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domingo, 7 de dezembro de 2008

Nova Metáfora Esportiva Sobre a Vida

Um amigo me explicou sobre o saque no jogo de tênis:

há o tipo que se posiciona sombrio à beira da quadra, acomoda o pé, respira, ajeita o grip da raquete, ajeita a empunhadura, pica a bolinha duas vezes exatamente, inclina-se, lança a bola ao alto, segura novamente, pica a bolinha duas vezes exatamente, inclina-se em reverência, lança a bola ao alto e atira a bolinha na rede. É claro.

Existe o tipo que pode até fazer os mesmos movimentos, mas sem a métrica mental: com graça, mas sem grandeza.
Ele apenas saca.

Esse é o tipo que pode fazer um ace.

Não que isso reduza o grau de dificuldade, que seja preciso tomar menos cuidado.
Isso não significa dispensar a tática, isso não desmerece a técnica.
Mas a própria concentração exige que a gente se diminua.
Não o apequenamento da desvalia, mas o ver-se pequeno como somos, para se ajudar, dar colo a si mesmo, apoiar-se não importa em que condição.

Manter-se atento e cuidadoso é saber-se pouco, frágil, precário, raro – insubstituível apenas para si mesmo.

Nova Metáfora Esportiva Sobre a Vida

Um amigo me explicou sobre o saque no jogo de tênis:

há o tipo que se posiciona sombrio à beira da quadra, acomoda o pé, respira, ajeita o grip da raquete, ajeita a empunhadura, pica a bolinha duas vezes exatamente, inclina-se, lança a bola ao alto, segura novamente, pica a bolinha duas vezes exatamente, inclina-se em reverência, lança a bola ao alto e atira a bolinha na rede. É claro.

Existe o tipo que pode até fazer os mesmos movimentos, mas sem a métrica mental: com graça, mas sem grandeza.
Ele apenas saca.

Esse é o tipo que pode fazer um ace.

Não que isso reduza o grau de dificuldade, que seja preciso tomar menos cuidado.
Isso não significa dispensar a tática, isso não desmerece a técnica.
Mas a própria concentração exige que a gente se diminua.
Não o apequenamento da desvalia, mas o ver-se pequeno como somos, para se ajudar, dar colo a si mesmo, apoiar-se não importa em que condição.

Manter-se atento e cuidadoso é saber-se pouco, frágil, precário, raro – insubstituível apenas para si mesmo.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Eu Amo Taíba


Betinho Rosa - No Morro do Chapéu
Foto: Fábio Arruda


Tenho um adesivo no carro que diz: "Eu 'coração' Taíba".
Taíba é uma praia que fica perto de Fortaleza.
Quando fui conhecer essa capital, logo na chegada, avistei um casal com pranchas. Fui logo pergutando onde tinha lugar pra surfar:
- Taíba! - responderam.
OK, Taíba, então seria.
Fomos de ônibus, eu e a pranchinha (minha navezinha de bodyboard).
No ônibus estavam meus dois futuros companheiros de surf com um volão - instantâneo: amizade.
Ajudei os meninos com as coisas de acampamento, eles iam passar a noite, eu estava de passagem para o dia.
Rumamos para o Morro do Chapéu:
- Fundo de pedra - alertaram.
Eu nem sabia o que isso queria dizer... 'Fundo de pedra' queria dizer que não era de areia o fundo do mar. As ondas eram grandes. Eram as maiores que eu já tinha visto. Eles foram entrando, eu fui logo atrás. Entrei na água, respirei fundo, fui nadando. E eles iam indo e eu nadando, indo também. Pois furei a rebentação junto com eles. Respirei aliviada, não fiz vexame, essas coisas que eu, principiante, pensei na hora.
Aí vieram as séries. Todas lindas, maravilhosas, as ondas enoooormes. E eu pensava:
- socooooorro, são enooooormes!
E nadava forte para furar, joelho na prancha pra passar por baixo. Ainda achava que estava fazendo vergonha para mim mesma, quando notei que os meninos também estavam furando as ondas:
- Hum, talvez sejam grandes pra todo mundo, não só pra mim.
Pensei, em redenção.
No final da bateria da tarde, saí do mar tendo descido três ondas. Tá ok, pensei. Os meninos saíram da água felicíssimos, congratulando e tudo:
- Aí, hein, valeu!
Depois discorreram um pouco sobre a admiração que sentiam por mim: menina, sozinha, querendo surfar - disseram.
Acabei voltando no outro dia, acampei com os meninos.
Explicaram que era meu batismo - que batismo no surf é quando a gente encara um marzão assim de verdade.
Taíba ficou em mim. O lugar. O adesivo é para que eu me lembre de não duvidar de mim e de meus pontos de vista; de fazer o melhor e de enfrentar as coisas como eu vejo - se são grandes pra mim, são grandes e ponto. Sei lá se outros acham grande ou pequeno... É para que eu me lembre de nadar forte quando eu acho que tenho que nadar - no mar, como na vida, não dá tempo de se basear em outros - a experiência é de cada um, para seu próprio corpo, para a força de sua braçada - cada um consigo e com o mar.
Às vezes saímos elogiados. Às vezes, não. Tudo bem... Basta levar-se adiante usando tudo o que temos, tudo se faz necessário uma hora dessas (não dá pra abrir mão de nada!) - também a vida é um mar com fundo de pedra.

Eu Amo Taíba


Betinho Rosa - No Morro do Chapéu
Foto: Fábio Arruda


Tenho um adesivo no carro que diz: "Eu 'coração' Taíba".
Taíba é uma praia que fica perto de Fortaleza.
Quando fui conhecer essa capital, logo na chegada, avistei um casal com pranchas. Fui logo pergutando onde tinha lugar pra surfar:
- Taíba! - responderam.
OK, Taíba, então seria.
Fomos de ônibus, eu e a pranchinha (minha navezinha de bodyboard).
No ônibus estavam meus dois futuros companheiros de surf com um volão - instantâneo: amizade.
Ajudei os meninos com as coisas de acampamento, eles iam passar a noite, eu estava de passagem para o dia.
Rumamos para o Morro do Chapéu:
- Fundo de pedra - alertaram.
Eu nem sabia o que isso queria dizer... 'Fundo de pedra' queria dizer que não era de areia o fundo do mar. As ondas eram grandes. Eram as maiores que eu já tinha visto. Eles foram entrando, eu fui logo atrás. Entrei na água, respirei fundo, fui nadando. E eles iam indo e eu nadando, indo também. Pois furei a rebentação junto com eles. Respirei aliviada, não fiz vexame, essas coisas que eu, principiante, pensei na hora.
Aí vieram as séries. Todas lindas, maravilhosas, as ondas enoooormes. E eu pensava:
- socooooorro, são enooooormes!
E nadava forte para furar, joelho na prancha pra passar por baixo. Ainda achava que estava fazendo vergonha para mim mesma, quando notei que os meninos também estavam furando as ondas:
- Hum, talvez sejam grandes pra todo mundo, não só pra mim.
Pensei, em redenção.
No final da bateria da tarde, saí do mar tendo descido três ondas. Tá ok, pensei. Os meninos saíram da água felicíssimos, congratulando e tudo:
- Aí, hein, valeu!
Depois discorreram um pouco sobre a admiração que sentiam por mim: menina, sozinha, querendo surfar - disseram.
Acabei voltando no outro dia, acampei com os meninos.
Explicaram que era meu batismo - que batismo no surf é quando a gente encara um marzão assim de verdade.
Taíba ficou em mim. O lugar. O adesivo é para que eu me lembre de não duvidar de mim e de meus pontos de vista; de fazer o melhor e de enfrentar as coisas como eu vejo - se são grandes pra mim, são grandes e ponto. Sei lá se outros acham grande ou pequeno... É para que eu me lembre de nadar forte quando eu acho que tenho que nadar - no mar, como na vida, não dá tempo de se basear em outros - a experiência é de cada um, para seu próprio corpo, para a força de sua braçada - cada um consigo e com o mar.
Às vezes saímos elogiados. Às vezes, não. Tudo bem... Basta levar-se adiante usando tudo o que temos, tudo se faz necessário uma hora dessas (não dá pra abrir mão de nada!) - também a vida é um mar com fundo de pedra.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Ain´t it something?



Fui assistir a peça
As Lágrimas Amargas de de Petra Von Kant
Texto de Rainer Werner Fassbinder:
Homem que sequer acreditava possível que uma relação amorosa fosse norteada por uma ética que não a do poder.
Jogos de dominação são apresentados com resultados dramáticos intensos de dor.
É o único resultado possível - esse da dor - em se tratando de gangorras entre as pessoas.
Outra noite conversávamos sobre a retaliação que ouvimos quando nosso pensamento se vai autônomo durante o cenário de um encontro. Ou seja, quando estávamos ouvindo alguém e nosso pensamento trouxe outra imagem. Vendo isso, o locutor reage com fúria porque não estávamos mais prestando a atenção que ele julgava necessária - sentindo-se menosprezado.
Ora, muito pouco tem que ver com o amor que sentimos. Isso fala somente da vaidade.
Mostra que é desejada uma posição supra-humana de quem escuta, como se isso fosse possível. Não comandamos o pensamento e isso não é denegridor de coisa alguma.
A rejeição não acontece por menosvalia do rejeitado, mas sim pelo interesse em outras coisas.
"O ser humano é um vaso ruim de quebrar. O ser humano é duro e brutal e qualquer um, para ele, é substituível" - diz Petra Von Kant.
Somos substituíveis, claro que sim. Melhor ainda é o termo em inglês: replaceable - able to be replaced - passível de ser realocado, de mudar de posição, de lugar.
Isso não nos faz menos válidos.
Somos, desse modo, livres.
Podemos, inclusive, morrer. Dada nossa pouca importância, melhor é viver apenas como queremos.
Amar fica sendo, assim, uma habilidade que precisa ter como precursora essa informação.
Somos perfeitamente realocáveis e, se ficamos juntos, é apenas porque queremos.
Não há garantias - ainda bem.

Ain´t it something?



Fui assistir a peça
As Lágrimas Amargas de de Petra Von Kant
Texto de Rainer Werner Fassbinder:
Homem que sequer acreditava possível que uma relação amorosa fosse norteada por uma ética que não a do poder.
Jogos de dominação são apresentados com resultados dramáticos intensos de dor.
É o único resultado possível - esse da dor - em se tratando de gangorras entre as pessoas.
Outra noite conversávamos sobre a retaliação que ouvimos quando nosso pensamento se vai autônomo durante o cenário de um encontro. Ou seja, quando estávamos ouvindo alguém e nosso pensamento trouxe outra imagem. Vendo isso, o locutor reage com fúria porque não estávamos mais prestando a atenção que ele julgava necessária - sentindo-se menosprezado.
Ora, muito pouco tem que ver com o amor que sentimos. Isso fala somente da vaidade.
Mostra que é desejada uma posição supra-humana de quem escuta, como se isso fosse possível. Não comandamos o pensamento e isso não é denegridor de coisa alguma.
A rejeição não acontece por menosvalia do rejeitado, mas sim pelo interesse em outras coisas.
"O ser humano é um vaso ruim de quebrar. O ser humano é duro e brutal e qualquer um, para ele, é substituível" - diz Petra Von Kant.
Somos substituíveis, claro que sim. Melhor ainda é o termo em inglês: replaceable - able to be replaced - passível de ser realocado, de mudar de posição, de lugar.
Isso não nos faz menos válidos.
Somos, desse modo, livres.
Podemos, inclusive, morrer. Dada nossa pouca importância, melhor é viver apenas como queremos.
Amar fica sendo, assim, uma habilidade que precisa ter como precursora essa informação.
Somos perfeitamente realocáveis e, se ficamos juntos, é apenas porque queremos.
Não há garantias - ainda bem.

terça-feira, 13 de março de 2007

Terapia dos Contos


‘Cantar’ histórias promove o contato com nossas origens enraizadas no passado distante: é um prazer terapêutico.
A oficina Terapia dos Contos é a aliança entre estudos de psico-análise, contos de fadas e lendas.
Através dos contos, somos capazes de tocar nossa intimidade, estimular a imaginação e alcançar a paixão.
As histórias trazem palavras sobre a vida da alma: somos capazes de nos encontrar nelas. Esse encontro é curativo.
Quando crianças, alcançamos os primeiros significados das histórias. Na medida em que crescemos, podemos entender outras nuances. Um conto é uma teia repleta de significações. Recebê-lo é uma boa maneira de desenvolver nossa percepção: são forças renovadoras.
Muitas vezes, esquecemos o que é valioso e fundamental: não vemos dádiva em nossas fraquezas, não vemos as dores da transformação e do crescimento como processos naturais e enriquecedores.
Exatamente como nos contos, a jornada da vida nos oferece chances de recuperação, aprendizagem e transformação.
Essa é uma delas.
Oficina Terapia dos Contos
Todas as quintas-feiras às 20h e 30 min. No Empório Canela Café Gourmet, em Canela, RS.
Informações e inscrições: (54) 3031.1000 e (54) 84093502.

Terapia dos Contos


‘Cantar’ histórias promove o contato com nossas origens enraizadas no passado distante: é um prazer terapêutico.
A oficina Terapia dos Contos é a aliança entre estudos de psico-análise, contos de fadas e lendas.
Através dos contos, somos capazes de tocar nossa intimidade, estimular a imaginação e alcançar a paixão.
As histórias trazem palavras sobre a vida da alma: somos capazes de nos encontrar nelas. Esse encontro é curativo.
Quando crianças, alcançamos os primeiros significados das histórias. Na medida em que crescemos, podemos entender outras nuances. Um conto é uma teia repleta de significações. Recebê-lo é uma boa maneira de desenvolver nossa percepção: são forças renovadoras.
Muitas vezes, esquecemos o que é valioso e fundamental: não vemos dádiva em nossas fraquezas, não vemos as dores da transformação e do crescimento como processos naturais e enriquecedores.
Exatamente como nos contos, a jornada da vida nos oferece chances de recuperação, aprendizagem e transformação.
Essa é uma delas.
Oficina Terapia dos Contos
Todas as quintas-feiras às 20h e 30 min. No Empório Canela Café Gourmet, em Canela, RS.
Informações e inscrições: (54) 3031.1000 e (54) 84093502.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Le Parfum de la Mort


(07.11.06) (obra de JOSÉ ALBERTO FORS FERRO - Desnudo, 2002)


Vim aqui nadar na piscina dos pensamentos impensáveis. Esses que só aparecem no papel de ler depois: recados de mim pra mim.
Quando me telefono e não me atendo é assim: preciso deixar recados.
Saí, fui dar uma volta, volto logo.
Talvez me encontre num vinho espumante... Ótimo, com sua espuma de bolhas. É um ofurô para a alma.
Quem dera pudesse mandar um táxi te buscar, agora que não estás.
Também tu saíste, homem.
Sei porque falo contigo e não respondes. Ficas desaparecido com toda essa culpa. Atraente culpa essa que faz pensar que és um homem muito importante: mais importante que todos os fatos reais implicados e equacionando para qualquer resultado - que pesas mais que a realidade em si.
Entretanto (sabe gente, é tanta coisa pra gente saber...), é difícil que nos vejamos tão fatalmente reais.
Morte-vida-vida-morte.
Uma vez, teve uma mulher caquética que fui atender no plantão. No instante em que toquei seu pulso, eu o senti filigramando. E parou.
- Parou? – pensei.
Tinha parado. Fui tentar ressucitar o corpo de ossos da mulher. Que desagradável. Morreu, enfim. Melhor do que jazer com tubos e escaras numa cama, na minha opinião.
Tinha cheiro de morte no quarto. Cheiro de morte é o cheiro de água parada em pia entupida, sabe? Cheiro de água parada é cheiro de água parada, mesmo quando a água parada é a do corpo. Isso é cheiro de morte e será meu cheiro quando morrer. Eu mesma não vou sentir; melhor assim.
Mas esse é cheiro de morte recente. Depois fica outro cheiro. Vi uma exumação, certa vez. Uma mulher gorda (gorda de cinema): gorda mesmo. Abriram o caixão: as flores secas, tudo horrível. Lavaram o corpo inchado ademais de obeso. Tanto faz se somos gordos ou magros: depois viramos um balão. Lavaram as larvas com uma mangueira. Elas são iguais as que dão na geladeira quando cortam a luz da casa e passa um tempo. Larvinhas de Pasteur. As larvinhas branquinhas. Abriram a mulher e saiu o cheiro da coliquação: o pulmão estava uma gosma verde-enegrecida. Isso e o cheiro.

E o cheiro ficou: mesmo depois do banho demorado que tomei, mesmo depois de ter lavado as narinas até as coanas (aquela parte bem lá de trás das narinas). Quando liguei o secador de cabelos, o jato de vento quente passado em frente ao meu nariz encaminhou a réstia ao endereço do cérebro. Uma vez lido o cheiro, revi a gorda arreganhada na mesa de necrópsia. Ceninha patética. Arrepios.
O balão que viramos é dos gases que se criam. São as bactérias que fazem... Elas vivem mais que nós. O corpo já morto e a natureza não pára. Depois vamos liquefazendo. Depois as larvinhas. As unhas ainda crescem. E os cabelos também.
O primeiro cadáver que dissequei tinha as unhas cor-de-rosa. Rosa pink. Talvez o pink fosse do formol. Mas podíamos ver que as unhas tinham crescido porque o esmalte estava da metade unha para a frente.
Depois dissequei o corpo de um homem: foi ótimo. Sempre tinha querido ver como era um mamilo por baixo da pele. O mamilo é quase nada: é uma tampinha. Quando a pele, descolando do músculo, é levantada não tem nada por baixo: o mamilo fica na pele que se destampa. É uma tampinha. Mas o mamilo é uma coisa gostosa de lamber.
De um orgasmo, resta aquele silêncio tão grande, tão grande... Sempre vejo que morri. Penso se quando eu morrer vai ser assim por mais tempo.
Parece que o que busco é isso: esse silêncio mortal de gozar. Qualquer coisa que proporcione isso é o melhor da vida. Escrever, por exemplo. A folha em branco me enche de tesão e desafio. O que ela quer comigo? Espumante, ofurô, tudo dá tesão. Os mamilos e a morte, também. Só a água parada não dá tesão. Exceto pras larvinhas.
Por isso gosto do mar. O mar não tem preguiça de remexer sua água. Por isso é que ele sobrevive mais que todos os seres vivos - mesmo que os seres tenham vindo dele. O mar é movimento.

A palavra é movimento. No momento em que passa a existir, ela é movimento. Logo se cristaliza, como se fosse uma lembrança do movimento. Quando lemos, já não é mais. Já é o cristal. São como gotas de água que se cristalizam no momento em que nascem em um clima friíssimo.
Pessoas não são como as palavras. Pessoas não são feitas para a cristalização. São puro movimento. Não são matéria.
Vês? Não podemos ter um ao outro porque não se pode pegar para si um movimento: só podemos pegar um cristal.
E os cristais se quebram, você sabe. Podemos fluir, apenas. Não posso esperar e deixar o espumante de hoje. Nem posso esperar por coisa nenhuma. Preciso ir.

Esperança: coisa que nos cristaliza - deixa a água parada, com cheiro de morte.

(...) Necrochorume ou produto da coliquação - é o líquido biodegradável oriundo do processo de decomposição dos corpos ou partes.

Le Parfum de la Mort


(07.11.06) (obra de JOSÉ ALBERTO FORS FERRO - Desnudo, 2002)


Vim aqui nadar na piscina dos pensamentos impensáveis. Esses que só aparecem no papel de ler depois: recados de mim pra mim.
Quando me telefono e não me atendo é assim: preciso deixar recados.
Saí, fui dar uma volta, volto logo.
Talvez me encontre num vinho espumante... Ótimo, com sua espuma de bolhas. É um ofurô para a alma.
Quem dera pudesse mandar um táxi te buscar, agora que não estás.
Também tu saíste, homem.
Sei porque falo contigo e não respondes. Ficas desaparecido com toda essa culpa. Atraente culpa essa que faz pensar que és um homem muito importante: mais importante que todos os fatos reais implicados e equacionando para qualquer resultado - que pesas mais que a realidade em si.
Entretanto (sabe gente, é tanta coisa pra gente saber...), é difícil que nos vejamos tão fatalmente reais.
Morte-vida-vida-morte.
Uma vez, teve uma mulher caquética que fui atender no plantão. No instante em que toquei seu pulso, eu o senti filigramando. E parou.
- Parou? – pensei.
Tinha parado. Fui tentar ressucitar o corpo de ossos da mulher. Que desagradável. Morreu, enfim. Melhor do que jazer com tubos e escaras numa cama, na minha opinião.
Tinha cheiro de morte no quarto. Cheiro de morte é o cheiro de água parada em pia entupida, sabe? Cheiro de água parada é cheiro de água parada, mesmo quando a água parada é a do corpo. Isso é cheiro de morte e será meu cheiro quando morrer. Eu mesma não vou sentir; melhor assim.
Mas esse é cheiro de morte recente. Depois fica outro cheiro. Vi uma exumação, certa vez. Uma mulher gorda (gorda de cinema): gorda mesmo. Abriram o caixão: as flores secas, tudo horrível. Lavaram o corpo inchado ademais de obeso. Tanto faz se somos gordos ou magros: depois viramos um balão. Lavaram as larvas com uma mangueira. Elas são iguais as que dão na geladeira quando cortam a luz da casa e passa um tempo. Larvinhas de Pasteur. As larvinhas branquinhas. Abriram a mulher e saiu o cheiro da coliquação: o pulmão estava uma gosma verde-enegrecida. Isso e o cheiro.

E o cheiro ficou: mesmo depois do banho demorado que tomei, mesmo depois de ter lavado as narinas até as coanas (aquela parte bem lá de trás das narinas). Quando liguei o secador de cabelos, o jato de vento quente passado em frente ao meu nariz encaminhou a réstia ao endereço do cérebro. Uma vez lido o cheiro, revi a gorda arreganhada na mesa de necrópsia. Ceninha patética. Arrepios.
O balão que viramos é dos gases que se criam. São as bactérias que fazem... Elas vivem mais que nós. O corpo já morto e a natureza não pára. Depois vamos liquefazendo. Depois as larvinhas. As unhas ainda crescem. E os cabelos também.
O primeiro cadáver que dissequei tinha as unhas cor-de-rosa. Rosa pink. Talvez o pink fosse do formol. Mas podíamos ver que as unhas tinham crescido porque o esmalte estava da metade unha para a frente.
Depois dissequei o corpo de um homem: foi ótimo. Sempre tinha querido ver como era um mamilo por baixo da pele. O mamilo é quase nada: é uma tampinha. Quando a pele, descolando do músculo, é levantada não tem nada por baixo: o mamilo fica na pele que se destampa. É uma tampinha. Mas o mamilo é uma coisa gostosa de lamber.
De um orgasmo, resta aquele silêncio tão grande, tão grande... Sempre vejo que morri. Penso se quando eu morrer vai ser assim por mais tempo.
Parece que o que busco é isso: esse silêncio mortal de gozar. Qualquer coisa que proporcione isso é o melhor da vida. Escrever, por exemplo. A folha em branco me enche de tesão e desafio. O que ela quer comigo? Espumante, ofurô, tudo dá tesão. Os mamilos e a morte, também. Só a água parada não dá tesão. Exceto pras larvinhas.
Por isso gosto do mar. O mar não tem preguiça de remexer sua água. Por isso é que ele sobrevive mais que todos os seres vivos - mesmo que os seres tenham vindo dele. O mar é movimento.

A palavra é movimento. No momento em que passa a existir, ela é movimento. Logo se cristaliza, como se fosse uma lembrança do movimento. Quando lemos, já não é mais. Já é o cristal. São como gotas de água que se cristalizam no momento em que nascem em um clima friíssimo.
Pessoas não são como as palavras. Pessoas não são feitas para a cristalização. São puro movimento. Não são matéria.
Vês? Não podemos ter um ao outro porque não se pode pegar para si um movimento: só podemos pegar um cristal.
E os cristais se quebram, você sabe. Podemos fluir, apenas. Não posso esperar e deixar o espumante de hoje. Nem posso esperar por coisa nenhuma. Preciso ir.

Esperança: coisa que nos cristaliza - deixa a água parada, com cheiro de morte.

(...) Necrochorume ou produto da coliquação - é o líquido biodegradável oriundo do processo de decomposição dos corpos ou partes.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Conto das Contas



Mania de consagrar as contas. Que mania essa!
Sou apaixonada por minhas contas e dívidas.
Aguardo sua chegada vestida de conta telefônica, de condomínio, de luz, de água. Várias roupas utiliza, sempre tão versátil essa paixão. Encontro-me automaticamente com minha angústia. Encontro marcado, no início de cada mês.
Tenho colaboradores. Os porteiros sorriem e me passam os envelopes, tão delicados – entregam-me flores. O dia de hoje é um domingo. Assim aprendi. Portanto, sendo domingo, há o prenúncio inequívoco da segunda-feira. E minha tão pouca disponibilidade para ela. Que acontece hoje comigo? Uma certa dor no pescoço, na nuca, mais precisamente. Mais à direita. Olha como fico importante: com minhas contas, problema sério a ser resolvido. Preciso organizar-me, mas ao mesmo tempo, resisto e sigo fingindo que isso não precisa ser feito por mim. Que isso não demandará maior energia minha. Afinal, exige ou não que seja posta minha energia nisso?
Por que não relaxar simplesmente?
Mantenho-me atrelada a elas como quem fica atrelada a uma paixão mal resolvida – "dessas que a gente tem ciúme e se encharca de perfume, faz que tenta se matar..." Que me matar, qual nada! Não levantaria para mim outro algoz que não esse (sou fiel), o de ver-me atrelada à grandiosidade de minhas dívidas. É assim: vendo que devo, vejo que outros me devem. E logo ali mora a grandeza. "Ah, sim, pessoas me devem - Vou cobrá-las. E aí, morrerão fuziladas por minha cobrança, tão poderosa que sou. Sentir-se-ão traídas, usadas, extorquidas. Serei motivo de ódio e não posso deixar meu posto de preferida".
Ou posso?
Eis a questão do momento: estarei traindo minhas contas ao pagá-las? Terminarei com a existência delas?
Não, nem assim.
Nem que eu as pagasse todas – existiria uma dívida outra. Esse sim, parece ser o mote dessa zorra toda... Que dívida é essa, senhoras e senhores?
Psicanalistas responderiam, claro.
Mas o fato é que há uma sensação de dívida de não sei bem de que, a qual pareço preencher com as contas. Pareço-me preenchida devendo dinheiro, quando o que devo, não sei o que é. Devo? Serei eu essa não-pagante da vida? E vou mantendo essa coisinha dentro de mim - de quem precisa arranjar como pagar: o quê? Não sei.
Esta é a culpa, senhores e senhoras. A culpa é assim. É todo um sistema que empresta lógica ao que não pode ser logicificado. Sistemática que ilude o atraso da morte...
03 de dezembro de 2006. Hoje, domingo, pele clara e sol quente. Condicionamos o ar, na nossa rebeldia contra a natureza. Isso que dentro de nós se rebela infinitas vezes à realidade. Essa rebeldia é que nos move a criar no mundo, a modificar o ambiente, a modificar o que vemos, para que tudo fique um pouco mais próximo do que desejamos.
(...) Na tragédia grega, "hamartia" é um erro de julgamento do herói que leva a uma catástrofe, mas o título também pode ser interpretado como "uma missão dada pelos deuses aos homens para serem felizes", segundo Rondon.
Os gregos ainda possuíam uma visão determinista da hamartia: é algo inseparável do destino do homem, que não pode ser evitado, e que por isso causa sofrimento.

Conto das Contas



Mania de consagrar as contas. Que mania essa!
Sou apaixonada por minhas contas e dívidas.
Aguardo sua chegada vestida de conta telefônica, de condomínio, de luz, de água. Várias roupas utiliza, sempre tão versátil essa paixão. Encontro-me automaticamente com minha angústia. Encontro marcado, no início de cada mês.
Tenho colaboradores. Os porteiros sorriem e me passam os envelopes, tão delicados – entregam-me flores. O dia de hoje é um domingo. Assim aprendi. Portanto, sendo domingo, há o prenúncio inequívoco da segunda-feira. E minha tão pouca disponibilidade para ela. Que acontece hoje comigo? Uma certa dor no pescoço, na nuca, mais precisamente. Mais à direita. Olha como fico importante: com minhas contas, problema sério a ser resolvido. Preciso organizar-me, mas ao mesmo tempo, resisto e sigo fingindo que isso não precisa ser feito por mim. Que isso não demandará maior energia minha. Afinal, exige ou não que seja posta minha energia nisso?
Por que não relaxar simplesmente?
Mantenho-me atrelada a elas como quem fica atrelada a uma paixão mal resolvida – "dessas que a gente tem ciúme e se encharca de perfume, faz que tenta se matar..." Que me matar, qual nada! Não levantaria para mim outro algoz que não esse (sou fiel), o de ver-me atrelada à grandiosidade de minhas dívidas. É assim: vendo que devo, vejo que outros me devem. E logo ali mora a grandeza. "Ah, sim, pessoas me devem - Vou cobrá-las. E aí, morrerão fuziladas por minha cobrança, tão poderosa que sou. Sentir-se-ão traídas, usadas, extorquidas. Serei motivo de ódio e não posso deixar meu posto de preferida".
Ou posso?
Eis a questão do momento: estarei traindo minhas contas ao pagá-las? Terminarei com a existência delas?
Não, nem assim.
Nem que eu as pagasse todas – existiria uma dívida outra. Esse sim, parece ser o mote dessa zorra toda... Que dívida é essa, senhoras e senhores?
Psicanalistas responderiam, claro.
Mas o fato é que há uma sensação de dívida de não sei bem de que, a qual pareço preencher com as contas. Pareço-me preenchida devendo dinheiro, quando o que devo, não sei o que é. Devo? Serei eu essa não-pagante da vida? E vou mantendo essa coisinha dentro de mim - de quem precisa arranjar como pagar: o quê? Não sei.
Esta é a culpa, senhores e senhoras. A culpa é assim. É todo um sistema que empresta lógica ao que não pode ser logicificado. Sistemática que ilude o atraso da morte...
03 de dezembro de 2006. Hoje, domingo, pele clara e sol quente. Condicionamos o ar, na nossa rebeldia contra a natureza. Isso que dentro de nós se rebela infinitas vezes à realidade. Essa rebeldia é que nos move a criar no mundo, a modificar o ambiente, a modificar o que vemos, para que tudo fique um pouco mais próximo do que desejamos.
(...) Na tragédia grega, "hamartia" é um erro de julgamento do herói que leva a uma catástrofe, mas o título também pode ser interpretado como "uma missão dada pelos deuses aos homens para serem felizes", segundo Rondon.
Os gregos ainda possuíam uma visão determinista da hamartia: é algo inseparável do destino do homem, que não pode ser evitado, e que por isso causa sofrimento.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A Gorda e o Sanduíche




Cozinhávamos. Ele comentou comigo que, quando morava nos Estados Unidos, assistia com alguns colegas o desempenho frente a um apetite brutal de uma obesa com quem também trabalhava.
Disse-me que ela, na hora do almoço, preparava o maior sanduíche da terra, embalava-o junto com seu baldinho de refrigerante açucarado e partia para o carro. Lá chegando, subia a capota de seu carro conversível – convertendo-o. Colocava óculos escuros. E, uma vez lá dentro, com óculos, com capota, convertia-se ela por sobre o sanduíche e a bebida. O ritual era repetido todos os dias.
De modo que, a polpuda senhora em questão sustenta, além dos kilogramas todos, minha hipótese sobre a ardilosidade dos envergonhados.
Um tímido é o mais notado em qualquer festa. O envergonhado faz-se o mais visível ao recobrir-se com o glitter de seus pudores. Eu, quase despudorada, tenho meus desejos de fama comumente vistos com antipatia. Efetivamente, não passo pela faixa dos anônimos. Mas parece que a áurea timidez que paira sobre o ardiloso é também um mecanismo protetor – a fragilidade é a maior força do constrangido.
Assim, a senhora do exemplo não só foi notada e registrada - e relembrada - por quem me falou dela, mas também superfaturava com o peso os olhares dos outros colegas. Escondendo-se, aparecia mais que todos os outros que ali almoçavam.
Não me canso das bizarrices do mundo.




(...) A sandwich is a food item typically consisting of two pieces of leavened bread between which are laid one or more layers of meat, vegetable, cheese, together with optional or traditionally provided condiments, sauces, and other accompaniments. The bread is used as is, lightly buttered, or covered in a flavoured oil to enhance flavour and texture.

A Gorda e o Sanduíche




Cozinhávamos. Ele comentou comigo que, quando morava nos Estados Unidos, assistia com alguns colegas o desempenho frente a um apetite brutal de uma obesa com quem também trabalhava.
Disse-me que ela, na hora do almoço, preparava o maior sanduíche da terra, embalava-o junto com seu baldinho de refrigerante açucarado e partia para o carro. Lá chegando, subia a capota de seu carro conversível – convertendo-o. Colocava óculos escuros. E, uma vez lá dentro, com óculos, com capota, convertia-se ela por sobre o sanduíche e a bebida. O ritual era repetido todos os dias.
De modo que, a polpuda senhora em questão sustenta, além dos kilogramas todos, minha hipótese sobre a ardilosidade dos envergonhados.
Um tímido é o mais notado em qualquer festa. O envergonhado faz-se o mais visível ao recobrir-se com o glitter de seus pudores. Eu, quase despudorada, tenho meus desejos de fama comumente vistos com antipatia. Efetivamente, não passo pela faixa dos anônimos. Mas parece que a áurea timidez que paira sobre o ardiloso é também um mecanismo protetor – a fragilidade é a maior força do constrangido.
Assim, a senhora do exemplo não só foi notada e registrada - e relembrada - por quem me falou dela, mas também superfaturava com o peso os olhares dos outros colegas. Escondendo-se, aparecia mais que todos os outros que ali almoçavam.
Não me canso das bizarrices do mundo.




(...) A sandwich is a food item typically consisting of two pieces of leavened bread between which are laid one or more layers of meat, vegetable, cheese, together with optional or traditionally provided condiments, sauces, and other accompaniments. The bread is used as is, lightly buttered, or covered in a flavoured oil to enhance flavour and texture.

EU TE DISSE

Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...