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sábado, 5 de março de 2011

A Crueldade do Tio Ranzinza [Cultura ZH]

Em novo livro, ainda inédito no Brasil, Philip Roth volta a 1944 e conta uma história que envolve crianças – mas não muda o tom pessimista conhecido de seus leitores



Arte e texto de
Cínthya Verri
Médica




Deixai a esperança, vós que entrais na obra de Philip Roth. O preceito dantesco vale para a recente fase ficcional do americano, que acaba de publicar um novo romance, Nemesis, ainda inédito no Brasil.


Não existe esperança no universo de Roth, mas resignação. Trata-se da difícil conformação do fim, a aceitação de que o homem não pode fazer coisa alguma, além de espernear. Tudo o que ele fizer contra a morte é histeria.

Seus personagens mergulham em difíceis enfrentamentos, emergindo pálidos e mais fracos do que no início da luta. São várias insuficiências, matizes de uma mesma esterilidade emocional: Fantasma Sai de Cena é a impotência sexual; Humilhação é a impotência diante da velhice; Homem Comum é impotência perante uma doença incurável; Indignação é a impotência do ódio; O Animal Agonizante é a impotência no amor.

Roth é conhecido por explorar a natureza do desejo sexual e o autoconhecimento. É a primeira vez que o autor desvenda a própria infância e descreve com riqueza os hábitos americanos da época. Inclusive, o modo de colapsar diante do medo.

Usa como cenário sua cidade natal, Newark, em Nova Jersey, para reproduzir a terrível crise de poliomielite que assolou a região. No verão de 1944, no fim da II Guerra, parecia existir um outro Holocausto civil. Comunidades judaicas morriam em uma câmara de vapor, uma estufa letal que não podia ser evitada, nem mesmo com as medidas sanitárias mais extremas – o vírus seguia paralisando nervos, músculos e a capacidade de mover os pulmões. Quando não matava, deformava permanentemente.

O protagonista dilemático é Eugene Cantor, ou Bucky, professor de Educação Física, encarregado do playground municipal e que cuidava para que as crianças esquecessem o terror e se exercitassem como se nada estivesse acontecendo. O porte atlético impunha solenidade e o caráter puro e reto conquistou rapidamente o respeito dos estudantes – tornou-se o herói máximo no período das férias.

Manter a distração pelo esporte não era tarefa fácil. Quem desfrutava de condição financeira não precisava ficar no centro, alvo imediato da doença, e se dirigia aos acampamentos de verão nas montanhas e serras.

A questão é que Bucky se sente um ídolo de barro, não confia em si, nem nunca confiou. Criado pelos avós, temia herdar resquício genético do pai (ladrão) e ainda carregava o fardo da mãe morta em seu parto.

Gostaria de ter zerado as dívidas e as incertezas com o alistamento militar, mas foi recusado. Tinha que haver um motivo lógico para sua miopia; para que seu corpo não servisse como arma para seu país na guerra; para que estivesse junto às crianças naquele momento. Precisava ser essencial. Portanto, assumiu a responsabilidade por tudo o que acontecia de mais doloroso.

Delírio é quando não temos dúvida. Nemesis, na mitologia, é a deusa da vingança divina. Roth avisa desde o título que questionará a qualidade dos desígnios dos céus.

A saída psicológica diante da absoluta impotência é buscar um crime que justifique o dano. A saga de Bucky consiste em deslizar entre se ver culpado e culpar a deus. E, nesse jogo, confundir-se até acreditar que deus é ele.

Encarna a tese dos rizomas de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Os filósofos apresentam a imagem de um tipo de raiz capaz de se desenvolver e sustentar o alimento mesmo nos solos mais áridos. Quanto mais rígidos os princípios e a moral, a imutabilidade das crenças, a incapacidade de compreender a multiplicidade, menores as chances de adaptação.

É o caso de Bucky. No ambiente hostil, de acontecimentos drásticos, não sobrevive emocionalmente quem não se ajusta, quem não descobre em si um sistema de acomodação mais inteligente do que a onipotência.

Tal tragédia grega, era de se desconfiar que ele seria o maior troféu da poliomielite. O único que não foi por acaso. Justamente porque abandonou o playground para ceder ao romance com sua noiva Márcia. Nenhum motivo nobre, apenas o desejo amoroso.

Ele não possuía o direito de ter prazer numa situação daquelas: alguém assombrado por um sentimento exacerbado de justiça e direito, e que atribuiu um significado mais grave à sua história e antecipou sua condenação ao longo do tempo, tanto como vítima da doença quanto como disseminador. Forçou exílio e arranjou um emprego público medíocre imaginando que esse deveria ser seu castigo: passar pela vida sem vivê-la.

No auge criativo de seus 80 anos, Philip Roth é aquele tio ranzinza que conta a verdade sobre a família no Dia de Ação de Graças. Sinaliza a falsa importância gerada pelo infortúnio. O desejo de poder é tão paralisante quanto o poliovírus, quando consideramos que sabemos mais do que a realidade. A culpa não existe. É uma invenção simplista para alimentar a covardia.

Já que não poderia ser o melhor na alegria, Bucky quis ser o melhor na dor.


Nemesis,
Philip Roth

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura
p. 5, 05/03/2011
Porto Alegre, Edição N° 16630

A Crueldade do Tio Ranzinza [Cultura ZH]

Em novo livro, ainda inédito no Brasil, Philip Roth volta a 1944 e conta uma história que envolve crianças – mas não muda o tom pessimista conhecido de seus leitores



Arte e texto de
Cínthya Verri
Médica




Deixai a esperança, vós que entrais na obra de Philip Roth. O preceito dantesco vale para a recente fase ficcional do americano, que acaba de publicar um novo romance, Nemesis, ainda inédito no Brasil.


Não existe esperança no universo de Roth, mas resignação. Trata-se da difícil conformação do fim, a aceitação de que o homem não pode fazer coisa alguma, além de espernear. Tudo o que ele fizer contra a morte é histeria.

Seus personagens mergulham em difíceis enfrentamentos, emergindo pálidos e mais fracos do que no início da luta. São várias insuficiências, matizes de uma mesma esterilidade emocional: Fantasma Sai de Cena é a impotência sexual; Humilhação é a impotência diante da velhice; Homem Comum é impotência perante uma doença incurável; Indignação é a impotência do ódio; O Animal Agonizante é a impotência no amor.

Roth é conhecido por explorar a natureza do desejo sexual e o autoconhecimento. É a primeira vez que o autor desvenda a própria infância e descreve com riqueza os hábitos americanos da época. Inclusive, o modo de colapsar diante do medo.

Usa como cenário sua cidade natal, Newark, em Nova Jersey, para reproduzir a terrível crise de poliomielite que assolou a região. No verão de 1944, no fim da II Guerra, parecia existir um outro Holocausto civil. Comunidades judaicas morriam em uma câmara de vapor, uma estufa letal que não podia ser evitada, nem mesmo com as medidas sanitárias mais extremas – o vírus seguia paralisando nervos, músculos e a capacidade de mover os pulmões. Quando não matava, deformava permanentemente.

O protagonista dilemático é Eugene Cantor, ou Bucky, professor de Educação Física, encarregado do playground municipal e que cuidava para que as crianças esquecessem o terror e se exercitassem como se nada estivesse acontecendo. O porte atlético impunha solenidade e o caráter puro e reto conquistou rapidamente o respeito dos estudantes – tornou-se o herói máximo no período das férias.

Manter a distração pelo esporte não era tarefa fácil. Quem desfrutava de condição financeira não precisava ficar no centro, alvo imediato da doença, e se dirigia aos acampamentos de verão nas montanhas e serras.

A questão é que Bucky se sente um ídolo de barro, não confia em si, nem nunca confiou. Criado pelos avós, temia herdar resquício genético do pai (ladrão) e ainda carregava o fardo da mãe morta em seu parto.

Gostaria de ter zerado as dívidas e as incertezas com o alistamento militar, mas foi recusado. Tinha que haver um motivo lógico para sua miopia; para que seu corpo não servisse como arma para seu país na guerra; para que estivesse junto às crianças naquele momento. Precisava ser essencial. Portanto, assumiu a responsabilidade por tudo o que acontecia de mais doloroso.

Delírio é quando não temos dúvida. Nemesis, na mitologia, é a deusa da vingança divina. Roth avisa desde o título que questionará a qualidade dos desígnios dos céus.

A saída psicológica diante da absoluta impotência é buscar um crime que justifique o dano. A saga de Bucky consiste em deslizar entre se ver culpado e culpar a deus. E, nesse jogo, confundir-se até acreditar que deus é ele.

Encarna a tese dos rizomas de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Os filósofos apresentam a imagem de um tipo de raiz capaz de se desenvolver e sustentar o alimento mesmo nos solos mais áridos. Quanto mais rígidos os princípios e a moral, a imutabilidade das crenças, a incapacidade de compreender a multiplicidade, menores as chances de adaptação.

É o caso de Bucky. No ambiente hostil, de acontecimentos drásticos, não sobrevive emocionalmente quem não se ajusta, quem não descobre em si um sistema de acomodação mais inteligente do que a onipotência.

Tal tragédia grega, era de se desconfiar que ele seria o maior troféu da poliomielite. O único que não foi por acaso. Justamente porque abandonou o playground para ceder ao romance com sua noiva Márcia. Nenhum motivo nobre, apenas o desejo amoroso.

Ele não possuía o direito de ter prazer numa situação daquelas: alguém assombrado por um sentimento exacerbado de justiça e direito, e que atribuiu um significado mais grave à sua história e antecipou sua condenação ao longo do tempo, tanto como vítima da doença quanto como disseminador. Forçou exílio e arranjou um emprego público medíocre imaginando que esse deveria ser seu castigo: passar pela vida sem vivê-la.

No auge criativo de seus 80 anos, Philip Roth é aquele tio ranzinza que conta a verdade sobre a família no Dia de Ação de Graças. Sinaliza a falsa importância gerada pelo infortúnio. O desejo de poder é tão paralisante quanto o poliovírus, quando consideramos que sabemos mais do que a realidade. A culpa não existe. É uma invenção simplista para alimentar a covardia.

Já que não poderia ser o melhor na alegria, Bucky quis ser o melhor na dor.


Nemesis,
Philip Roth

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura
p. 5, 05/03/2011
Porto Alegre, Edição N° 16630

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Conversa de Homem [Saiu na Cultura, Zero Hora, 31/12/2010 e 01/01/11]

POR CÍNTHYA VERRI
MÉDICA E PSICOTERAPEUTA




Francisco Bosco questiona qual o limite para a renúncia 
e o sacrifício no amor em “E Livre Seja Este Infortúnio”


Homem não será confessional para falar de amor, logo se municia de teorias psicanalíticas, semiologia e Foucault. Francisco Bosco brinca com a atitude e chama a si mesmo para uma conversa de homem. Não sabemos ao certo o que motivou seu novo livro, E Livre Seja Este Infortúnio, a não ser que foi inspirado em um verso de Rimbaud.


Ele trata da metamorfose de amor, que Ovídio já cantou. A mutação mais radical da personalidade. Uma espécie de suicídio de temperamento. Todo sujeito negado por uma mulher foi Werther. Todo apaixonado trocou seus ideais e amigos para contentar pedidos de alcova.


Francisco estuda a renúncia e o sacrifício afetivos feitos por uma relação. Qual é o limite? É senso comum aplaudirmos a independência, a manutenção da individualidade – encaramos quem não cede a quem ama como um vencedor, alguém maduro, capaz de se preservar. Bosco, na contramão, aponta que a paixão é o momento propício para enfrentar o pai e a mãe e descobrir do que somos feitos – esse poço infindável de teimosia. A paralisia pode significar apenas o medo ou a preguiça de se reinventar. Toda invenção começa com a intervenção.


A paixão é um eterno despojar-se: negociar o que pode ser dado até que reste somente o necessário. O autor desvenda que somente através de uma experiência imponente seremos capazes de abandonar o ritornelo. A partir do choque térmico do real, daquilo que não imaginávamos antes, é que aceitamos a condição sincera e útil do apequenamento. Ou seja, não somos tão bons assim a ponto de nos conservarmos intactos.


Com uma sinceridade ultrajante, usa a psicanálise para se entender, nunca para se conformar. Dá alta para sua analista e explica que terapia não é tratamento, mas um percurso intelectual. O cabra anuncia que a vivência da paixão representa um aniquilamento sedutor: aproveitar a desagregação para ser mais real rompendo o ciclo de repetições. Para chorar, nada mais estimulante do que uma cebola: “O eu é estruturado como uma cebola. O que significa isso? Significa que o eu é formado de uma série sucessiva de identificações. Se despirmos uma a uma essas identificações, como quem descasca uma cebola, não restará nada”.


Talvez seja indicado seguir o conselho de Brás Cubas: melhor cair das nuvens do que do terceiro andar (que o diga Arnaldo, o ex-lóki mutante, após voo suicida pela janela). Bosco detalha como o desejo insano proporcionado pela paixão é o mesmo que investir todo o dinheiro da sua vida em uma única ação, em suma, absoluta sandice. Logicamente, quando toda a nossa vida depende de uma única pessoa e sua opinião, iremos acatar como nunca julgamos possível. Seria como ouvir um comando divino direto no teledeus. Queremos agradar ao ser amado. Mais que isso: precisamos agradar ao nosso objeto de amor, dependemos de seu desejo. Claro que não é uma equação direta, há todo um Almodóvar para nos explicar.


Quando amamos, ao mesmo tempo, gostaríamos de deixar de amar. Afinal, é a fonte central de sofrimento e dependência. Queremos destruir a paixão. Por isso ela é tão violenta. Isso passa muitas vezes ao largo do que pressupomos. Preferimos acreditar que somos corajosos e entregues ao amor verdadeiro. Mentira. Procuramos quem nos confirma a identidade. Desdenhamos quem nos descobre a identidade. Identidade é apenas uma idealização.


Já Francisco tem várias: Francisco de Castro Mucci, 34 anos, libriano com um escorpião tatuado, é mengo fanático, ensaísta talentoso, doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, letrista, colunista do jornal O Globo e filho de João Bosco. Não nessa ordem, afinal, colou o sobrenome do pai e saiu-se à edição de seu primeiro livro. Batizou-se, nas artes, Francisco Bosco.


Ele se armou de conceitos e chegou para se matar em autoduelo de faroeste: “Na minha vida há um fosso entre o que fui e o que me tornei”. Atacou de botânico, de Woody Allen, de Shane, de Charles Bronson, de Borges, Nietzsche. Acerta um cruzado de Lacan e um jab de Sigmund Freud. A gente se rende antes do terceiro assalto. Nem queremos chorar o leite derramado de Chico Buarque. É paixão à primeira leitura.


Escorrega, no entanto, no epílogo, afinal, não é santo: chama o acaso de imperfeição do real. Ora, o acaso justamente sequer é acessível ao homem. Só a natureza tem acesso à perfeição. Só a natureza é capaz de gerar o acaso. Nós mal conseguimos sortear a loteria e, ainda assim, porque inventamos uma indulgenciazinha. O acaso é tudo. Sorte grande a de quem abre os braços e se enlaça com o imprevisto. Pobre de quem não entendeu que desejamos, sim, controlar. Apenas não conseguimos.



E LIVRE SEJA ESTE INFORTÚNIO
FRANCISCO BOSCO
AZOUGUE EDITORIAL
R$38,00




Jornal Zero Hora, caderno Cultura, p. 2, Sobre o Amor.
31/12/2010 e 01/01/2011 | N° 16566


Conversa de Homem [Saiu na Cultura, Zero Hora, 31/12/2010 e 01/01/11]

POR CÍNTHYA VERRI
MÉDICA E PSICOTERAPEUTA




Francisco Bosco questiona qual o limite para a renúncia 
e o sacrifício no amor em “E Livre Seja Este Infortúnio”


Homem não será confessional para falar de amor, logo se municia de teorias psicanalíticas, semiologia e Foucault. Francisco Bosco brinca com a atitude e chama a si mesmo para uma conversa de homem. Não sabemos ao certo o que motivou seu novo livro, E Livre Seja Este Infortúnio, a não ser que foi inspirado em um verso de Rimbaud.


Ele trata da metamorfose de amor, que Ovídio já cantou. A mutação mais radical da personalidade. Uma espécie de suicídio de temperamento. Todo sujeito negado por uma mulher foi Werther. Todo apaixonado trocou seus ideais e amigos para contentar pedidos de alcova.


Francisco estuda a renúncia e o sacrifício afetivos feitos por uma relação. Qual é o limite? É senso comum aplaudirmos a independência, a manutenção da individualidade – encaramos quem não cede a quem ama como um vencedor, alguém maduro, capaz de se preservar. Bosco, na contramão, aponta que a paixão é o momento propício para enfrentar o pai e a mãe e descobrir do que somos feitos – esse poço infindável de teimosia. A paralisia pode significar apenas o medo ou a preguiça de se reinventar. Toda invenção começa com a intervenção.


A paixão é um eterno despojar-se: negociar o que pode ser dado até que reste somente o necessário. O autor desvenda que somente através de uma experiência imponente seremos capazes de abandonar o ritornelo. A partir do choque térmico do real, daquilo que não imaginávamos antes, é que aceitamos a condição sincera e útil do apequenamento. Ou seja, não somos tão bons assim a ponto de nos conservarmos intactos.


Com uma sinceridade ultrajante, usa a psicanálise para se entender, nunca para se conformar. Dá alta para sua analista e explica que terapia não é tratamento, mas um percurso intelectual. O cabra anuncia que a vivência da paixão representa um aniquilamento sedutor: aproveitar a desagregação para ser mais real rompendo o ciclo de repetições. Para chorar, nada mais estimulante do que uma cebola: “O eu é estruturado como uma cebola. O que significa isso? Significa que o eu é formado de uma série sucessiva de identificações. Se despirmos uma a uma essas identificações, como quem descasca uma cebola, não restará nada”.


Talvez seja indicado seguir o conselho de Brás Cubas: melhor cair das nuvens do que do terceiro andar (que o diga Arnaldo, o ex-lóki mutante, após voo suicida pela janela). Bosco detalha como o desejo insano proporcionado pela paixão é o mesmo que investir todo o dinheiro da sua vida em uma única ação, em suma, absoluta sandice. Logicamente, quando toda a nossa vida depende de uma única pessoa e sua opinião, iremos acatar como nunca julgamos possível. Seria como ouvir um comando divino direto no teledeus. Queremos agradar ao ser amado. Mais que isso: precisamos agradar ao nosso objeto de amor, dependemos de seu desejo. Claro que não é uma equação direta, há todo um Almodóvar para nos explicar.


Quando amamos, ao mesmo tempo, gostaríamos de deixar de amar. Afinal, é a fonte central de sofrimento e dependência. Queremos destruir a paixão. Por isso ela é tão violenta. Isso passa muitas vezes ao largo do que pressupomos. Preferimos acreditar que somos corajosos e entregues ao amor verdadeiro. Mentira. Procuramos quem nos confirma a identidade. Desdenhamos quem nos descobre a identidade. Identidade é apenas uma idealização.


Já Francisco tem várias: Francisco de Castro Mucci, 34 anos, libriano com um escorpião tatuado, é mengo fanático, ensaísta talentoso, doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, letrista, colunista do jornal O Globo e filho de João Bosco. Não nessa ordem, afinal, colou o sobrenome do pai e saiu-se à edição de seu primeiro livro. Batizou-se, nas artes, Francisco Bosco.


Ele se armou de conceitos e chegou para se matar em autoduelo de faroeste: “Na minha vida há um fosso entre o que fui e o que me tornei”. Atacou de botânico, de Woody Allen, de Shane, de Charles Bronson, de Borges, Nietzsche. Acerta um cruzado de Lacan e um jab de Sigmund Freud. A gente se rende antes do terceiro assalto. Nem queremos chorar o leite derramado de Chico Buarque. É paixão à primeira leitura.


Escorrega, no entanto, no epílogo, afinal, não é santo: chama o acaso de imperfeição do real. Ora, o acaso justamente sequer é acessível ao homem. Só a natureza tem acesso à perfeição. Só a natureza é capaz de gerar o acaso. Nós mal conseguimos sortear a loteria e, ainda assim, porque inventamos uma indulgenciazinha. O acaso é tudo. Sorte grande a de quem abre os braços e se enlaça com o imprevisto. Pobre de quem não entendeu que desejamos, sim, controlar. Apenas não conseguimos.



E LIVRE SEJA ESTE INFORTÚNIO
FRANCISCO BOSCO
AZOUGUE EDITORIAL
R$38,00




Jornal Zero Hora, caderno Cultura, p. 2, Sobre o Amor.
31/12/2010 e 01/01/2011 | N° 16566


sábado, 4 de setembro de 2010

Cinderela só depois de separada.


Cinderela só depois de separada

Pensará que se trata de um livro infantil. De capa dura azul com uma garatuja colorida na capa, o título reforça a confusão: A Cinderela Mudou de Ideia (ed. Planeta). Cuidado no topo à direita, um selo revela: um conto para mulheres modernas.

O conteúdo é adulto. A justificativa das escritoras espanholas Nunila López Salamero, 44 anos, e Myriam Cameros, 32, tem lógica: a infância transmite melhor a emoção. As páginas passam rápido, mas o amadurecimento do leitor é perene. A simplicidade inesperada arrebata, tão direta, com uma honestidade incomum; possível apenas para aqueles que já aprenderam com a própria experiência, para aqueles que estão falando de si próprios.

No enredo, uma paródia da fábula de Cinderela. Com as unhas pintadas de Nunila e Myriam, ela se torna uma heroína vegetariana que se percebe dentro de uma vida que outros escolheram para ela. É um conto de libertação feminina. A Cinderela prefere as pantufas aos sapatinhos de cristal, descobre que o casamento pode ser um péssimo negócio e que amor definitivo é o amor-próprio.

Quem pensa que a batalha das mulheres é caso encerrado talvez perceba que chegou a hora de queimar as calcinhas. Basta acompanhar o sucesso de vendas da obra e sua volta ao mundo pela internet. Todas as gerações ainda precisam desvestir a princesa.

Espera-se da mulher que ela pese determinados quilos, que alcance certa altura; que se vista com elegância, que caminhe sozinha, que cozinhe e que trabalhe, também entenda da casa e seja capaz de gerar e cuidar dos filhos. Espera-se que as meninas sejam bem comportadas, coquetes, polidas, debutem em longos vestidos e sonhem que um príncipe venha resgatá-las de pais conservadores.

Quando um homem é responsável pela salvação, a masmorra vem com a frigidez inclusa.

São raras as que experimentam sua sexualidade com liberdade. Não são estimuladas à masturbação, aos exercícios pélvicos. Depois do parto, a maioria das mães não é orientada a treinar a musculatura vaginal. São tabus que encobrem a verdade de que uma parturiente já completou sua tarefa reprodutiva. Que importância tem o prazer a esta altura do campeonato?

Alguns consideram o feminismo demodê. Entretanto, uma nova corrente toma força.

A primeira onda do feminismo, que se iniciou no final do século 19, buscava essencialmente os direitos civis, de contrato e de voto. Em 1960, se iniciou a segunda onda. Diferente das suffragettes, como eram chamadas as ativistas que lutavam pelo direito ao sufrágio, essas moças uniram-se em busca de igualdade social.

A terceira onda feminista começou em 1990. O movimento é sutil, e vem em boa hora. É mais uma luta cultural, embora tenha corpo político. Ela abraça a causa dos transtornos alimentares, por exemplo. Tanta revolução para a mulher conquistar o seu lugar e agora elas querem ocupar menos espaço com seus físicos cada vez menores, finos, magros, pequenos. A terceira onda quer provocar os paradigmas do que é bom ou mau para as mulheres.

O questionamento é muito mais inteligente porque as formas de subtração são disfarçadas. E, principalmente, geradas pelas próprias mulheres. É corriqueiro mães desistirem de sua identidade e adotarem a do marido ou dos filhos com o propósito de controlar a todos.

Esse impulso é praticamente natural, corre silencioso sob a pele: mal percebe, mas já no primeiro encontro, ela testa o sobrenome do candidato para ver se combina com o seu. Cuida como ele se comporta com os animais, com os garçons, com seus sobrinhos, a ver se antecipa a paternidade. Observa o parceiro no trabalho, contabiliza o futuro promissor. Em troca, não oferece perigo: assume uma postura previsível, espera que ele ligue no dia seguinte. E sexo no primeiro encontro, nem pensar. É o famoso manual.


A Cinderela Mudou de Ideia, de Myriam Cameros e Nunila López.
Editora Planeta, 88 páginas, preço sugerido R$ 24,90.


Pequenos rituais que confirmam a cinderelice atávica. Quer dançar conforme a música? Faça-o ao menos bem informada. Que não seja o bailado coreografado hipnótico, a sina repetida milhares e milhares de vezes, onde acordam infelizes e culpando o marido. Jamais se responsabilizando pelo que vivem.

Não é verdade a proclamada vitimização: coitada domesticada, sem chance de ser o que poderia, presa aos bebês pelos pés.

Com ternura firme, A Cinderela Mudou de Ideia pergunta sobre o desafio que a existência propõe: você deve uma vida para você mesma. Ninguém tem que vir e fazê-la e nem poderia. É uma solidão necessária e que exige vigilância. Quando se distrair, cairá na mesmice do sofrimento, achando normal não gostar do que faz e temendo pela segunda-feira.

Quem detesta segunda-feira pode não saber ainda, mas vai descobrir que também odeia os demais dias.

Tem um preço, evidentemente. Às vezes, a opção é baratear e permanecer presa em ciclos de infelicidade contínua em nome da mentira de se sentir em segurança. A arte de viver bem é um ofício, depende da coragem de assumir a responsabilidade pessoal – que é intransferível. Não é questão de sacrifício, e sim de prazer da escolha, largar o que não agrada, custe o que custar.



Nunila López Salamero e Myriam Cameros já trabalham em um segundo projeto juntas.
“Trataremos um assunto difícil com humor e amor”, fazem mistério

“O que está fora de moda é o machismo”

Após cinco anos visitando editoras e não recebendo nenhuma resposta concreta, Nunila López Salamero e Myriam Cameros decidiram mandar um e-mail aos amigos com a ideia de que investissem pequenas somas em dinheiro em troca de que, uma vez publicado o livro, recebessem uma determinada quantidade de exemplares e seus nomes fossem publicados como colaboradores.

“Para nossa surpresa, de repente começamos a receber dinheiro de pessoas que não conhecíamos. Em menos de um mês, reunimos quase 7 mil euros, isso em tempos de crise na Espanha, para que pudéssemos realizar nosso sonho”, lembra a dupla. A seguir, a entrevista com Myriam Cameros.

Donna – Como chegaram ao formato de livro ilustrado de conteúdo adulto? Configura uma inversão inovadora, assim como existem livros para crianças que interessam aos adultos, não é?

Myriam Cameros – Nunila escreveu o conto anterior por encomenda para uma associação de mulheres que sofriam violência de gênero. Eu tinha ouvido a história, fiquei encantada. Pensava que era universal, que mesmo que a origem do conto fosse a história de uma mulher que sofre violência, era uma história para todos, um conto que ajuda a ser feliz e, sobretudo, a dar um basta no que não faz você feliz. Sentimos que os adultos e as crianças precisam de mitos, histórias, fábulas que os faça acreditar mais em si mesmos e acreditar que podemos fazer algo neste mundo. Qualquer história deve ser acompanhada de um imaginário visual potente em que, como no texto, possamos romper com os papeis definidos e cansativos, com os quais muitos de nós não nos identificamos.

Donna – Sabe-se que vocês fazem apresentações do livro. Como é isso? Vocês têm planos de vir ao Brasil?

Myriam Cameros – Fazemos apresentações em instituições, universidades, grupos que queiram dar palestra de prevenção à violência machista, e em outros tantos locais de cultura livre sobre o fenômeno de edição caseira de um livro com a ajuda de pessoas, antes de sua chegada à internet. As apresentações que mais nos deram prazer aconteceram em presídios, onde também acreditamos que as pessoas gostaram mais, tanto homens quanto mulheres. A última apresentação desta temporada foi no Instituto Cervantes de Oran, na Argélia, que também foi muito emocionante. E quanto ao Brasil, queremos que nos convidem... para pegarmos as malas.

Donna – O que a Cinderela mudou em suas vidas? Esperavam que fosse tão curativo?

Myriam Cameros – Realizar um sonho, como o nosso, de que a Cinderela chegasse nos lares de tantas pessoas diferentes nos deu asas. Os “nãos” já não nos assustam tanto, pois foi pelos “nãos” no começo... que tivemos um grande “sim”. Acho que nós duas paramos de tentar convencer para ser. Em qualquer lugar onde vamos, uma festa, uma praia, as pessoas nos tratam com muito carinho por sermos as criadoras da Cindy.

Donna – Estão trabalhando em algum projeto novo?

Myriam Cameros – Nunila tem um espetáculo, um monólogo em que atua, e se apresenta por toda a Espanha. Eu me realizo muito ilustrando de tudo: Cds, roupas, animações, mas meu ponto fraco e meus próximos projetos são um livro dirigido ao público infantil (o que não quer dizer que não será para adultos) e um comic book só de minha autoria. Em parceria artística, estamos trabalhando nosso segundo projeto. Mais uma vez, trataremos um assunto difícil com humor e muito amor.

Donna – No livro Psicanálise dos Contos de Fadas, Bruno Bettelheim afirma que não se deve mexer nas estruturas dos contos tradicionais. Na sua opinião, está na hora de nos adaptarmos aos desejos e fazer espaço para a confissão nos velhos modelos?

Myriam Cameros – Concordamos, em parte. Muitos contos de fadas têm uma estrutura curativa e preciosa em sua origem, mas as más interpretações geraram papéis muito daninhos que não passam de armas de poder. O beijo final de todos esses contos tradicionais tem mais que ver, em seu início, com a fusão da parte masculina e feminina do que com um príncipe intrépido que salva a princesa incapaz. Branca de Neve e os Sete Anões tem mais a ver com a necessidade de se manter os sete centros energéticos (chakras) limpos do que com a servidão aos homens dentro de casa.

Donna – O feminismo está fora de moda? Vocês acham que existe preconceito, que fingimos ser desnecessária uma luta pela igualdade de gêneros?

Myriam Cameros – O que certamente está fora de moda é o machismo. Acho perigoso falar de feminismo de uma forma pejorativa, pois não deixa de ser uma luta para que o mundo seja melhor, tanto para os homens quanto para as mulheres e os gêneros intermediários. Muitas pessoas confundem feminismo com “femismo” – de fêmea - (as mulheres boas e os homens maus), e isso é um engano. Um mundo onde mulheres são agredidas, menosprezadas, nunca será um mundo bom. Nosso livro teve muita aceitação do público. No entanto, as vozes de setores mais conservadores dizem que é uma obra de mulheres amargas, feministas, quando, na verdade, nosso trabalho foi mostrar que a protagonista não termina enroscada com o príncipe, mas faz muitos amigos e dança com eles até o amanhecer. É necessário viver finais diferentes, e formas diferentes de viver.


05 de setembro de 2010 | N° 16449
Publicado no Caderno Donna
Pág 19 e 20
Jornal Zero Hora

Cinderela só depois de separada.


Cinderela só depois de separada

Pensará que se trata de um livro infantil. De capa dura azul com uma garatuja colorida na capa, o título reforça a confusão: A Cinderela Mudou de Ideia (ed. Planeta). Cuidado no topo à direita, um selo revela: um conto para mulheres modernas.

O conteúdo é adulto. A justificativa das escritoras espanholas Nunila López Salamero, 44 anos, e Myriam Cameros, 32, tem lógica: a infância transmite melhor a emoção. As páginas passam rápido, mas o amadurecimento do leitor é perene. A simplicidade inesperada arrebata, tão direta, com uma honestidade incomum; possível apenas para aqueles que já aprenderam com a própria experiência, para aqueles que estão falando de si próprios.

No enredo, uma paródia da fábula de Cinderela. Com as unhas pintadas de Nunila e Myriam, ela se torna uma heroína vegetariana que se percebe dentro de uma vida que outros escolheram para ela. É um conto de libertação feminina. A Cinderela prefere as pantufas aos sapatinhos de cristal, descobre que o casamento pode ser um péssimo negócio e que amor definitivo é o amor-próprio.

Quem pensa que a batalha das mulheres é caso encerrado talvez perceba que chegou a hora de queimar as calcinhas. Basta acompanhar o sucesso de vendas da obra e sua volta ao mundo pela internet. Todas as gerações ainda precisam desvestir a princesa.

Espera-se da mulher que ela pese determinados quilos, que alcance certa altura; que se vista com elegância, que caminhe sozinha, que cozinhe e que trabalhe, também entenda da casa e seja capaz de gerar e cuidar dos filhos. Espera-se que as meninas sejam bem comportadas, coquetes, polidas, debutem em longos vestidos e sonhem que um príncipe venha resgatá-las de pais conservadores.

Quando um homem é responsável pela salvação, a masmorra vem com a frigidez inclusa.

São raras as que experimentam sua sexualidade com liberdade. Não são estimuladas à masturbação, aos exercícios pélvicos. Depois do parto, a maioria das mães não é orientada a treinar a musculatura vaginal. São tabus que encobrem a verdade de que uma parturiente já completou sua tarefa reprodutiva. Que importância tem o prazer a esta altura do campeonato?

Alguns consideram o feminismo demodê. Entretanto, uma nova corrente toma força.

A primeira onda do feminismo, que se iniciou no final do século 19, buscava essencialmente os direitos civis, de contrato e de voto. Em 1960, se iniciou a segunda onda. Diferente das suffragettes, como eram chamadas as ativistas que lutavam pelo direito ao sufrágio, essas moças uniram-se em busca de igualdade social.

A terceira onda feminista começou em 1990. O movimento é sutil, e vem em boa hora. É mais uma luta cultural, embora tenha corpo político. Ela abraça a causa dos transtornos alimentares, por exemplo. Tanta revolução para a mulher conquistar o seu lugar e agora elas querem ocupar menos espaço com seus físicos cada vez menores, finos, magros, pequenos. A terceira onda quer provocar os paradigmas do que é bom ou mau para as mulheres.

O questionamento é muito mais inteligente porque as formas de subtração são disfarçadas. E, principalmente, geradas pelas próprias mulheres. É corriqueiro mães desistirem de sua identidade e adotarem a do marido ou dos filhos com o propósito de controlar a todos.

Esse impulso é praticamente natural, corre silencioso sob a pele: mal percebe, mas já no primeiro encontro, ela testa o sobrenome do candidato para ver se combina com o seu. Cuida como ele se comporta com os animais, com os garçons, com seus sobrinhos, a ver se antecipa a paternidade. Observa o parceiro no trabalho, contabiliza o futuro promissor. Em troca, não oferece perigo: assume uma postura previsível, espera que ele ligue no dia seguinte. E sexo no primeiro encontro, nem pensar. É o famoso manual.


A Cinderela Mudou de Ideia, de Myriam Cameros e Nunila López.
Editora Planeta, 88 páginas, preço sugerido R$ 24,90.


Pequenos rituais que confirmam a cinderelice atávica. Quer dançar conforme a música? Faça-o ao menos bem informada. Que não seja o bailado coreografado hipnótico, a sina repetida milhares e milhares de vezes, onde acordam infelizes e culpando o marido. Jamais se responsabilizando pelo que vivem.

Não é verdade a proclamada vitimização: coitada domesticada, sem chance de ser o que poderia, presa aos bebês pelos pés.

Com ternura firme, A Cinderela Mudou de Ideia pergunta sobre o desafio que a existência propõe: você deve uma vida para você mesma. Ninguém tem que vir e fazê-la e nem poderia. É uma solidão necessária e que exige vigilância. Quando se distrair, cairá na mesmice do sofrimento, achando normal não gostar do que faz e temendo pela segunda-feira.

Quem detesta segunda-feira pode não saber ainda, mas vai descobrir que também odeia os demais dias.

Tem um preço, evidentemente. Às vezes, a opção é baratear e permanecer presa em ciclos de infelicidade contínua em nome da mentira de se sentir em segurança. A arte de viver bem é um ofício, depende da coragem de assumir a responsabilidade pessoal – que é intransferível. Não é questão de sacrifício, e sim de prazer da escolha, largar o que não agrada, custe o que custar.



Nunila López Salamero e Myriam Cameros já trabalham em um segundo projeto juntas.
“Trataremos um assunto difícil com humor e amor”, fazem mistério

“O que está fora de moda é o machismo”

Após cinco anos visitando editoras e não recebendo nenhuma resposta concreta, Nunila López Salamero e Myriam Cameros decidiram mandar um e-mail aos amigos com a ideia de que investissem pequenas somas em dinheiro em troca de que, uma vez publicado o livro, recebessem uma determinada quantidade de exemplares e seus nomes fossem publicados como colaboradores.

“Para nossa surpresa, de repente começamos a receber dinheiro de pessoas que não conhecíamos. Em menos de um mês, reunimos quase 7 mil euros, isso em tempos de crise na Espanha, para que pudéssemos realizar nosso sonho”, lembra a dupla. A seguir, a entrevista com Myriam Cameros.

Donna – Como chegaram ao formato de livro ilustrado de conteúdo adulto? Configura uma inversão inovadora, assim como existem livros para crianças que interessam aos adultos, não é?

Myriam Cameros – Nunila escreveu o conto anterior por encomenda para uma associação de mulheres que sofriam violência de gênero. Eu tinha ouvido a história, fiquei encantada. Pensava que era universal, que mesmo que a origem do conto fosse a história de uma mulher que sofre violência, era uma história para todos, um conto que ajuda a ser feliz e, sobretudo, a dar um basta no que não faz você feliz. Sentimos que os adultos e as crianças precisam de mitos, histórias, fábulas que os faça acreditar mais em si mesmos e acreditar que podemos fazer algo neste mundo. Qualquer história deve ser acompanhada de um imaginário visual potente em que, como no texto, possamos romper com os papeis definidos e cansativos, com os quais muitos de nós não nos identificamos.

Donna – Sabe-se que vocês fazem apresentações do livro. Como é isso? Vocês têm planos de vir ao Brasil?

Myriam Cameros – Fazemos apresentações em instituições, universidades, grupos que queiram dar palestra de prevenção à violência machista, e em outros tantos locais de cultura livre sobre o fenômeno de edição caseira de um livro com a ajuda de pessoas, antes de sua chegada à internet. As apresentações que mais nos deram prazer aconteceram em presídios, onde também acreditamos que as pessoas gostaram mais, tanto homens quanto mulheres. A última apresentação desta temporada foi no Instituto Cervantes de Oran, na Argélia, que também foi muito emocionante. E quanto ao Brasil, queremos que nos convidem... para pegarmos as malas.

Donna – O que a Cinderela mudou em suas vidas? Esperavam que fosse tão curativo?

Myriam Cameros – Realizar um sonho, como o nosso, de que a Cinderela chegasse nos lares de tantas pessoas diferentes nos deu asas. Os “nãos” já não nos assustam tanto, pois foi pelos “nãos” no começo... que tivemos um grande “sim”. Acho que nós duas paramos de tentar convencer para ser. Em qualquer lugar onde vamos, uma festa, uma praia, as pessoas nos tratam com muito carinho por sermos as criadoras da Cindy.

Donna – Estão trabalhando em algum projeto novo?

Myriam Cameros – Nunila tem um espetáculo, um monólogo em que atua, e se apresenta por toda a Espanha. Eu me realizo muito ilustrando de tudo: Cds, roupas, animações, mas meu ponto fraco e meus próximos projetos são um livro dirigido ao público infantil (o que não quer dizer que não será para adultos) e um comic book só de minha autoria. Em parceria artística, estamos trabalhando nosso segundo projeto. Mais uma vez, trataremos um assunto difícil com humor e muito amor.

Donna – No livro Psicanálise dos Contos de Fadas, Bruno Bettelheim afirma que não se deve mexer nas estruturas dos contos tradicionais. Na sua opinião, está na hora de nos adaptarmos aos desejos e fazer espaço para a confissão nos velhos modelos?

Myriam Cameros – Concordamos, em parte. Muitos contos de fadas têm uma estrutura curativa e preciosa em sua origem, mas as más interpretações geraram papéis muito daninhos que não passam de armas de poder. O beijo final de todos esses contos tradicionais tem mais que ver, em seu início, com a fusão da parte masculina e feminina do que com um príncipe intrépido que salva a princesa incapaz. Branca de Neve e os Sete Anões tem mais a ver com a necessidade de se manter os sete centros energéticos (chakras) limpos do que com a servidão aos homens dentro de casa.

Donna – O feminismo está fora de moda? Vocês acham que existe preconceito, que fingimos ser desnecessária uma luta pela igualdade de gêneros?

Myriam Cameros – O que certamente está fora de moda é o machismo. Acho perigoso falar de feminismo de uma forma pejorativa, pois não deixa de ser uma luta para que o mundo seja melhor, tanto para os homens quanto para as mulheres e os gêneros intermediários. Muitas pessoas confundem feminismo com “femismo” – de fêmea - (as mulheres boas e os homens maus), e isso é um engano. Um mundo onde mulheres são agredidas, menosprezadas, nunca será um mundo bom. Nosso livro teve muita aceitação do público. No entanto, as vozes de setores mais conservadores dizem que é uma obra de mulheres amargas, feministas, quando, na verdade, nosso trabalho foi mostrar que a protagonista não termina enroscada com o príncipe, mas faz muitos amigos e dança com eles até o amanhecer. É necessário viver finais diferentes, e formas diferentes de viver.


05 de setembro de 2010 | N° 16449
Publicado no Caderno Donna
Pág 19 e 20
Jornal Zero Hora

sábado, 7 de agosto de 2010

QUANDO A ARTE CONTEMPLA A CIÊNCIA

McEwan lança romance do clima

POR CINTHYA VERRI


Em romance a ser publicado pela Companhia das Letras,
McEwan costura enredos que exorcizam Freud, Spinoza e Nietzsche

“Solar” propõe um tratado sobre a culpa ao avaliar as decisões de um físico premiado pela Academia Sueca. Ian McEwan sobe os termômetros do mercado e inaugura a literatura sobre as alterações climáticas. A sátira amarga aborda um tema nevrálgico da atualidade – o aquecimento global.

Um dos grandes autores britânicos, Ian McEwan, dos sucessos Na Praia e Reparação, lança Solar. Ainda inédito no Brasil, debutou em março deste ano no Reino Unido e em Portugal. Apelidado de “Ian Macabro”, o romancista, que completou 62 anos no dia 21 de junho, assumiu o bom humor. Uma guinada em toda a trajetória marcada pela seriedade. Porém, quem pensa que graça é leveza, engana-se: serve apenas para tocar em pontos ainda mais obscuros.

Em entrevista ao The Daily Telegraph, antecipou sua preocupação com o novo romance: “Eu quero tentar e de modo útil esbater as diferenças entre os dois reinos (ciência e arte). Por um lado, existe a tradição científica. Os cientistas apoiam-se nos ombros de gigantes, como os escritores. Por outro lado, nas artes é que se fazem descobertas. Por isso, estou discutindo com, ou pelo menos brincando com a ideia de que a arte nunca avança”.

De fato, McEwan levou a cabo sua ambição. Traduziu com alta fidelidade conceitos da física e da mecânica quântica. Solar, que sairá no Brasil pela Companhia das Letras, assume condição híbrida, científico-artística. Ensina e entretém.

Acompanhamos o protagonista e anti-heroi Michael Beard e sua inquetação em sobrepor a genialidade profissional a problemas de excesso de peso e dilemas com mulheres.

A sabedoria ficcional de Ian McEwan pode matar de inveja qualquer estudioso de psicanálise e filosofia. Arruma enredos para exorcizar Freud, Garma, Winnicott, Spinoza e Nietzsche. Afinal, sua obsessão é como a culpa influencia destinos.

Em Reparação, apresentou-nos Briony. A menina escritora que, ao caluniar o namorado da irmã, ocasiona a morte dele na guerra. Com a atitude impulsiva e orgulhosa, a menina sente que arranjou o curso da tragédia, mas não desejava efetivamente que isso acontecesse. Depois do processo espelhado nas páginas, Briony responsabiliza-se por quem ela é, por agir daquele modo quando ainda era uma criança. Livra a culpa e permite-se viver. Ela concebeu, por meio da literatura, um mundo onde os dois, a irmã e o namorado, poderiam ver-se novamente e se amar. É a expressão legítima de quem compreende o acaso e sua imperiosidade.

Michael Beard, personagem central de Solar, exibe justamente o reverso. É sutil a diferença, porque, à primeira vista, se poderia concluir que é um homem sem remorso; que a própria ausência de culpa incita o desenvolvimento da personalidade sedutora e sociopática; capaz de usar qualquer um que cruzasse seu caminho para, sem escrúpulos, extrair vantagens para si. Desse modo se comporta em seus cinco casamentos e com todas as amantes; no trabalho, apropria-se das pesquisas de outro homem, incrimina um terceiro em um assassinato; atribui-se a autoria de relatos alheios para usar em suas palestras; premedita o uso de verbas e patenteia invenções que não foram suas.

Ao exame com mais cuidado, encontramos um homem arrogante e inábil, incapaz de viver bem. Gênio da física, Michael Beard escreveu um trabalho original que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Partiu de Einstein e descobriu uma leitura inédita, curiosamente, sobre a interrelação dos elementos: a chamada conflação. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas ou conceitos, que compartilhem algumas características em comum, tornam-se mistas, até aparentarem uma única identidade – as diferenças parecem perdidas.

Não é à toa: a ideia se assemelha ao borramento ético do personagem; à dificuldade de Beard em apreciar qualquer um de modo independente. Não soube nunca se colocar no lugar do outro, antecipar, sentir empatia ou mesmo cuidar de alguém. Principalmente, porque não sabia cuidar de si mesmo.

Freud, em seu famoso artigo Criminosos por um Sentimento de Culpa, ensinou que a atitude criminosa pode ser gerada pela culpa; o mesmo avalia Nietzche, quando fala dos Delinquentes Pálidos pela interlocução de Zaratustra. Mas foi Paulo Sérgio Rosa Guedes, nos ombros desses gigantes, quem descreveu a conduta com clareza e simplicidade. Em A Paixão – Caminhos e Descaminhos, anuncia o quanto o sentimento de culpa é um sistema, um artifício de ver e agir que instalamos sobre o raciocínio. Com ele nos mantemos em busca do poder; nós é que sabemos como deveria ser; quando nossas ideias valem mais que a realidade; e é possível acreditar que existe um deus e que somos melhores do que ele.

Neste ponto, reconhecemos que culpa e onipotência são a mesma coisa. Na epígrafe, John Updike é empregado para afinar o tom da narrativa nesse sentido: “Que lhe dá grande prazer, faz Rabbit sentir-se rico, contemplar o desperdício do mundo, saber que a terra também é mortal”.

Paulo Sérgio explica:

“1. O sentimento de culpa nunca é consequência de algo, e sim, causa.

2. O sentimento de culpa é sempre oposto, antagônico, à vivência de responsabilidade pessoal. São sentimentos auto-excludentes apesar de, na linguagem comum, serem vistos como sinônimos.

3. O sentimento de culpa é sempre um delírio de grandeza, uma ilusão de onipotência, uma convicção absoluta de ter poder.”

Nossa reação diante do devir, especialmente diante do que nos desagrada, é condenar a realidade. Sentimo-nos poderosos: julgamos o acaso e chamamos de sorte ou azar.

Michael Beard é o exemplo típico dessa inversão. Quando chega ao Polo Norte, por exemplo, conhece que é uma questão de acidente geográfico, mas assinala que está no topo do mundo e que todos, inclusive a ex-mulher, estão abaixo dele. Nessa oportunidade, quando passou a ser admirado pelos companheiros de viagem, não pôde evitar de achar graça em virar o queridinho do grupo, mas se considerou rebaixado por dar valor às pessoas. Ao examinar a condição humana, pondera que “é a melhor, não, é a mais interessante das raças, talvez não a melhor imaginável, mas a melhor disponível”. Confia que poderíamos ser salvos de nossa natureza através da implementação de leis e do respeito à elas. Michael alcança concluir, por um relance, que não superaria a humanidade dentro dele; medita que, na hora da morte, provavelmente estaria usando meias díspares, teria emails por responder, camisas ainda estariam sem botões, a luz do corredor permaneceria com defeito, restariam contas a pagar, amigos esperando por uma resposta e amantes por conquistar. “Esquecimento, a última palavra em organização, seria seu único consolo.”

É contra essa verdade que Michael se dedica e, evidentemente, fracassa.

É um livro trágico e cômico, igual a nossa existência.

Reparação e Solar apresentam a riqueza, a dimensão da força e o antagonismo da culpa e da responsabilidade. Por serem óbvios, tão difíceis de ver. Precisamos de todas as versões disponíveis. Prova de que a arte, de fato, não avança. Não tem sentido. É como a vida: um eterno retorno.

Médica, psicoterapeuta
cinthya@clinicaverri.com.br


Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
07 de agosto de 2010 | N° 16420
Porto Alegre (RS)
Leia na Zero>> clique aqui

QUANDO A ARTE CONTEMPLA A CIÊNCIA

McEwan lança romance do clima

POR CINTHYA VERRI


Em romance a ser publicado pela Companhia das Letras,
McEwan costura enredos que exorcizam Freud, Spinoza e Nietzsche

“Solar” propõe um tratado sobre a culpa ao avaliar as decisões de um físico premiado pela Academia Sueca. Ian McEwan sobe os termômetros do mercado e inaugura a literatura sobre as alterações climáticas. A sátira amarga aborda um tema nevrálgico da atualidade – o aquecimento global.

Um dos grandes autores britânicos, Ian McEwan, dos sucessos Na Praia e Reparação, lança Solar. Ainda inédito no Brasil, debutou em março deste ano no Reino Unido e em Portugal. Apelidado de “Ian Macabro”, o romancista, que completou 62 anos no dia 21 de junho, assumiu o bom humor. Uma guinada em toda a trajetória marcada pela seriedade. Porém, quem pensa que graça é leveza, engana-se: serve apenas para tocar em pontos ainda mais obscuros.

Em entrevista ao The Daily Telegraph, antecipou sua preocupação com o novo romance: “Eu quero tentar e de modo útil esbater as diferenças entre os dois reinos (ciência e arte). Por um lado, existe a tradição científica. Os cientistas apoiam-se nos ombros de gigantes, como os escritores. Por outro lado, nas artes é que se fazem descobertas. Por isso, estou discutindo com, ou pelo menos brincando com a ideia de que a arte nunca avança”.

De fato, McEwan levou a cabo sua ambição. Traduziu com alta fidelidade conceitos da física e da mecânica quântica. Solar, que sairá no Brasil pela Companhia das Letras, assume condição híbrida, científico-artística. Ensina e entretém.

Acompanhamos o protagonista e anti-heroi Michael Beard e sua inquetação em sobrepor a genialidade profissional a problemas de excesso de peso e dilemas com mulheres.

A sabedoria ficcional de Ian McEwan pode matar de inveja qualquer estudioso de psicanálise e filosofia. Arruma enredos para exorcizar Freud, Garma, Winnicott, Spinoza e Nietzsche. Afinal, sua obsessão é como a culpa influencia destinos.

Em Reparação, apresentou-nos Briony. A menina escritora que, ao caluniar o namorado da irmã, ocasiona a morte dele na guerra. Com a atitude impulsiva e orgulhosa, a menina sente que arranjou o curso da tragédia, mas não desejava efetivamente que isso acontecesse. Depois do processo espelhado nas páginas, Briony responsabiliza-se por quem ela é, por agir daquele modo quando ainda era uma criança. Livra a culpa e permite-se viver. Ela concebeu, por meio da literatura, um mundo onde os dois, a irmã e o namorado, poderiam ver-se novamente e se amar. É a expressão legítima de quem compreende o acaso e sua imperiosidade.

Michael Beard, personagem central de Solar, exibe justamente o reverso. É sutil a diferença, porque, à primeira vista, se poderia concluir que é um homem sem remorso; que a própria ausência de culpa incita o desenvolvimento da personalidade sedutora e sociopática; capaz de usar qualquer um que cruzasse seu caminho para, sem escrúpulos, extrair vantagens para si. Desse modo se comporta em seus cinco casamentos e com todas as amantes; no trabalho, apropria-se das pesquisas de outro homem, incrimina um terceiro em um assassinato; atribui-se a autoria de relatos alheios para usar em suas palestras; premedita o uso de verbas e patenteia invenções que não foram suas.

Ao exame com mais cuidado, encontramos um homem arrogante e inábil, incapaz de viver bem. Gênio da física, Michael Beard escreveu um trabalho original que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Partiu de Einstein e descobriu uma leitura inédita, curiosamente, sobre a interrelação dos elementos: a chamada conflação. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas ou conceitos, que compartilhem algumas características em comum, tornam-se mistas, até aparentarem uma única identidade – as diferenças parecem perdidas.

Não é à toa: a ideia se assemelha ao borramento ético do personagem; à dificuldade de Beard em apreciar qualquer um de modo independente. Não soube nunca se colocar no lugar do outro, antecipar, sentir empatia ou mesmo cuidar de alguém. Principalmente, porque não sabia cuidar de si mesmo.

Freud, em seu famoso artigo Criminosos por um Sentimento de Culpa, ensinou que a atitude criminosa pode ser gerada pela culpa; o mesmo avalia Nietzche, quando fala dos Delinquentes Pálidos pela interlocução de Zaratustra. Mas foi Paulo Sérgio Rosa Guedes, nos ombros desses gigantes, quem descreveu a conduta com clareza e simplicidade. Em A Paixão – Caminhos e Descaminhos, anuncia o quanto o sentimento de culpa é um sistema, um artifício de ver e agir que instalamos sobre o raciocínio. Com ele nos mantemos em busca do poder; nós é que sabemos como deveria ser; quando nossas ideias valem mais que a realidade; e é possível acreditar que existe um deus e que somos melhores do que ele.

Neste ponto, reconhecemos que culpa e onipotência são a mesma coisa. Na epígrafe, John Updike é empregado para afinar o tom da narrativa nesse sentido: “Que lhe dá grande prazer, faz Rabbit sentir-se rico, contemplar o desperdício do mundo, saber que a terra também é mortal”.

Paulo Sérgio explica:

“1. O sentimento de culpa nunca é consequência de algo, e sim, causa.

2. O sentimento de culpa é sempre oposto, antagônico, à vivência de responsabilidade pessoal. São sentimentos auto-excludentes apesar de, na linguagem comum, serem vistos como sinônimos.

3. O sentimento de culpa é sempre um delírio de grandeza, uma ilusão de onipotência, uma convicção absoluta de ter poder.”

Nossa reação diante do devir, especialmente diante do que nos desagrada, é condenar a realidade. Sentimo-nos poderosos: julgamos o acaso e chamamos de sorte ou azar.

Michael Beard é o exemplo típico dessa inversão. Quando chega ao Polo Norte, por exemplo, conhece que é uma questão de acidente geográfico, mas assinala que está no topo do mundo e que todos, inclusive a ex-mulher, estão abaixo dele. Nessa oportunidade, quando passou a ser admirado pelos companheiros de viagem, não pôde evitar de achar graça em virar o queridinho do grupo, mas se considerou rebaixado por dar valor às pessoas. Ao examinar a condição humana, pondera que “é a melhor, não, é a mais interessante das raças, talvez não a melhor imaginável, mas a melhor disponível”. Confia que poderíamos ser salvos de nossa natureza através da implementação de leis e do respeito à elas. Michael alcança concluir, por um relance, que não superaria a humanidade dentro dele; medita que, na hora da morte, provavelmente estaria usando meias díspares, teria emails por responder, camisas ainda estariam sem botões, a luz do corredor permaneceria com defeito, restariam contas a pagar, amigos esperando por uma resposta e amantes por conquistar. “Esquecimento, a última palavra em organização, seria seu único consolo.”

É contra essa verdade que Michael se dedica e, evidentemente, fracassa.

É um livro trágico e cômico, igual a nossa existência.

Reparação e Solar apresentam a riqueza, a dimensão da força e o antagonismo da culpa e da responsabilidade. Por serem óbvios, tão difíceis de ver. Precisamos de todas as versões disponíveis. Prova de que a arte, de fato, não avança. Não tem sentido. É como a vida: um eterno retorno.

Médica, psicoterapeuta
cinthya@clinicaverri.com.br


Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
07 de agosto de 2010 | N° 16420
Porto Alegre (RS)
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Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...