pontada continua incomodando, o jeito é arrumar logo um bode expiatório para se livrar de qualquer relação com a saída precoce do time.

O preferido será o técnico Dunga. A fé migra com rapidez para o ódio. Ele será identificado como o teimoso e orgulhoso que não convocou Ronaldinho e Ganso e naufragou nas quartas de final como o time de Parreira. Basta acompanhar o Twitter para descobrir que a temporada de caça às bruxas está aberta. Entre os principais tópicos, “Dunga Burro” e “Felipe Melo” ganham as preferências dos desaforos. Até sobrou para Mick Jagger, considerado pé-frio, já que torceu para Inglaterra (que perdeu para a Alemanha) e em seguida para o Brasil (em homenagem ao filho).

Vencer é obrigação, perder é fatalidade

A repulsa vai durar dois dias, entre sábado e domingo. Não se falará de outra coisa que não teorias de conspiração que culminaram na desclassificação. Todos já sabiam que isso aconteceria. Não haverá surpresa. Entra-se no terreno do “se”, o que poderia ter ocorrido com alguma mudança na ordem natural do jogo. Em nenhum instante confia-se na casualidade. A derrota é reconhecida como um erro, não uma eventualidade.

É como se estivéssemos preparados somente para a vitória, representada no hexacampeonato, e nunca para a derrota. Vencer é compreendido como uma obrigação, perder é uma fatalidade. Mas a lógica é justamente o inverso. Esta é a 19ª Copa do Mundo, e o Brasil já chegou a sete finais. Somos bem mais preparados para perder do que para ganhar. É a nossa 12ª desclassificação ao longo de 80 anos. Portanto, é uma novidade bem antiga.

O raciocínio esportivo não pode abolir o lance de dados. Comparar é sadio. Xadrez é um jogo de inteligência: decorar combinações de jogadas e antecipar movimentos fazem um bom enxadrista. Se alguém perdeu a partida, foi porque não soube jogar. Gamão é o contrário, não porque em geral está embaixo dos tabuleiros de xadrez, mas porque funciona com dados. Por mais esperteza e técnica, se alguém ganhou ou perdeu, valeu-se da sorte.

O futebol dispensa o tabuleiro e abraça o acaso. O dado do futebol é roliço, oco, redondo, varia com o vento, com a pegada, com o couro. General do campo, o azar traz o terreno místico que se materializa durante 90 minutos de ações inesperadas. Até a jogada ensaiada depende de macumba. Não há sapo enterrado que um dia não cumpra a promessa de transformar a zebra na rainha da selva.

Precisaríamos de uma final de no mínimo 23 jogos para determinar o vencedor de uma maneira considerada estatisticamente significativa – o que indica que o time mais fraco seria coroado campeão em menos de 5% das vezes. Ou seja, só a partir de 23 contendas entre dois times se poderia determinar o melhor – o melhor de verdade. Sem o dedo do acaso. Isso é obviamente inviável num evento que paralisa o mundo, que cola os pares de olhos na tela como um magneto poderoso. Mais de duas dezenas de finais em 160 dias até o resultado.

Melhor aguentar a desilusão do que tentar provar pelo cansaço quem merecia levantar a Copa. No fundo, justiça no futebol desclassificaria qualquer torcida.

CINTHYA VERRI* | *Médica e psicoterapeuta

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Da Etiologia do Sofrimento Mental II



Chove em Porto Alegre


Introdução

Algumas pessoas sentem amor próprio com naturalidade. Outros pesquisam continuamente nos relacionamentos, na compra de propriedades ou na carreira tentando encontrá-lo.

Como acontece essa diferença?

Primeiro, precisamos distinguir entre quem está buscando vitórias e quem ama. O primeiro quer poder. Acredita em ter orgulho, em ser superior, em ter autoridade. Quem quer o amor, sabe encontrá-lo sem partir em nenhuma direção: as coisas são vistas com simplicidade.

Em geral, quem busca o poder sequer procura a satisfação: quer primeiro a adversidade. Somente através de dificuldades, de superar-se é que sente, por alguns segundos, o alívio de conseguir.

Imediatamente isso desaparece. Ele volta a exigir-se com fervor.

Não sabe disso, mas esta pessoa, em si, não vale nada para ela. Como estas coisas que busca também não têm valor duradouro, ela recomeça o ciclo da desvalia.


Berço Esplêndido

Algumas sugestões de origem para este desvalor parecem apontar para experiências na infância. O que chamamos auto-estima começa, inicialmente, na estima que os pais têm pelos seus filhos, no apego seguro nascido nos primeiros anos.

Através de atos simples como ser tocado, receber atenção aos sentimentos e orientação para realização de um objetivo, o bebê passa a ver seu valor refletido nos olhos dos pais: a ver-se desejável, ou seja, digno e capaz de ser amado.

Estes sentimentos são tão poderosos que têm sido reconhecidos por influenciar a longevidade.

Um bebê, quando se arrisca à autonomia de sentar-se, por exemplo, convida a mãe a reagir. Algumas reconhecerão a coragem e a capacidade que ele tem. Outras, temerárias, saltarão na direção do movimento para ampará-lo. Esse regate imediato tende a assustar o bebê. O que pode ler disso é que corria perigo. Ao contrário, a mãe que sorri tranqüila, apresenta reconhecimento da atitude bravia premiando e reforçando a tentativa.

Esse esteio em presença exagerada toma o lugar do desafio. Toma o lugar do esqueleto de quem está em desenvolvimento. É uma forma de abuso.

O bebê que não recebe estímulo nenhum, por sua vez, pousará na indiferença do olhar. Não receberá sorrisos, consolos, reforços. Também ele estará tendendo à inércia do desejo.

Existe uma coluna vertebral das atitudes: ela nasce a partir das tentativas que fazemos com naturalidade logo que nascemos.

Se, através de diferentes formas de abuso ou negligência, um bebê não consegue obter esse espelho amoroso de suas capacidades, duas coisas acontecem com freqüência:

a primeira: a criança começa a pensar-se defeituosa, rejeitada.

Uma vez que, para nós quando crianças, os pais são divindades, o abuso e a negligência parental (incluindo a insensibilidade aos sentimentos) são vividos como plenamente justificados:

"Se a mamãe ou o papai me tratam desta maneira, deve ser culpa minha."

Uma segunda coisa também acontece: na infância, somos mestres na elaboração de estratégias para seduzir ou prevenir o abandono. Uma estratégia comum de proteção é o perfeccionismo:

"Se eu sou perfeito, então a mamãe ou o papai vão me amar."

Tentar não ter falhas ou não fracassar possivelmente seja uma busca obsessiva e vitalícia: quer seja pelo parceiro perfeito, pela conquista perfeita, pela diversão perfeita. Mas o resultado sempre será decepcionante. A busca pelo acerto, pela sensação de dominar o acontecimento, não substitui o amor próprio.

No lugar disso, já que a perfeição não acontece, nasce uma satisfação inventada: a busca da ilusão de poder; a sensação de controle sobre a vida. Uma miragem que nasce quando não admitimos a contrariedade, a frustração.

Sentimos que somos fortes, por exemplo, toda vez que resistimos a realizar um desejo nosso. É como se o sacrifício nos elevasse. A educação nos emprestasse nobreza. É fácil confundir com generosidade.

Inflamos na medida em que nos colocamos de lado e atendemos àquele que julgamos precisar mais. Assim fazemos de conta de que não carecemos, de que somos completos.

Levar a vida como ela deve ser cumprida, atendendo a tarefas, obedecendo a ordens, atendendo expectativas de familiares também é viver em busca da ilusão de ter poder.

Isso é o que entra no lugar de nos satisfazermos, de sentirmos prazer. Esse é o caminho que resta enquanto temos medo de lutar pelo que gostamos ou medo de recebermos uma punição por fazer o que queremos.


Pode Ser Diferente

Existe cura para quem não recebeu cuidado suficiente na infância ou para quem dedica sua existência à busca da ilusão de poder.

Assim como é para qualquer coisa que valha a pena, para isso é preciso esforço.

Uma boa oportunidade de cura está no modo como vivemos as nossas memórias de parentalidade. Elas não são estáticas recordações e nem mesmo são retratos fiéis.

Cada um de nós carrega pais-internos: uma voz que fala como nossos pais faziam. Se eles nos confirmavam, a auto-palestra será apoiadora. Se nossos pais eram essencialmente negativos, tenderemos a ser autocríticos na maior parte do tempo. Algumas destas ofensas serão simples repetições do que ouvíamos.

Porém, a reprodução da atitude dos pais não é o que mais comumente acontece, mas sim a repetição da saída que achamos na infância. A criança culpa e ataca a si mesma para proteger os pais; para salvá-los; para justificar as atitudes deles; e para buscar o controle do que acontece com ela: assim poderá pensar que depende dela o resultado dos eventos. Será ao menos possível acreditar que os erros e os sofrimentos podem ser evitados.

Nisso residem a fonte de muito do nosso sofrimento e as sementes da nossa renovação.


Carinho por Mim

Quem mantém boa auto-estima sabe falar amorosamente a si mesmo, especialmente quando sob estresse.

Ao contrário é o auto-agressor: tenta obrigar-se, dominar-se, ter poder sobre si.

Ao perceber isso, criamos uma via para a mudança. A meta precisa ser: mudar a forma de falar conosco.

Espantoso como é possível discursar de maneira diferente em várias ocasiões. Por exemplo, se estamos tendo um bom dia, muitas vezes refletimos isso com pensamentos positivos. Nesses momentos, a mente pode ser muito calma e pacífica. Ao contrário, quando estamos sob estresse ou após experimentar algumas decepções, podemos ser bastante negativos e cheios de pensamentos combativos e que se repetem sem cessar.

Julgamos que aquilo está errado, que precisamos desvendar como aconteceu para que não se repita. Queremos ter esse poder de governar um destino, de comandar a realidade.

Quando angustiados, e com o pensamento congelado, estaremos re-experimentando aquele estado de espírito de busca de controle, de quem acredita que o sofrimento pode ser evitado.

Uma vez que possamos reconhecer que partimos de um sentimento expansivo e responsável para um estado regredido, de quem se ilude com a possibilidade de dominar as situações futuras, passaremos a usar um dom maravilhoso: será possível sentir compaixão.

A compaixão é colocar-se em nosso lugar. Parece paradoxal, mas não é.

Em um estado de muita violência consigo, esquecemos de quem somos, desvalorizamos nossas atitudes, desconsideramos o acaso. É quando falamos do que acontece em nossa vida e de nossas atitudes como se fossem queixas de outra pessoa:

"eu não fiz, acredita? Era só ligar para lá e não liguei"; "eu não tenho jeito, mesmo. Acabei comendo aquilo tudo"; "eu não presto pra nada"; "eu começo e não termino", e assim por diante.

Isso é não se compreender. Poderíamos tratar melhor a um amigo na situação equivalente, mas não a nós mesmos. Isso pode ser diferente.

Desde a compaixão é que realmente teremos mais cuidado conosco e tomaremos Ações de quem é responsável por si mesmo.

Em um estado de espírito de busca de poder, achamo-nos impotentes e passivos. Nosso sermão particular incluirá declarações ansiosas:

"eu nunca vou ser bom o suficiente", "Eu não posso fazer isso", "e se".

E caberão auto-agressões:

"acorde!", "cresça!", ou "deixe de ser maluco"!


Sou um incapaz

A forma como se interpreta uma situação, o que cada um diz a si mesmo a respeito dela, é um dos pontos chave que determina se vamos enfrentar eficazmente o caso ou se vamos sentir-nos incompetentes para fazê-lo.

Neste sentido existe uma série de pensamentos que poderiam chamar-se improdutivos:

- centrados nos aspectos negativos das situações magnificando-os e esquecendo os positivos;

- dirigidos ao pior que possa ocorrer, mesmo que as possibilidades disso sejam remotas;

- focados ao próprio encargo em relação ao que vai mal e estimulantes do auto castigo.

Em resumo, são pensamentos que ao invés de interpretar objetivamente a realidade e buscar a solução para os problemas, empenham-se em negativizar o panorama e conseguindo, às vezes, bloquear qualquer intento de solução.

Por isso, quando nos sentimos incapazes de enfrentar a uma situação e começamos a entrar no jogo dos pensamentos improdutivos, pode ser útil dizer-se: para que me serve pensar isso? Se o que acontece é que me sinto pior. O que será que estou evitando pensar? De que trabalho estou querendo me poupar?


Assumindo novas possibilidades

Quando reconhecemos que estamos mal, e nos compadecemos de nossa condição humana vulnerável, temos de afirmar nossas energias interiores responsáveis e autênticas. Essas ações são aquelas que ajudam a deslocar-nos para fora de um estado de quem deseja ter poder em direção a um senso mais expansivo e responsável.

Basta praticar Ações Responsáveis que envolvam maior auto-cuidado. Às vezes, isso implica simplesmente na aceitação dos reais sentimentos que temos, sem falso pudor. Para que manter a censura se ninguém mais está sabendo?

Em outras ocasiões, implica em reconhecer e tomar cuidado ativamente das nossas necessidades. Tratar de preparar uma bela refeição para nós mesmos ou ligar para um amigo.

A Ação Responsável é, em essência, ser um pai-interno bom.

Às vezes isso parece insuficiente e tolo. Pressupomos que de nada vai adiantar uma coisa assim. Mas saber e não fazer é ainda não saber.

Muitas vezes, também, a Ação Responsável envolve desafiar o nosso fluxo de desvalorização.

Isso significa ter coragem para redesenhar um raciocínio para adotar um lugar de apoiar-se mais que se criticar em qualquer circunstância. Por exemplo, diante de um primeiro encontro romântico mal sucedido, os pensamentos improdutivos seriam: "fiquei nervosíssima"; "não sabia o que dizer pra ele"; "terminei chorando". Reavaliando, poderia dizer-se: "tentei quebrar o gelo"; "cheguei a abrir-me para receber resposta"; "insisti e não fui embora correndo".

Isto é muito mais fácil quando percebemos que estamos em um estado de espírito de busca de poder.

Sempre que estivermos tendo catastróficas reflexões sobre o futuro ou nos sentindo injustiçadas vítimas do passado, será possível que nos tornemos mais relaxados.

Se reconhecermos que o nosso pensamento parece mais a crença de um arrogante controlador do que de uma pessoa completa e responsável, isso pode nos dar a compaixão - e, muitas vezes, uma perspectiva humorística.

Da Etiologia do Sofrimento Mental II



Chove em Porto Alegre


Introdução

Algumas pessoas sentem amor próprio com naturalidade. Outros pesquisam continuamente nos relacionamentos, na compra de propriedades ou na carreira tentando encontrá-lo.

Como acontece essa diferença?

Primeiro, precisamos distinguir entre quem está buscando vitórias e quem ama. O primeiro quer poder. Acredita em ter orgulho, em ser superior, em ter autoridade. Quem quer o amor, sabe encontrá-lo sem partir em nenhuma direção: as coisas são vistas com simplicidade.

Em geral, quem busca o poder sequer procura a satisfação: quer primeiro a adversidade. Somente através de dificuldades, de superar-se é que sente, por alguns segundos, o alívio de conseguir.

Imediatamente isso desaparece. Ele volta a exigir-se com fervor.

Não sabe disso, mas esta pessoa, em si, não vale nada para ela. Como estas coisas que busca também não têm valor duradouro, ela recomeça o ciclo da desvalia.


Berço Esplêndido

Algumas sugestões de origem para este desvalor parecem apontar para experiências na infância. O que chamamos auto-estima começa, inicialmente, na estima que os pais têm pelos seus filhos, no apego seguro nascido nos primeiros anos.

Através de atos simples como ser tocado, receber atenção aos sentimentos e orientação para realização de um objetivo, o bebê passa a ver seu valor refletido nos olhos dos pais: a ver-se desejável, ou seja, digno e capaz de ser amado.

Estes sentimentos são tão poderosos que têm sido reconhecidos por influenciar a longevidade.

Um bebê, quando se arrisca à autonomia de sentar-se, por exemplo, convida a mãe a reagir. Algumas reconhecerão a coragem e a capacidade que ele tem. Outras, temerárias, saltarão na direção do movimento para ampará-lo. Esse regate imediato tende a assustar o bebê. O que pode ler disso é que corria perigo. Ao contrário, a mãe que sorri tranqüila, apresenta reconhecimento da atitude bravia premiando e reforçando a tentativa.

Esse esteio em presença exagerada toma o lugar do desafio. Toma o lugar do esqueleto de quem está em desenvolvimento. É uma forma de abuso.

O bebê que não recebe estímulo nenhum, por sua vez, pousará na indiferença do olhar. Não receberá sorrisos, consolos, reforços. Também ele estará tendendo à inércia do desejo.

Existe uma coluna vertebral das atitudes: ela nasce a partir das tentativas que fazemos com naturalidade logo que nascemos.

Se, através de diferentes formas de abuso ou negligência, um bebê não consegue obter esse espelho amoroso de suas capacidades, duas coisas acontecem com freqüência:

a primeira: a criança começa a pensar-se defeituosa, rejeitada.

Uma vez que, para nós quando crianças, os pais são divindades, o abuso e a negligência parental (incluindo a insensibilidade aos sentimentos) são vividos como plenamente justificados:

"Se a mamãe ou o papai me tratam desta maneira, deve ser culpa minha."

Uma segunda coisa também acontece: na infância, somos mestres na elaboração de estratégias para seduzir ou prevenir o abandono. Uma estratégia comum de proteção é o perfeccionismo:

"Se eu sou perfeito, então a mamãe ou o papai vão me amar."

Tentar não ter falhas ou não fracassar possivelmente seja uma busca obsessiva e vitalícia: quer seja pelo parceiro perfeito, pela conquista perfeita, pela diversão perfeita. Mas o resultado sempre será decepcionante. A busca pelo acerto, pela sensação de dominar o acontecimento, não substitui o amor próprio.

No lugar disso, já que a perfeição não acontece, nasce uma satisfação inventada: a busca da ilusão de poder; a sensação de controle sobre a vida. Uma miragem que nasce quando não admitimos a contrariedade, a frustração.

Sentimos que somos fortes, por exemplo, toda vez que resistimos a realizar um desejo nosso. É como se o sacrifício nos elevasse. A educação nos emprestasse nobreza. É fácil confundir com generosidade.

Inflamos na medida em que nos colocamos de lado e atendemos àquele que julgamos precisar mais. Assim fazemos de conta de que não carecemos, de que somos completos.

Levar a vida como ela deve ser cumprida, atendendo a tarefas, obedecendo a ordens, atendendo expectativas de familiares também é viver em busca da ilusão de ter poder.

Isso é o que entra no lugar de nos satisfazermos, de sentirmos prazer. Esse é o caminho que resta enquanto temos medo de lutar pelo que gostamos ou medo de recebermos uma punição por fazer o que queremos.


Pode Ser Diferente

Existe cura para quem não recebeu cuidado suficiente na infância ou para quem dedica sua existência à busca da ilusão de poder.

Assim como é para qualquer coisa que valha a pena, para isso é preciso esforço.

Uma boa oportunidade de cura está no modo como vivemos as nossas memórias de parentalidade. Elas não são estáticas recordações e nem mesmo são retratos fiéis.

Cada um de nós carrega pais-internos: uma voz que fala como nossos pais faziam. Se eles nos confirmavam, a auto-palestra será apoiadora. Se nossos pais eram essencialmente negativos, tenderemos a ser autocríticos na maior parte do tempo. Algumas destas ofensas serão simples repetições do que ouvíamos.

Porém, a reprodução da atitude dos pais não é o que mais comumente acontece, mas sim a repetição da saída que achamos na infância. A criança culpa e ataca a si mesma para proteger os pais; para salvá-los; para justificar as atitudes deles; e para buscar o controle do que acontece com ela: assim poderá pensar que depende dela o resultado dos eventos. Será ao menos possível acreditar que os erros e os sofrimentos podem ser evitados.

Nisso residem a fonte de muito do nosso sofrimento e as sementes da nossa renovação.


Carinho por Mim

Quem mantém boa auto-estima sabe falar amorosamente a si mesmo, especialmente quando sob estresse.

Ao contrário é o auto-agressor: tenta obrigar-se, dominar-se, ter poder sobre si.

Ao perceber isso, criamos uma via para a mudança. A meta precisa ser: mudar a forma de falar conosco.

Espantoso como é possível discursar de maneira diferente em várias ocasiões. Por exemplo, se estamos tendo um bom dia, muitas vezes refletimos isso com pensamentos positivos. Nesses momentos, a mente pode ser muito calma e pacífica. Ao contrário, quando estamos sob estresse ou após experimentar algumas decepções, podemos ser bastante negativos e cheios de pensamentos combativos e que se repetem sem cessar.

Julgamos que aquilo está errado, que precisamos desvendar como aconteceu para que não se repita. Queremos ter esse poder de governar um destino, de comandar a realidade.

Quando angustiados, e com o pensamento congelado, estaremos re-experimentando aquele estado de espírito de busca de controle, de quem acredita que o sofrimento pode ser evitado.

Uma vez que possamos reconhecer que partimos de um sentimento expansivo e responsável para um estado regredido, de quem se ilude com a possibilidade de dominar as situações futuras, passaremos a usar um dom maravilhoso: será possível sentir compaixão.

A compaixão é colocar-se em nosso lugar. Parece paradoxal, mas não é.

Em um estado de muita violência consigo, esquecemos de quem somos, desvalorizamos nossas atitudes, desconsideramos o acaso. É quando falamos do que acontece em nossa vida e de nossas atitudes como se fossem queixas de outra pessoa:

"eu não fiz, acredita? Era só ligar para lá e não liguei"; "eu não tenho jeito, mesmo. Acabei comendo aquilo tudo"; "eu não presto pra nada"; "eu começo e não termino", e assim por diante.

Isso é não se compreender. Poderíamos tratar melhor a um amigo na situação equivalente, mas não a nós mesmos. Isso pode ser diferente.

Desde a compaixão é que realmente teremos mais cuidado conosco e tomaremos Ações de quem é responsável por si mesmo.

Em um estado de espírito de busca de poder, achamo-nos impotentes e passivos. Nosso sermão particular incluirá declarações ansiosas:

"eu nunca vou ser bom o suficiente", "Eu não posso fazer isso", "e se".

E caberão auto-agressões:

"acorde!", "cresça!", ou "deixe de ser maluco"!


Sou um incapaz

A forma como se interpreta uma situação, o que cada um diz a si mesmo a respeito dela, é um dos pontos chave que determina se vamos enfrentar eficazmente o caso ou se vamos sentir-nos incompetentes para fazê-lo.

Neste sentido existe uma série de pensamentos que poderiam chamar-se improdutivos:

- centrados nos aspectos negativos das situações magnificando-os e esquecendo os positivos;

- dirigidos ao pior que possa ocorrer, mesmo que as possibilidades disso sejam remotas;

- focados ao próprio encargo em relação ao que vai mal e estimulantes do auto castigo.

Em resumo, são pensamentos que ao invés de interpretar objetivamente a realidade e buscar a solução para os problemas, empenham-se em negativizar o panorama e conseguindo, às vezes, bloquear qualquer intento de solução.

Por isso, quando nos sentimos incapazes de enfrentar a uma situação e começamos a entrar no jogo dos pensamentos improdutivos, pode ser útil dizer-se: para que me serve pensar isso? Se o que acontece é que me sinto pior. O que será que estou evitando pensar? De que trabalho estou querendo me poupar?


Assumindo novas possibilidades

Quando reconhecemos que estamos mal, e nos compadecemos de nossa condição humana vulnerável, temos de afirmar nossas energias interiores responsáveis e autênticas. Essas ações são aquelas que ajudam a deslocar-nos para fora de um estado de quem deseja ter poder em direção a um senso mais expansivo e responsável.

Basta praticar Ações Responsáveis que envolvam maior auto-cuidado. Às vezes, isso implica simplesmente na aceitação dos reais sentimentos que temos, sem falso pudor. Para que manter a censura se ninguém mais está sabendo?

Em outras ocasiões, implica em reconhecer e tomar cuidado ativamente das nossas necessidades. Tratar de preparar uma bela refeição para nós mesmos ou ligar para um amigo.

A Ação Responsável é, em essência, ser um pai-interno bom.

Às vezes isso parece insuficiente e tolo. Pressupomos que de nada vai adiantar uma coisa assim. Mas saber e não fazer é ainda não saber.

Muitas vezes, também, a Ação Responsável envolve desafiar o nosso fluxo de desvalorização.

Isso significa ter coragem para redesenhar um raciocínio para adotar um lugar de apoiar-se mais que se criticar em qualquer circunstância. Por exemplo, diante de um primeiro encontro romântico mal sucedido, os pensamentos improdutivos seriam: "fiquei nervosíssima"; "não sabia o que dizer pra ele"; "terminei chorando". Reavaliando, poderia dizer-se: "tentei quebrar o gelo"; "cheguei a abrir-me para receber resposta"; "insisti e não fui embora correndo".

Isto é muito mais fácil quando percebemos que estamos em um estado de espírito de busca de poder.

Sempre que estivermos tendo catastróficas reflexões sobre o futuro ou nos sentindo injustiçadas vítimas do passado, será possível que nos tornemos mais relaxados.

Se reconhecermos que o nosso pensamento parece mais a crença de um arrogante controlador do que de uma pessoa completa e responsável, isso pode nos dar a compaixão - e, muitas vezes, uma perspectiva humorística.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Da Etiologia do Sofrimento Mental

Alinhar ao centro
Ben Tour´s fine art work


Algumas pessoas sentem amor próprio com naturalidade. Outros pesquisam a felicidade continuamente nos relacionamentos, na compra de propriedades ou na carreira.

Como acontece essa diferença?

Primeiro, precisamos distinguir entre quem está buscando vitórias e quem ama. O primeiro quer poder. Acredita em ter orgulho, em ser superior, em ter autoridade. Quem quer o amor, encontra sem partir em nenhuma direção.

Em geral, quem busca o poder não procura a satisfação diretamente: quer a adversidade. Somente através de dificuldades, de superar-se é que sente, por alguns segundos, o alívio de conseguir. Imediatamente isso desaparece. Ele volta a exigir-se com fervor.

Não sabe disso, mas esta pessoa, em si, não vale nada para ela. Como as coisas também não têm valor, recomeça.

Algumas sugestões de origem para esse comportamento parecem apontar para experiências na infância. O que chamamos auto-estima começa, inicialmente, na estima que os pais têm pelos seus filhos, no apego seguro nascido nos primeiros anos.

Através de atos simples como ser tocado, receber atenção aos sentimentos e orientação para realização de um objetivo, o bebê passa a ver seu valor refletido nos olhos dos pais: a ver-se desejável, ou seja, digno e capaz de ser amado. Estes sentimentos são tão poderosos que têm sido reconhecidos por influenciar a longevidade.

Se, através de diferentes formas de maus tratos, um bebê não consegue obter esse espelho amoroso, duas coisas acontecem com freqüência:
primeiro: a criança começa a pensar-se defeituosa, rejeitada.

Uma vez que, para nós quando crianças, os pais são divindades, o abuso e a negligência parental (incluindo a insensibilidade aos sentimentos) são vividos como plenamente justificados:

"Se a mamãe ou o papai me tratam desta maneira, deve ser culpa minha."

Uma segunda coisa também acontece: na infância, somos mestres na elaboração de estratégias para seduzir ou prevenir o abandono. Uma estratégia comum de proteção é o perfeccionismo:

"Se eu sou perfeito, então a mamãe ou o papai vão me amar."

Tentar não ter falhas ou não fracassar, possivelmente seja uma busca obsessiva e vitalícia: quer seja pelo parceiro perfeito, pela conquista perfeita, pela diversão perfeita. Mas o resultado sempre será decepcionante. A busca pelo acerto, pela sensação de dominar o acontecimento, não substitui o amor próprio.

No lugar disso, já que a perfeição não acontece, nasce uma satisfação inventada – a busca da ilusão de poder: a sensação de controle sobre a vida. Uma idéia que nasce quando não admitimos a contrariedade, a frustração.

Achamos que somos fortes, por exemplo, toda vez que resistimos a realizar um desejo nosso. É como se o sacrifício nos elevasse. Sentimos que inflamos na medida em que nos colocamos de lado e atendemos àquele que julgamos precisar mais. Assim fazemos de conta de que não carecemos, de que somos completos.

Levar a vida como ela deve ser cumprida, consentindo a tarefas, obedecendo a ordens, atendendo a expectativas de familiares – isso é viver em busca da ilusão de ter poder. Isso é o que entra no lugar de nos satisfazermos, de sentirmos prazer. É o caminho que resta enquanto temos receio de lutar pelo que gostamos ou medo de receber uma punição por fazer o que queremos.

Existe cura para quem não recebeu cuidado suficiente na infância ou para quem existe buscando a ilusão de poder.

Assim como é com qualquer coisa que valha a pena, para isso é preciso esforço.
Uma boa oportunidade de cura está no modo como vivemos as nossas memórias de parentalidade. Elas não são simplesmente estáticas reminiscências.
Cada um de nós carrega pais-internos: uma voz que fala como nossos pais fizeram. Se eles nos apoiaram, a nossa auto-palestra será apoiadora também. Se nossos pais foram essencialmente negativos, tenderemos a ser autocríticos na maior parte do tempo. Algumas destas ofensas serão simples repetições do que ouvimos.

Mais freqüentemente, porém, uma criança culpa e ataca a si mesma para proteger a relação com os pais – para justificar as atitudes deles buscando o controle do que acontece com ela – para pensar que o resultado dos eventos depende dela.

Nisso residem a fonte de muito do nosso sofrimento e as sementes da nossa renovação.
Quem mantém boa auto-estima sabe falar amorosamente a si mesmo, especialmente quando sob estresse. Ao contrário é o auto-agressor: tenta obrigar-se, dominar-se, ter poder sobre si.

Ao perceber isso, criamos uma via para a mudança: a meta precisa ser: mudar a forma de falar conosco.

Espantoso como é possível discursar de maneira diferente em várias ocasiões. Por exemplo, se estamos tendo um bom dia, muitas vezes refletimos isso com pensamentos positivos. Nesses momentos, a mente pode ser muito calma e pacífica. Ao contrário, quando estamos sob estresse ou após experimentar algumas decepções, podemos ser bastante negativos e cheios de pensamentos combativos e que se repetem sem cessar.

Julgamos que aquilo está errado, que precisamos desvendar como aconteceu para que não se repita. Queremos ter esse poder de governar um destino, de comandar a realidade.

Quando angustiados, e com o pensamento congelado, estaremos re-experimentando aquele estado de espírito infantil de busca de controle, de quem acredita que o sofrimento pode ser evitado.

Uma vez que possamos reconhecer que partimos de um sentimento expansivo e responsável para um estado infantil de quem se ilude com a possibilidade de dominar as situações futuras, passaremos a usar um dom maravilhoso: será possível sentir compaixão.

A compaixão é colocar-se em nosso lugar. Parece paradoxal, mas não é.
Em um estado como aquele, de muita violência consigo, esquecemos de quem somos, desvalorizamos nossas atitudes, desconsideramos o acaso.

Desde a compaixão é que realmente teremos mais cuidado conosco e tomaremos Ações de quem é responsável por si mesmo.

Em um estado de espírito de busca de poder, achamo-nos impotentes e passivos. Nosso sermão particular incluirá declarações ansiosas - "eu nunca vou ser bom o suficiente", "Eu não posso fazer isso", “isso não é para mim”, "e se"; e auto-agressões: "acorde!", "cresça!", ou "deixe de ser maluco”!

Quando reconhecemos que estamos mal, e nos compadecemos de nossa condição humana vulnerável, temos de afirmar nossas energias interiores responsáveis e autênticas. Essas ações são aquelas que ajudam a deslocar-nos para fora de um estado de quem deseja ter poder em direção a um senso mais expansivo e responsável.

Basta praticar Ações Responsáveis que envolvam maior auto-cuidado. Às vezes, isso implica simplesmente na aceitação de nossos reais sentimentos.

Em outras ocasiões, inclui reconhecer e tomar cuidado ativamente das nossas necessidades. Tratar de preparar uma bela refeição para nós mesmos ou ligar para um amigo.
A Ação Responsável é, em essência, ser um pai-interno bom.

Muitas vezes, também, a Ação Responsável envolve desafiar o nosso fluxo de desvalorização. Isto é muito mais fácil de fazer quando percebemos que estamos em um estado de espírito infantil de busca de poder.

Por exemplo, sempre que estivermos tendo catastróficas reflexões sobre o futuro ou nos sentindo injustiçadas vítimas do passado, será possível que nos tornemos mais relaxados.

Se reconhecermos que o nosso pensamento parece mais o de uma criança do que o de um adulto completo e responsável, isso pode nos dar a compaixão - e, muitas vezes, uma perspectiva humorística.

Por amor, critique o ensaio.
Estou precisando de opiniões a respeito da clareza,
especialmente. Ficou confuso? Com amor e um beijo meu,
Cínthya

Da Etiologia do Sofrimento Mental

Alinhar ao centro
Ben Tour´s fine art work


Algumas pessoas sentem amor próprio com naturalidade. Outros pesquisam a felicidade continuamente nos relacionamentos, na compra de propriedades ou na carreira.

Como acontece essa diferença?

Primeiro, precisamos distinguir entre quem está buscando vitórias e quem ama. O primeiro quer poder. Acredita em ter orgulho, em ser superior, em ter autoridade. Quem quer o amor, encontra sem partir em nenhuma direção.

Em geral, quem busca o poder não procura a satisfação diretamente: quer a adversidade. Somente através de dificuldades, de superar-se é que sente, por alguns segundos, o alívio de conseguir. Imediatamente isso desaparece. Ele volta a exigir-se com fervor.

Não sabe disso, mas esta pessoa, em si, não vale nada para ela. Como as coisas também não têm valor, recomeça.

Algumas sugestões de origem para esse comportamento parecem apontar para experiências na infância. O que chamamos auto-estima começa, inicialmente, na estima que os pais têm pelos seus filhos, no apego seguro nascido nos primeiros anos.

Através de atos simples como ser tocado, receber atenção aos sentimentos e orientação para realização de um objetivo, o bebê passa a ver seu valor refletido nos olhos dos pais: a ver-se desejável, ou seja, digno e capaz de ser amado. Estes sentimentos são tão poderosos que têm sido reconhecidos por influenciar a longevidade.

Se, através de diferentes formas de maus tratos, um bebê não consegue obter esse espelho amoroso, duas coisas acontecem com freqüência:
primeiro: a criança começa a pensar-se defeituosa, rejeitada.

Uma vez que, para nós quando crianças, os pais são divindades, o abuso e a negligência parental (incluindo a insensibilidade aos sentimentos) são vividos como plenamente justificados:

"Se a mamãe ou o papai me tratam desta maneira, deve ser culpa minha."

Uma segunda coisa também acontece: na infância, somos mestres na elaboração de estratégias para seduzir ou prevenir o abandono. Uma estratégia comum de proteção é o perfeccionismo:

"Se eu sou perfeito, então a mamãe ou o papai vão me amar."

Tentar não ter falhas ou não fracassar, possivelmente seja uma busca obsessiva e vitalícia: quer seja pelo parceiro perfeito, pela conquista perfeita, pela diversão perfeita. Mas o resultado sempre será decepcionante. A busca pelo acerto, pela sensação de dominar o acontecimento, não substitui o amor próprio.

No lugar disso, já que a perfeição não acontece, nasce uma satisfação inventada – a busca da ilusão de poder: a sensação de controle sobre a vida. Uma idéia que nasce quando não admitimos a contrariedade, a frustração.

Achamos que somos fortes, por exemplo, toda vez que resistimos a realizar um desejo nosso. É como se o sacrifício nos elevasse. Sentimos que inflamos na medida em que nos colocamos de lado e atendemos àquele que julgamos precisar mais. Assim fazemos de conta de que não carecemos, de que somos completos.

Levar a vida como ela deve ser cumprida, consentindo a tarefas, obedecendo a ordens, atendendo a expectativas de familiares – isso é viver em busca da ilusão de ter poder. Isso é o que entra no lugar de nos satisfazermos, de sentirmos prazer. É o caminho que resta enquanto temos receio de lutar pelo que gostamos ou medo de receber uma punição por fazer o que queremos.

Existe cura para quem não recebeu cuidado suficiente na infância ou para quem existe buscando a ilusão de poder.

Assim como é com qualquer coisa que valha a pena, para isso é preciso esforço.
Uma boa oportunidade de cura está no modo como vivemos as nossas memórias de parentalidade. Elas não são simplesmente estáticas reminiscências.
Cada um de nós carrega pais-internos: uma voz que fala como nossos pais fizeram. Se eles nos apoiaram, a nossa auto-palestra será apoiadora também. Se nossos pais foram essencialmente negativos, tenderemos a ser autocríticos na maior parte do tempo. Algumas destas ofensas serão simples repetições do que ouvimos.

Mais freqüentemente, porém, uma criança culpa e ataca a si mesma para proteger a relação com os pais – para justificar as atitudes deles buscando o controle do que acontece com ela – para pensar que o resultado dos eventos depende dela.

Nisso residem a fonte de muito do nosso sofrimento e as sementes da nossa renovação.
Quem mantém boa auto-estima sabe falar amorosamente a si mesmo, especialmente quando sob estresse. Ao contrário é o auto-agressor: tenta obrigar-se, dominar-se, ter poder sobre si.

Ao perceber isso, criamos uma via para a mudança: a meta precisa ser: mudar a forma de falar conosco.

Espantoso como é possível discursar de maneira diferente em várias ocasiões. Por exemplo, se estamos tendo um bom dia, muitas vezes refletimos isso com pensamentos positivos. Nesses momentos, a mente pode ser muito calma e pacífica. Ao contrário, quando estamos sob estresse ou após experimentar algumas decepções, podemos ser bastante negativos e cheios de pensamentos combativos e que se repetem sem cessar.

Julgamos que aquilo está errado, que precisamos desvendar como aconteceu para que não se repita. Queremos ter esse poder de governar um destino, de comandar a realidade.

Quando angustiados, e com o pensamento congelado, estaremos re-experimentando aquele estado de espírito infantil de busca de controle, de quem acredita que o sofrimento pode ser evitado.

Uma vez que possamos reconhecer que partimos de um sentimento expansivo e responsável para um estado infantil de quem se ilude com a possibilidade de dominar as situações futuras, passaremos a usar um dom maravilhoso: será possível sentir compaixão.

A compaixão é colocar-se em nosso lugar. Parece paradoxal, mas não é.
Em um estado como aquele, de muita violência consigo, esquecemos de quem somos, desvalorizamos nossas atitudes, desconsideramos o acaso.

Desde a compaixão é que realmente teremos mais cuidado conosco e tomaremos Ações de quem é responsável por si mesmo.

Em um estado de espírito de busca de poder, achamo-nos impotentes e passivos. Nosso sermão particular incluirá declarações ansiosas - "eu nunca vou ser bom o suficiente", "Eu não posso fazer isso", “isso não é para mim”, "e se"; e auto-agressões: "acorde!", "cresça!", ou "deixe de ser maluco”!

Quando reconhecemos que estamos mal, e nos compadecemos de nossa condição humana vulnerável, temos de afirmar nossas energias interiores responsáveis e autênticas. Essas ações são aquelas que ajudam a deslocar-nos para fora de um estado de quem deseja ter poder em direção a um senso mais expansivo e responsável.

Basta praticar Ações Responsáveis que envolvam maior auto-cuidado. Às vezes, isso implica simplesmente na aceitação de nossos reais sentimentos.

Em outras ocasiões, inclui reconhecer e tomar cuidado ativamente das nossas necessidades. Tratar de preparar uma bela refeição para nós mesmos ou ligar para um amigo.
A Ação Responsável é, em essência, ser um pai-interno bom.

Muitas vezes, também, a Ação Responsável envolve desafiar o nosso fluxo de desvalorização. Isto é muito mais fácil de fazer quando percebemos que estamos em um estado de espírito infantil de busca de poder.

Por exemplo, sempre que estivermos tendo catastróficas reflexões sobre o futuro ou nos sentindo injustiçadas vítimas do passado, será possível que nos tornemos mais relaxados.

Se reconhecermos que o nosso pensamento parece mais o de uma criança do que o de um adulto completo e responsável, isso pode nos dar a compaixão - e, muitas vezes, uma perspectiva humorística.

Por amor, critique o ensaio.
Estou precisando de opiniões a respeito da clareza,
especialmente. Ficou confuso? Com amor e um beijo meu,
Cínthya

sábado, 23 de maio de 2009

DOR DE FILÓSOFO - Caderno de Cultura da Zero Hora - 23/05/09


*CYNTHÍA VERRY (Errata: leia-se CÍNTHYA VERRI)


Link para artigo na Zero Hora

Link para ver no Midiática



texto original (porque saiu com algumas alterações):

A Difícil Autoria do Esquecimento
Anotações póstumas de Roland Barthes são publicadas na França. Diário apresenta caminhos para aceitação do luto.

Cínthya Verri
Médica e Psicoterapeuta

Diário póstumo de Roland Barthes acende novamente a luz de seu escritório. Sob alarde, foi publicado agora na França Journal de Deuil. O livro, ainda inédito no Brasil, retrata dois anos de sofrimento do pensador francês diante da perda da mãe, sua fiel companheira de toda vida.

Henriette morreu em 25 de outubro de 1977. No dia seguinte, Barthes, temendo por sua sanidade, agarrou-se em anotações do seu quadro psicológico como a uma guia. A nota introdutória já pede uma atenção especial ao assunto, tratado culturalmente com laconismo sinistro. Quebra o tabu ao reivindicar que a primeira noite de luto receba a importância equivalente a uma noite de núpcias.

Assim inicia a colagem de confidências registradas em ‘fichas’, cortadas em quatro partes de folhas de ofício. Propõe o contato com os retalhos da colcha antes de ser costurada.

Em pinceladas cáusticas, espirituosas e contraditórias, sem nenhuma censura, o autor percorre os limites da memória e arde entre a remissão e o castigo. Em muitos momentos, assaltado pela angústia, acredita na desistência: “Às vezes eu não posso mais e quebro.”

Barthes persegue a si mesmo e, acima de tudo, procura não enlouquecer no reconhecimento da ausência materna, agora definitiva. Entende-se o calvário: sua mãe foi sua única tutela legítima, encadernadora de livros que o criou sozinha, após a morte de seu pai, oficial naval, quando tinha um ano.

Aprendendo uma orfandade que o atinge na maturidade, assume todos os papéis do tribunal familiar: é testemunha e acusador; vítima e juiz. Essa inquisição pessoal o conduz a queimar suas vaidades e escarnecer de seus limites.

Talvez tenha sido a mais complexa e difícil luta para um canhoto, protestante e homossexual que viveu no front revidando preconceitos e venceu 12 anos de guerra contra a tuberculose.

Diário do Luto não é uma obra para um fim editorial, com a efígie conclusiva de testamento, mas um clarão da transição de seu pensamento. Expõe os bastidores de vários trabalhos do autor.
Durante sua escritura, organizou ‘O Neutro’ (Le Neutre); ‘A Câmara Clara’ (La Chambre Claire); e os dois volumes de ‘A Preparação do Romance’ (La Preparation du Roman).

Atrás das cortinas, o menos previsto acontece – Barthes é mais original naquilo que é rascunho.

Alguns meses antes do falecimento da mãe, na aula inaugural de sua consagrada cadeira de Semiologia Literária, o professor inflamava dizendo que esquecer é a verdadeira força da vida viva. Este é precisamente o desafio que o luto propõe: raro é aquele que assume a autoria do esquecimento.

31 de outubro de 1977
Uma parte de mim é véspera do desespero e, simultaneamente, outra se agita mentalmente armazenando meus assuntos mais frívolos. Eu vejo isso como uma doença.

Muito sensivelmente, Barthes sabia que nada disso era doentio, mas preferiu pensar que sim. A deslealdade cobra filiação. Alegrar-se, depois da perda, produz o efeito de traição à memória da pessoa amada, ao amor e a si mesmo. Toda diversão se torna inoportuna e ilícita. No malestar é que habita a liberdade.

4 novembro de 1977
(...) como se, coisa horrível, eu aprecie o apartamento arrumado “do meu jeito”, mas meu gozo adere ao desespero.

Para que a leveza ocorra, mesmo que brevíssima, é necessário suspender o processo. A alegria vem da força do esquecimento: aponta para o adiante, para o que segue em movimento. Devolve à realidade imperiosa da perda e ao fato de que contra isso nada se pode. É a “náusea do irremediável”.

Barthes mostra que a vivência do luto acontece em salvos. Chamou estas ‘características descontínuas’ de ‘blocos’ comparados à esclerose. Embora os considerasse caóticos e erráticos, os movimentos do luto são peristálticos e, igual que a vida, terminam: têm sentido natural dirigido para o fim.

3 novembro de 1977
“De um lado, ela me demanda tudo, toda a dor, em absoluto (mas então não é ela, sou eu que me invisto de demandar isso). E, de outro lado (sendo realmente ela mesma), ela me recomenda leveza, vida, como se dissesse novamente: ‘mas vá sair, se distrair).

Um jeito criativo de não experimentar a solidão é adotar uma imagem e um comportamento que se acredite esperado. Neste caso, a dor ficará reservada como um segredo. É o encistamento da agonia que confere altivez, quase elegância: empresta a ilusão de controle. O avesso, realmente consentir o sofrimento, é voltar a ficar só, pois quando existe a entrega, nada pode ser mantido e a tristeza fenece.

8 janeiro de 1978
Todo mundo é muito gentil – e, portanto, eu me sinto sozinho (abandonado)

O comportamento bajulador não é ajuda: é amortecimento. Promover um ambiente excessivamente generoso, de calma monástica, enclausura. A solidão aumenta. É preciso que se compartilhe: a verdade é sempre o melhor caminho. Além disso, um outro que peça cuidados provoca o sofrente a acessar a própria saúde para oferecer.

18 de maio de 1978
(...) e eu vejo que a não-neurose não é boa, não está bem.

A travessia do luto exige perseverança, seguimento. Como a fantasia e o sonho, ela acontece autônoma. Precisa de um tipo de espera incomum: a paciência íntima. Toda emoção é um descontrole.

Barthes foi incorruptível porque se deixou corromper pela dor. Observou-se permitindo não saber. Dispensou a apresentação, ficou com a vidência interior. Se existe algum fundamento é receber a experiência como leigo. Se ela é mais ou menos saudável, pouco importa. Despedir-se é permanecer. Lealdade não é submissão. Ao testar e contrariar o amor, ele restou intacto.

2 setembro de 1979
Cochilo.
Sonho: exatamente o sorriso dela.
Sonho: memória integral, bem sucedida.

EU TE DISSE

Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...