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terça-feira, 12 de maio de 2015

O BEBÊ INVISÍVEL

Gisela Sparremberger — foto: Cinthya Verri

“Que mulher não gostaria de voltar dez quilos atrás? Basta manter o mesmo peso que tenho agora. Quando o bebê nascer, lá se vai o peso que ele representava. Essa fantasia de que grávida precisa de mais comida é discurso de baleia”.

Diz Biafra, minha personagem fictícia. Ela é uma jovem médica que sofre com a Pregorexia — o transtorno alimentar durante a gestação.

PREGORÉXICA é a gestante que dispensa a fila preferencial, como um orgulhoso aposentado; que sente vergonha de sentir necessidades especiais; que não quer mudar nada em sua vida “apenas” porque está grávida; que luta contra a mudança natural do corpo; que questiona o corpo abaulado como sendo natural.

“Mas, e a barriga? Porque se a atriz não usar uma barriga, o público vai achar que precisa imaginar uma”. Questionou Ismael Caneppele, meu amigo que lia o texto enquanto preparávamos a peça.

Pois é. E a barriga? Precisei explicar ao Isma que as pregoréxicas não têm barriga, mas uma barricada de músculos abdominais.

O fenômeno das grávidas sem barriga se dissemina. Basta uma pesquisa rápida na internet e surgem modelos já famosas por seu corpo contendo bebês invisíveis de oito meses de idade. Estão estampadas em campanhas publicitárias, ovacionadas ao exibirem seus corpos construídos com esmero. É o Ultimate Fighting da mulher: barriga sarada durante os nove meses. O útero subindo por trás das paredes; a musculatura túrgida no biquíni, nenhuma caloria a mais.

Especialistas afirmam que a saúde do bebê pode ser acompanhada através dos parâmetros da ecografia. Isso explica porque o bebê de Sarah Stage, modelo que exibiu a ausência da barriga nas redes sociais durante toda a gestação, nasceu com mais de três quilos e saúde aparentemente perfeita.

De fato, o desenvolvimento físico dos bebês não parece ser prejudicado, exceto nos casos extremos de restrição alimentar. Mas como medir o desenvolvimento psíquico e afetivo dos filhos da pregorexia? Qual é o preço da gravidez invisível?

O bebê precisa ser reconhecido, deve ser tornado plenamente visível, especialmente aos olhos da mãe.

A grávida não precisa ser gorda. A grávida precisa ser ampla, infinita no espaço que cria para seu bebê. Deixar-se ser uma grávida não é essencial para a sobrevivência do embrião, mas é essencial para tudo o mais que é invisível. O bebê não existe sem a mãe e a mãe não existe sem o bebê.

Quem dera Biafra fosse um estranho fruto de minha imaginação que vivesse somente no palco.

[Publicado no Jornal do Comércio, 12/05/2015]

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cobertura da FLIP


Carpinejar trolando na Flip - Quinta, 5/7/2012

Relatos de Fabrício Carpinejar diretamente da 10ª Flip, em Paraty

Carpinejar trolando na Flip - Quinta, 5/7/2012 Cínthya Verri/Especial
Caminhar de salto alto nas calçadas irregulares de Paraty é arriscadoFoto: Cínthya Verri / Especial
Fabrício Carpinejar
QUINTA, 5/7/2012
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(Foto: Cínthya Verri)
Depois de fazer a abertura, Luís Fernando Verissimo caminhava desobrigado na Festa Literária Internacional de Paraty, acompanhado de sua filha Mariana e de sua esposa Lúcia. Aliviado da obrigação de dar palestra, curtia merecidas férias literárias.
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Não tem como escritor usar salto alto em Paraty. As calçadas irregulares exigem humildade.
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(Foto: Cínthya Verri)
Lúcia Verissimo experimentou meus óculos da morte e assustou o espanhol Enrique Vila-Matas.
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(Foto: Cínthya Verri)


A primeira mesa da manhã foi alegremente mórbida. André de Leones, Carlos de Brito e Mello e Altair Martins fundaram um estranho e curioso clube da morte na literatura. Trocaram impressões sobre suicídio, exumações e cadáveres com desembaraço de brunch.
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André de Leones evocou sua adolescência em Silvânia, pequena cidade goiana. Confessou que vários de seus colegas do Ensino Médio se mataram. Enquanto os familiares perguntavam "Por que ele se matou?", ele se dizia "Por que não?"
Decidiu fazer romances apocalípticos para não pensar mais no assunto.
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Igualmente com bom humor, o mineiro Carlos de Brito e Mello apresentou a gênese de seu livro "Passagem tensa dos corpos", onde a família criava uma teia de fofocas sobre os vizinhos a partir do anúncio fúnebre no jornal ou feito pelo carro de som.
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(Foto: Cínthya Verri)
O gaúcho Altair Martins arrancou gargalhadas da plateia ao descrever os benefícios do Veja Multiuso. Carlos Moreno que se cuide. Altair já ganhou o título de Bombril de Paraty.
"Quando eu aperto o desinfetante, parece que ele segura minha mão de volta", brincou.
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Restaurante no festival pede paciência de Hare Krishna e alguns incensos. Os pedidos ficam acumulados. Quando o garçom vem na mesa, traz o refrigerante, a comida, a sobremesa, o café e a conta ao mesmo tempo, para não perder a viagem.
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Uma das palestras mais aguardadas da Flip foi a do espanhol Enrique Vila-Matas, que lançou "Ar de Dylan" pela Cosac Naif. Arena lotada de tarde para assistir ao elegante narrador catalão, que dividiu o palco com o chileno Alejandro Zambra
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Enrique falou que excesso de técnica afasta a vida da literatura. Defendeu a beleza dos livros doentes e inacabados porque criam a solidariedade do erro.
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 (Foto: Cínthya Verri)
Uma de suas glórias é ter sido convidado para o Congresso Internacional sobre Fracasso na Suíça. Declinou do convite para não parecer arrogante.
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Alejandro ajudou o mediador Paulo Roberto Pires a elaborar perguntas em espanhol para Enrique Vila-Matas. Tornou-se uma das sensações entre os fãs e leitores pela simplicidade e despojamento. Leu inclusive trechos do seu livro "Bonsai" em português. Arriscou-se com paciência no jogo de soletração.
Sua tese era de que a obra publicada deveria ser "resumo do rascunho".
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Infelizmente nenhuma sessão de autógrafos superou a fila por balões.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Constantina no Tribuna do Norte

Por Yuno Silva - repórter
Capa do caderno Viver Jornal Tribuna do Norte Natal (RN), 25/05/2012


"O QUE RESTA A UM HOMEM FEIO SENÃO A IRREVERÊNCIA?"
Nem só de poesia e humor se cerca o gaúcho Fabrício Carpinejar. Em Natal, para mais uma divertida conversa no Ação Potiguar de Leitura, ele estará ao lado da mulher Cínthya Verri, que lança Constantina. Descrito pelo próprio como "romântico corrigido e um homem do lar sem nenhum constrangimento", o gaúcho Fabrício Carpinejar é uma das figuras mais emblemáticas do cenário literário atual. Comunicador polivalente e escritor inveterado, Carpinejar já foi apontado como uma das pessoas mais influentes da internet brasileira e suas frases espirituosas, retransmitidas compulsivamente por seus quase 149 mil seguidores no Twitter, inspiram homens e mulheres e apontam para o lado mais divertido da literatura.
LIVRO NOVO NA FLIP
Esse perfil pop do autor, que tem carisma e sabe conduzir plateias independente da faixa etária, cai como uma luva para encerrar a segunda edição do projeto Ação Potiguar de Incentivo à Leitura, iniciativa dos Jovens Escribas que movimenta estudantes natalenses do ensino médio e fundamental desde o início da semana. Hoje à tarde, Fabrício e o jovem escriba Patrício Jr conversam com alunos da Escola Municipal 4º Centenário, e às 19h participa do "Lançamentão" promovido na livraria Nobel Salgado Filho. Carpinejar só lança um novo título em julho ("Ai meu Deus, ai meu Jesus"), o 18º da carreira, durante a Feira Literária Internacional de Paraty - Flip, mas aproveita a passagem por Natal para chancelar o livro de estreia da esposa, a médica Cínthya Verri, chamado "Constantina". Ele falou sobre seu retorno ao RN (em 2011 participou de duas etapas do Circuito Potiguar do, em Caicó e Natal), sobre o encontro com os estudantes e adiantou o perfil do livro de poemas de Cínthya. "Não tem nada de cozinha. A Cínthya só vai na cozinha pra pegar a faca. Gosto muito do andamento dos poemas dela pois são bem episódicos, são concentrados, densos, e ela refaz a infância dela", disse.
MEDOS INFANTIS E MENTIRAS ADULTAS
A médica Cínthya Verri estreia oficialmente, em meios impressos, sua veia poética com o livro "Constantina" (Selo Edith, R$ 25), onde reproduz em versos o que ela "não" sonhou ser quando era criança. Em 80 páginas, a autora retrata sua infância, disseca seus traumas e dá pistas de como enfrentou seus fantasmas na primeira fase da vida. Dividida em três capítulos (Destino, Fatalidade e Acaso), a obra é marcada por versos pungentes, curtos e densos, e expõe, entre outras coisas, os excessos conservadores da educação que sofriam as meninas no interior do RS. A exemplo de um diário secreto, Cínthya ajunta o terrível encontro entre os medos infantis e as mentiras adultas; e através de "Constantina", responde censuras com ironia e combate o machismo que perdoa qualquer agressão física. Sua visão de mundo, entre o cômico e o trágico, e a ingenuidade do olhar infantil, servem para ampliar o choque do leitor.
Além de "Constantina", o "Lançamentão" ainda reúne outros 10 autores para uma noite de autógrafos coletiva - entre eles a poeta Sinhá, que relança "Devolva meu lado de dentro".
BATE-PAPO/FABRÍCIO CARPINEJAR, poeta De volta a Natal? Sempre né! Depois da quinta passagem já é um vício. Sempre difícil separar trabalho do lazer. [risos] A proposta do evento é incentivar a leitura, mostrar que a literatura também é um programa legal. O que você planejou? Evidente que tem bastante improviso, acredito que a sinfônia poética ela é feito do repente, do relâmpago, do ruído; mas primeiro é necessário tirar o estigma da leitura como solitário, confinado, fruto da quarentena. Parece que precisa estar doente para ler. Pessoas sadias com tempo bom vão para o parque, para a praia, pro bar. Tem que desidratar essa ideia um tanto absurda da literatura como se fosse um castigo. Ler, ler, ler é convívio. Este ano você está na programação da Flip, em Parati (RJ). É diferente o formato do tipo de conversa travada com o público? Lembro que suas apresentações são palestras-show, descontraídas e bem humoradas. Há uma mudança na abordagem de acordo com o perfil da plateia? É estranho: o que resta a um homem feio como eu se não ser irreverente? Isso não é um destino, é uma fatalidade. Eu não tenho como ser sério. Eu posso ser denso dentro da minha graça, dentro da minha leveza. O pássaro precisa exercitar muito as asas até encontrar o espaço para poder planar. Então há todo um trabalho do riso que é desmerecido. Para fazer o público rir, o escritor tem muito mais trabalho que fazer chorar. As pessoas se confessam mais no riso do que no choro, e a poesia, a literatura tem esse giro. Então tanto faz se esteja falando com alunos aí em Natal ou na Flip, não vou mudar minha disposição circense no sentido de vestir a fala. A risada é uma espécie de sapateado. Como é bom ficar delirando, né?! Em outubro do ano passado, durante a Feira de Livros e Quadrinhos de Natal , você estava divulgando "Borralheiro". Algum novo projeto engatilhado? Estarei levando para a Flip, em julho próximo, o livro "Ai meu Deus, ai meu Jesus", minha crônica de amor e sexo. Toda sugestão é pornográfica. [risos] E sobre o livro "Constantina", de Cínthya Verri, sua esposa, alguma coisa a dizer ou é antiético comentar? Como...? Antiético. É isso mesmo, totalmente antiético [risos] Bonito! Desfaz muito daquela anatomia do poema feminino. É um poema cruel. Estou com o livro aqui e percebo que não tem nada de arrumadinho, floridinho... Nããão. Não tem nada de cozinha. A Cínthya só vai na cozinha pra pegar a faca. [risos] Gosto muito do andamento dos poemas dela pois são bem episódicos, são concentrados, densos, e ela refaz a infância dela. Mas não aquela infância do deslumbramento, que todo poeta gosta de se apegar e festejar. 'Ó saudade da infância...' Não é a infância bonita e sim o estranhamento dela. O trecho do texto de divulgação diz o seguinte: "Cínthya investiga a origem das farsas familiares, da necessidade de fingir felicidade mais do que ser feliz". Exato. Essa obrigação da aparência. Dentro da família você tem que seguir um ritmo que pode não ser o teu! Tu é estrangeiro no almoço, na janta, nos hábitos. Imagine se pudéssemos poder escolher nossa aparência?

Link: http://tribunadonorte.com.br/noticia/o-que-resta-a-um-homem-feio-senao-a-irreverencia/220994

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Constantina no Jornal do Comércio




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Ficou com vontade de ler Constantina?

Pede em http://visiteedith.com
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ou compra o e-book: http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/160325/cinthya-verri-constantina.html

Curte a página no FB: http://facebook.com/constantinaolivro
e acompanhe as novidades e os próximos lançamentos.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Constantina no Estado de Minas


Esta é a cópia da página.



POESIA »Medos, mentiras e verdades

André di Bernardi Batista Mendes
Publicação: 19/05/2012 04:00
Mostrando maturidade e competência, Cínthya Verri lança seu primeiro livro, Constantina  (Fabrício Carpinejar/Divulgação)
Mostrando maturidade e competência, Cínthya Verri lança seu primeiro livro, Constantina


A gaúcha Cínthya Verri lança hoje, às 11h, na livraria Scriptum, o livro Constantina (Editora Edith, 80 páginas, R$ 25). Com essa bela e promissora estreia na literatura, a poeta retrata sua infância no município onde nasceu, 355 quilômetros ao Norte de Porto Alegre. Ela explica, por meio da poesia: “Nasci em Constantina/ meus pais me registraram na capital/ até meu nascimento foi uma mentira”.

Constantina torna-se, assim, uma espécie de Macondo, com seus mistérios, suas curvas, suas sombras, suas sobras. Dividido em três partes (“Destino”, “Fatalidade” e “Acaso”), Constantina é marcado por versos maduros, pungentes, curtos, sempre na medida. Como quem canta uma canção para espantar o medo, Cínthya encara, armada de palavras, o que pode haver de amargo na palavra terrível, mas sem exageros, sem excessos desnecessários. Ela meio que revisita seus medos infantis para melhor perceber as tantas mentiras adultas.

Cínthya tem um olhar insistente. Ela retira, como quem pega emprestado, o que pode haver de cômico e trágico e simplesmente transforma: “Meu desespero não é preto e branco, é colorido”. Poeta nasce poeta. Desde sempre, desde os primórdios, parece que a poesia marcou de forma profunda a vida, os momentos da autora: “Minha ama-seca/ esfriava o leite noturno/ eu mentia/ ainda está quente/ ainda está quente/ só para vê-la jogar a brancura/ de uma xícara a outra/ sem derramar sequer uma gota”. Assim é a poesia de Cínthya Verri: branca quando tem de ser branca, preta quando é de noite, azul quando tem de ser. 

Cínthya não aceita fingimentos. Família, farsas, felicidades, tudo é turbilhão. Escrever um poema é finalmente chegar. “Só é tarde para os outros.” Para o poeta, tempo é sinônimo de caos, de alegria. O tempo, para Cínthya, corre amorosamente para dentro, num turbilhão feito de coisas vivas. Por isso tanta memória. Não tem a dureza, a poesia de Cínthya prefere, apesar do cinza, do tempo que pode ser temporal, a beleza, a essência do aço em flor.

Cínthya prefere – é isso, na maioria das vezes, é muito bom – a concisão para explorar o máximo que sobra, que explode de cada situação, de cada coisa que pulsa. A poeta reduz para melhor atingir, para tocar com mãos de gente o essencial. Que pode ser fogo, que pode ser água. A poesia de Cínthya é bonita, pois vem do trovão e é feita de flashes. Quase todos os poemas são carregados de uma luminosidade que atinge o simples, que chega a ser suficiente.

Se ela se desdobra para mostrar uma visão um tanto sombria do mundo, também é verdade que a poeta gaúcha não deixa de lado o essencial para a feitura do bolo, do poema. Cínthya, com ternura, é cheia de zelo, gosta de silêncios que, aos poucos, vão se transformando, pura alquimia, para ganhar cores e nomes. Raivas, nostalgias, melancolia, fracassos, diferenças. Não são apenas palavras. Tudo é o que parece ser, quando entra a faca do verso, que amplia o choque, que não coagula alma e sentimento. 

Os poemas de Constantina têm algo de sol e lua, têm algo de terra que suja a face. Cínthya adianta para o novo o seu processo de lucidez e o faz de forma lúdica, fato que empresta aos poemas frescor e qualidade. Se a poeta respeita a página em branco, também pode ser verdade que ela retira, apesar de todas as sombras acima citadas, qualquer peso que porventura se sobreponha ao ato de escrever. 

“Jogo no fogo/ a ver o que sobra/ o que fica sou eu.” Certas coisas são incomunicáveis: “Não entrego/ minha solidão/ nem a mim mesma”. Maior que o feio, existem beijos inesquecíveis. Os poemas de Constantina carregam densidades, mas trazem neste balaio estranho asas e ares de pura leveza, apesar da dureza, do cimento que insiste em versos como estes: “Me descalço de graça/ preciso sangrar os pés/ finos e magros/ vejo as vidraças da pele/ eu me desfaço a pedradas/ entre as veias”. 

Não é preciso dizer mais. Cínthya, dentro do rude, contra malefícios, mentiras, murros, parece que insiste e prefere a suavidade. Sensível, bela, ela sacou que “só a música me enxerga”. Partida, abrindo-se à força, sempre partindo, indo para outras estações, a poeta vai de encontro aos contrários da vida. “As palavras não doem/ mais do que um soco.” Mas a vida dá voltas e voltas. De boba, Cínthya não tem nada: “Planejo mirabolâncias sangrentas”. A poeta, se não despreza, contenta-se: “Só me reconheço/ com pouco”.


CONSTANTINA
Lançamento do livro de Cínthya Verri, hoje, às 11h, na Livraria e Editora Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).
Informações: (31) 3223-1789.

SAIBA MAIS

Talentos plurais
Natural de Constantina e radicada em Porto Alegre, Cínthya Verri, de 31 anos, é médica e mantém um quadro semanal chamado “Quase perfeito” na Rádio Gaúcha, além de colaborar com crônicas nas rádios Ipanema e Elétrica. Compositora, cantora, desenhista, blogueira, prepara um especial de músicas homenageando o artista francês Serge Gainsbourg.


PENSAMENTOS OPOSTOS, SENTIMENTOS CONCORDANTES



Foto de Fernando Gomes

Ele é escritor, cronista, pai, dono de casa, professor, poeta, jornalista. Ela é escritora, cronista, poeta, madrasta, médica, acompanhante terapêutica, cantora, ilustradora.

Ele tem 39 anos. Ela tem 31. Ele tem dois filhos, Mariana, 18, e Vicente, 10. Ela tem uma cadelinha, Cora, 4. Casal, dupla, duo, não importa, Fabrício Carpinejar e Cínthya Verri assinarão juntos na nova revista Donna a coluna Quase Perfeito, com ilustrações da própria Cínthya.

A proposta é brincar de consultório sentimental, respondendo a perguntas dos leitores – cada um com seu ponto de vista, replicando-se e provocando-se mutuamente.

– Nos conhecemos no final de 2008, ambos exibidos, carentes, espalhafatosos, discordantes. O único jeito que cada um encontrou para calar a boca do outro foi com um beijo! Só brigamos naquela noite, e por conta da Mercedes Sosa – conta Cínthya, autora da Constantina, relembrando o primeiro encontro com Carpinejar, autor de Canalha!.

O multicasal começou morando junto, depois viveu “separado-junto”, até montar um apartamento:

– Apareci com uma biblioteca de sete mil livros. Cínthya surgiu com uma coleção maravilhosa de sapatos. Não dá mais para separar. Nossos livros não andam descalços pela casa – diz Fabrício.

– Temos escritório juntos, mas escrevemos na varanda, na sala, na cozinha. Eu escrevo olhando televisão, em transe. O Fabrício prefere o silêncio. Somos hiperativos de temperamentos diferentes. O Fabrício é o organizado que perde tudo. Eu sou a desorganizada que não perde nada – completa Cínthya.

E como será a coluna no Donna que estreia no próximo domingo? Fabrício responde:

– Imprevisível, nunca sabemos o que o outro vai falar. Pensamentos opostos, sentimentos concordantes. Sinceridade não é para doer, mas para cicatrizar. Não vamos fingir, nem fugir do assunto. Adoramos uma boa discussão.

COM NOVO PAPEL, DONNA GANHARÁ ARES DE REVISTA


Evoluir é mudar sem perder a identidade, é incorporar novidades e adaptar-se a novas circunstâncias sem abrir mão da essência. Se a regra vale para as pessoas, pode ser aplicada também a jornais e revistas, que são organismos dinâmicos e em constante processo de renovação.

No próximo domingo, os leitores encontrarão encartada na Zero Hora dominical uma evolução do Donna – suplemento que estreou no jornal em maio de 1993 com o objetivo de ser muito mais do que um caderno feminino. Mesmo contemplando assuntos tradicionalmente tratados pelas revistas femininas, como moda, beleza e comportamento, Donna, ao longo de sua trajetória, firmou-se como um caderno da família inteira, contando com dois dos mais queridos cronistas do Brasil: os gaúchos de corpo, alma e endereço Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros.

A mudança mais evidente – e literalmente palpável – desta nova fase está na capa, que passa agora a ser impressa em papel couchê, dando ao suplemento um aspecto ainda mais sofisticado e duradouro: Donna deixa de ser um caderno para se tornar uma revista semanal. As páginas internas também ganham um papel diferenciado, ideal para destacar o design gráfico e o trabalho de alguns dos melhores fotógrafos de moda do Brasil que colaboram com a revista.

– Com o papel de maior qualidade, todo o conteúdo do Donna, sobretudo ilustrações, fotografia e publicidade, será muito valorizado aos olhos dos leitores – diz o diretor-geral de Jornais RS do Grupo RBS, Marcelo Rech, lembrando que Zero Hora está investindo mais de R$ 4 milhões no novo Donna este ano. Além da melhoria do papel, boa parte deste investimento está na instalação, no Parque Gráfico Jayme Sirotsky, em Porto Alegre, de um equipamento de origem suíça capaz de grampear 37 mil exemplares da revista por hora.

Editorialmente, a nova revista Donna também terá novidades. Incorporando-se ao “dream team” de cronistas da revista, o escritor Fabrício Carpinejar assina com a mulher, a também escritora Cínthya Verri, a coluna Quase Perfeito, em que o casal vai responder a questões dos leitores apresentando as perspectivas feminina e masculina dos mesmos assuntos. A página assinada pela astróloga Amanda Costa terá mais conteúdo exclusivo, e a revista ganha ainda uma seção de passatempos, com Palavras Cruzadas e Sudoku.

Reportagens sobre comportamento e tendências seguem sendo um dos pontos fortes da revista, que traz ainda entrevistas e dicas sobre a programação cultural, sem deixar de lado as tradicionais seções de moda, beleza e etiqueta. A personagem escolhida para estampar a primeira edição da nova revista Donna é a ex-Miss Universo Ieda Maria Vargas, que recebeu em seu apartamento, em Gramado, a editora Mariana Kalil e a colunista Celia Ribeiro para uma conversa franca e emocionada sobre amor, família e superação.

Donna vai evoluir, tornar-se revista, mas jamais vai perder a essência que conquistou os leitores nesses 19 primeiros anos: tratar de assuntos e personagens que tocam o coração de homens e mulheres gaúchos.

Publicado no jornal Zero Hora 
Editoria de Geral 20 de maio de 2012  
P. 24, N° 17075

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Conversa de Homem [Saiu na Cultura, Zero Hora, 31/12/2010 e 01/01/11]

POR CÍNTHYA VERRI
MÉDICA E PSICOTERAPEUTA




Francisco Bosco questiona qual o limite para a renúncia 
e o sacrifício no amor em “E Livre Seja Este Infortúnio”


Homem não será confessional para falar de amor, logo se municia de teorias psicanalíticas, semiologia e Foucault. Francisco Bosco brinca com a atitude e chama a si mesmo para uma conversa de homem. Não sabemos ao certo o que motivou seu novo livro, E Livre Seja Este Infortúnio, a não ser que foi inspirado em um verso de Rimbaud.


Ele trata da metamorfose de amor, que Ovídio já cantou. A mutação mais radical da personalidade. Uma espécie de suicídio de temperamento. Todo sujeito negado por uma mulher foi Werther. Todo apaixonado trocou seus ideais e amigos para contentar pedidos de alcova.


Francisco estuda a renúncia e o sacrifício afetivos feitos por uma relação. Qual é o limite? É senso comum aplaudirmos a independência, a manutenção da individualidade – encaramos quem não cede a quem ama como um vencedor, alguém maduro, capaz de se preservar. Bosco, na contramão, aponta que a paixão é o momento propício para enfrentar o pai e a mãe e descobrir do que somos feitos – esse poço infindável de teimosia. A paralisia pode significar apenas o medo ou a preguiça de se reinventar. Toda invenção começa com a intervenção.


A paixão é um eterno despojar-se: negociar o que pode ser dado até que reste somente o necessário. O autor desvenda que somente através de uma experiência imponente seremos capazes de abandonar o ritornelo. A partir do choque térmico do real, daquilo que não imaginávamos antes, é que aceitamos a condição sincera e útil do apequenamento. Ou seja, não somos tão bons assim a ponto de nos conservarmos intactos.


Com uma sinceridade ultrajante, usa a psicanálise para se entender, nunca para se conformar. Dá alta para sua analista e explica que terapia não é tratamento, mas um percurso intelectual. O cabra anuncia que a vivência da paixão representa um aniquilamento sedutor: aproveitar a desagregação para ser mais real rompendo o ciclo de repetições. Para chorar, nada mais estimulante do que uma cebola: “O eu é estruturado como uma cebola. O que significa isso? Significa que o eu é formado de uma série sucessiva de identificações. Se despirmos uma a uma essas identificações, como quem descasca uma cebola, não restará nada”.


Talvez seja indicado seguir o conselho de Brás Cubas: melhor cair das nuvens do que do terceiro andar (que o diga Arnaldo, o ex-lóki mutante, após voo suicida pela janela). Bosco detalha como o desejo insano proporcionado pela paixão é o mesmo que investir todo o dinheiro da sua vida em uma única ação, em suma, absoluta sandice. Logicamente, quando toda a nossa vida depende de uma única pessoa e sua opinião, iremos acatar como nunca julgamos possível. Seria como ouvir um comando divino direto no teledeus. Queremos agradar ao ser amado. Mais que isso: precisamos agradar ao nosso objeto de amor, dependemos de seu desejo. Claro que não é uma equação direta, há todo um Almodóvar para nos explicar.


Quando amamos, ao mesmo tempo, gostaríamos de deixar de amar. Afinal, é a fonte central de sofrimento e dependência. Queremos destruir a paixão. Por isso ela é tão violenta. Isso passa muitas vezes ao largo do que pressupomos. Preferimos acreditar que somos corajosos e entregues ao amor verdadeiro. Mentira. Procuramos quem nos confirma a identidade. Desdenhamos quem nos descobre a identidade. Identidade é apenas uma idealização.


Já Francisco tem várias: Francisco de Castro Mucci, 34 anos, libriano com um escorpião tatuado, é mengo fanático, ensaísta talentoso, doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, letrista, colunista do jornal O Globo e filho de João Bosco. Não nessa ordem, afinal, colou o sobrenome do pai e saiu-se à edição de seu primeiro livro. Batizou-se, nas artes, Francisco Bosco.


Ele se armou de conceitos e chegou para se matar em autoduelo de faroeste: “Na minha vida há um fosso entre o que fui e o que me tornei”. Atacou de botânico, de Woody Allen, de Shane, de Charles Bronson, de Borges, Nietzsche. Acerta um cruzado de Lacan e um jab de Sigmund Freud. A gente se rende antes do terceiro assalto. Nem queremos chorar o leite derramado de Chico Buarque. É paixão à primeira leitura.


Escorrega, no entanto, no epílogo, afinal, não é santo: chama o acaso de imperfeição do real. Ora, o acaso justamente sequer é acessível ao homem. Só a natureza tem acesso à perfeição. Só a natureza é capaz de gerar o acaso. Nós mal conseguimos sortear a loteria e, ainda assim, porque inventamos uma indulgenciazinha. O acaso é tudo. Sorte grande a de quem abre os braços e se enlaça com o imprevisto. Pobre de quem não entendeu que desejamos, sim, controlar. Apenas não conseguimos.



E LIVRE SEJA ESTE INFORTÚNIO
FRANCISCO BOSCO
AZOUGUE EDITORIAL
R$38,00




Jornal Zero Hora, caderno Cultura, p. 2, Sobre o Amor.
31/12/2010 e 01/01/2011 | N° 16566


sábado, 4 de setembro de 2010

Cinderela só depois de separada.




Cinderela só depois de separada

Pensará que se trata de um livro infantil. De capa dura azul com uma garatuja colorida na capa, o título reforça a confusão: A Cinderela Mudou de Ideia (ed. Planeta). Cuidado no topo à direita, um selo revela: um conto para mulheres modernas.

O conteúdo é adulto. A justificativa das escritoras espanholas Nunila López Salamero, 44 anos, e Myriam Cameros, 32, tem lógica: a infância transmite melhor a emoção. As páginas passam rápido, mas o amadurecimento do leitor é perene. A simplicidade inesperada arrebata, tão direta, com uma honestidade incomum; possível apenas para aqueles que já aprenderam com a própria experiência, para aqueles que estão falando de si próprios.

No enredo, uma paródia da fábula de Cinderela. Com as unhas pintadas de Nunila e Myriam, ela se torna uma heroína vegetariana que se percebe dentro de uma vida que outros escolheram para ela. É um conto de libertação feminina. A Cinderela prefere as pantufas aos sapatinhos de cristal, descobre que o casamento pode ser um péssimo negócio e que amor definitivo é o amor-próprio.

Quem pensa que a batalha das mulheres é caso encerrado talvez perceba que chegou a hora de queimar as calcinhas. Basta acompanhar o sucesso de vendas da obra e sua volta ao mundo pela internet. Todas as gerações ainda precisam desvestir a princesa.

Espera-se da mulher que ela pese determinados quilos, que alcance certa altura; que se vista com elegância, que caminhe sozinha, que cozinhe e que trabalhe, também entenda da casa e seja capaz de gerar e cuidar dos filhos. Espera-se que as meninas sejam bem comportadas, coquetes, polidas, debutem em longos vestidos e sonhem que um príncipe venha resgatá-las de pais conservadores.

Quando um homem é responsável pela salvação, a masmorra vem com a frigidez inclusa.

São raras as que experimentam sua sexualidade com liberdade. Não são estimuladas à masturbação, aos exercícios pélvicos. Depois do parto, a maioria das mães não é orientada a treinar a musculatura vaginal. São tabus que encobrem a verdade de que uma parturiente já completou sua tarefa reprodutiva. Que importância tem o prazer a esta altura do campeonato?

Alguns consideram o feminismo demodê. Entretanto, uma nova corrente toma força.

A primeira onda do feminismo, que se iniciou no final do século 19, buscava essencialmente os direitos civis, de contrato e de voto. Em 1960, se iniciou a segunda onda. Diferente das suffragettes, como eram chamadas as ativistas que lutavam pelo direito ao sufrágio, essas moças uniram-se em busca de igualdade social.

A terceira onda feminista começou em 1990. O movimento é sutil, e vem em boa hora. É mais uma luta cultural, embora tenha corpo político. Ela abraça a causa dos transtornos alimentares, por exemplo. Tanta revolução para a mulher conquistar o seu lugar e agora elas querem ocupar menos espaço com seus físicos cada vez menores, finos, magros, pequenos. A terceira onda quer provocar os paradigmas do que é bom ou mau para as mulheres.

O questionamento é muito mais inteligente porque as formas de subtração são disfarçadas. E, principalmente, geradas pelas próprias mulheres. É corriqueiro mães desistirem de sua identidade e adotarem a do marido ou dos filhos com o propósito de controlar a todos.

Esse impulso é praticamente natural, corre silencioso sob a pele: mal percebe, mas já no primeiro encontro, ela testa o sobrenome do candidato para ver se combina com o seu. Cuida como ele se comporta com os animais, com os garçons, com seus sobrinhos, a ver se antecipa a paternidade. Observa o parceiro no trabalho, contabiliza o futuro promissor. Em troca, não oferece perigo: assume uma postura previsível, espera que ele ligue no dia seguinte. E sexo no primeiro encontro, nem pensar. É o famoso manual.


A Cinderela Mudou de Ideia, de Myriam Cameros e Nunila López.
Editora Planeta, 88 páginas, preço sugerido R$ 24,90.


Pequenos rituais que confirmam a cinderelice atávica. Quer dançar conforme a música? Faça-o ao menos bem informada. Que não seja o bailado coreografado hipnótico, a sina repetida milhares e milhares de vezes, onde acordam infelizes e culpando o marido. Jamais se responsabilizando pelo que vivem.

Não é verdade a proclamada vitimização: coitada domesticada, sem chance de ser o que poderia, presa aos bebês pelos pés.

Com ternura firme, A Cinderela Mudou de Ideia pergunta sobre o desafio que a existência propõe: você deve uma vida para você mesma. Ninguém tem que vir e fazê-la e nem poderia. É uma solidão necessária e que exige vigilância. Quando se distrair, cairá na mesmice do sofrimento, achando normal não gostar do que faz e temendo pela segunda-feira.

Quem detesta segunda-feira pode não saber ainda, mas vai descobrir que também odeia os demais dias.

Tem um preço, evidentemente. Às vezes, a opção é baratear e permanecer presa em ciclos de infelicidade contínua em nome da mentira de se sentir em segurança. A arte de viver bem é um ofício, depende da coragem de assumir a responsabilidade pessoal – que é intransferível. Não é questão de sacrifício, e sim de prazer da escolha, largar o que não agrada, custe o que custar.



Nunila López Salamero e Myriam Cameros já trabalham em um segundo projeto juntas.
“Trataremos um assunto difícil com humor e amor”, fazem mistério

“O que está fora de moda é o machismo”

Após cinco anos visitando editoras e não recebendo nenhuma resposta concreta, Nunila López Salamero e Myriam Cameros decidiram mandar um e-mail aos amigos com a ideia de que investissem pequenas somas em dinheiro em troca de que, uma vez publicado o livro, recebessem uma determinada quantidade de exemplares e seus nomes fossem publicados como colaboradores.

“Para nossa surpresa, de repente começamos a receber dinheiro de pessoas que não conhecíamos. Em menos de um mês, reunimos quase 7 mil euros, isso em tempos de crise na Espanha, para que pudéssemos realizar nosso sonho”, lembra a dupla. A seguir, a entrevista com Myriam Cameros.

Donna – Como chegaram ao formato de livro ilustrado de conteúdo adulto? Configura uma inversão inovadora, assim como existem livros para crianças que interessam aos adultos, não é?

Myriam Cameros – Nunila escreveu o conto anterior por encomenda para uma associação de mulheres que sofriam violência de gênero. Eu tinha ouvido a história, fiquei encantada. Pensava que era universal, que mesmo que a origem do conto fosse a história de uma mulher que sofre violência, era uma história para todos, um conto que ajuda a ser feliz e, sobretudo, a dar um basta no que não faz você feliz. Sentimos que os adultos e as crianças precisam de mitos, histórias, fábulas que os faça acreditar mais em si mesmos e acreditar que podemos fazer algo neste mundo. Qualquer história deve ser acompanhada de um imaginário visual potente em que, como no texto, possamos romper com os papeis definidos e cansativos, com os quais muitos de nós não nos identificamos.

Donna – Sabe-se que vocês fazem apresentações do livro. Como é isso? Vocês têm planos de vir ao Brasil?

Myriam Cameros – Fazemos apresentações em instituições, universidades, grupos que queiram dar palestra de prevenção à violência machista, e em outros tantos locais de cultura livre sobre o fenômeno de edição caseira de um livro com a ajuda de pessoas, antes de sua chegada à internet. As apresentações que mais nos deram prazer aconteceram em presídios, onde também acreditamos que as pessoas gostaram mais, tanto homens quanto mulheres. A última apresentação desta temporada foi no Instituto Cervantes de Oran, na Argélia, que também foi muito emocionante. E quanto ao Brasil, queremos que nos convidem... para pegarmos as malas.

Donna – O que a Cinderela mudou em suas vidas? Esperavam que fosse tão curativo?

Myriam Cameros – Realizar um sonho, como o nosso, de que a Cinderela chegasse nos lares de tantas pessoas diferentes nos deu asas. Os “nãos” já não nos assustam tanto, pois foi pelos “nãos” no começo... que tivemos um grande “sim”. Acho que nós duas paramos de tentar convencer para ser. Em qualquer lugar onde vamos, uma festa, uma praia, as pessoas nos tratam com muito carinho por sermos as criadoras da Cindy.

Donna – Estão trabalhando em algum projeto novo?

Myriam Cameros – Nunila tem um espetáculo, um monólogo em que atua, e se apresenta por toda a Espanha. Eu me realizo muito ilustrando de tudo: Cds, roupas, animações, mas meu ponto fraco e meus próximos projetos são um livro dirigido ao público infantil (o que não quer dizer que não será para adultos) e um comic book só de minha autoria. Em parceria artística, estamos trabalhando nosso segundo projeto. Mais uma vez, trataremos um assunto difícil com humor e muito amor.

Donna – No livro Psicanálise dos Contos de Fadas, Bruno Bettelheim afirma que não se deve mexer nas estruturas dos contos tradicionais. Na sua opinião, está na hora de nos adaptarmos aos desejos e fazer espaço para a confissão nos velhos modelos?

Myriam Cameros – Concordamos, em parte. Muitos contos de fadas têm uma estrutura curativa e preciosa em sua origem, mas as más interpretações geraram papéis muito daninhos que não passam de armas de poder. O beijo final de todos esses contos tradicionais tem mais que ver, em seu início, com a fusão da parte masculina e feminina do que com um príncipe intrépido que salva a princesa incapaz. Branca de Neve e os Sete Anões tem mais a ver com a necessidade de se manter os sete centros energéticos (chakras) limpos do que com a servidão aos homens dentro de casa.

Donna – O feminismo está fora de moda? Vocês acham que existe preconceito, que fingimos ser desnecessária uma luta pela igualdade de gêneros?

Myriam Cameros – O que certamente está fora de moda é o machismo. Acho perigoso falar de feminismo de uma forma pejorativa, pois não deixa de ser uma luta para que o mundo seja melhor, tanto para os homens quanto para as mulheres e os gêneros intermediários. Muitas pessoas confundem feminismo com “femismo” – de fêmea - (as mulheres boas e os homens maus), e isso é um engano. Um mundo onde mulheres são agredidas, menosprezadas, nunca será um mundo bom. Nosso livro teve muita aceitação do público. No entanto, as vozes de setores mais conservadores dizem que é uma obra de mulheres amargas, feministas, quando, na verdade, nosso trabalho foi mostrar que a protagonista não termina enroscada com o príncipe, mas faz muitos amigos e dança com eles até o amanhecer. É necessário viver finais diferentes, e formas diferentes de viver.


05 de setembro de 2010 | N° 16449
Publicado no Caderno Donna
Pág 19 e 20
Jornal Zero Hora

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

[CINEMA] Jorge Furtado debate Woody Allen


Diane Keaton e Woddy Allen em Annie Hall


ZERO HORA, 30 de agosto de 2010 | N° 16443

Um dos melhores filmes de Woody Allen (e seguramente o maior na história das piores traduções de títulos), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977) é a atração de hoje no projeto Cineterapia. A exibição, gratuita e aberta ao público, ocorre nesta segunda-feira, às 20h, no Cinebancários (General Câmara, 424).

Para esta sessão, o cineasta Jorge Furtado (O Homem que Copiava, Meu Tio Matou um Cara) participará do bate-papo que pretende jogar um pouco de luz sobre a história de Alvy Singer (Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há 15 anos e acaba se apaixonando por Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora em início de carreira com um temperamento que não aceita atalhos e explicações fáceis. O filme conquistou os Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor atriz e melhor roteiro original em 1978.

Além de Furtado, estarão presentes os terapeutas Cínthya Verri e Roberto Azambuja.

No projeto Cineterapia, grandes nomes da produção cultural gaúcha são convidados para analisar, junto do público, clássicos do cinema que, de alguma forma, abordam a saúde afetiva em suas tramas. Reservas de ingressos deverão ser feitas por email pelo atendimento@clinicaverri.com.br.

sábado, 7 de agosto de 2010

QUANDO A ARTE CONTEMPLA A CIÊNCIA

McEwan lança romance do clima

POR CINTHYA VERRI

Em romance a ser publicado pela Companhia das Letras,
McEwan costura enredos que exorcizam Freud, Spinoza e Nietzsche

“Solar” propõe um tratado sobre a culpa ao avaliar as decisões de um físico premiado pela Academia Sueca. Ian McEwan sobe os termômetros do mercado e inaugura a literatura sobre as alterações climáticas. A sátira amarga aborda um tema nevrálgico da atualidade – o aquecimento global.

Um dos grandes autores britânicos, Ian McEwan, dos sucessos Na Praia e Reparação, lança Solar. Ainda inédito no Brasil, debutou em março deste ano no Reino Unido e em Portugal. Apelidado de “Ian Macabro”, o romancista, que completou 62 anos no dia 21 de junho, assumiu o bom humor. Uma guinada em toda a trajetória marcada pela seriedade. Porém, quem pensa que graça é leveza, engana-se: serve apenas para tocar em pontos ainda mais obscuros.

Em entrevista ao The Daily Telegraph, antecipou sua preocupação com o novo romance: “Eu quero tentar e de modo útil esbater as diferenças entre os dois reinos (ciência e arte). Por um lado, existe a tradição científica. Os cientistas apoiam-se nos ombros de gigantes, como os escritores. Por outro lado, nas artes é que se fazem descobertas. Por isso, estou discutindo com, ou pelo menos brincando com a ideia de que a arte nunca avança”.

De fato, McEwan levou a cabo sua ambição. Traduziu com alta fidelidade conceitos da física e da mecânica quântica. Solar, que sairá no Brasil pela Companhia das Letras, assume condição híbrida, científico-artística. Ensina e entretém.

Acompanhamos o protagonista e anti-heroi Michael Beard e sua inquetação em sobrepor a genialidade profissional a problemas de excesso de peso e dilemas com mulheres.

A sabedoria ficcional de Ian McEwan pode matar de inveja qualquer estudioso de psicanálise e filosofia. Arruma enredos para exorcizar Freud, Garma, Winnicott, Spinoza e Nietzsche. Afinal, sua obsessão é como a culpa influencia destinos.

Em Reparação, apresentou-nos Briony. A menina escritora que, ao caluniar o namorado da irmã, ocasiona a morte dele na guerra. Com a atitude impulsiva e orgulhosa, a menina sente que arranjou o curso da tragédia, mas não desejava efetivamente que isso acontecesse. Depois do processo espelhado nas páginas, Briony responsabiliza-se por quem ela é, por agir daquele modo quando ainda era uma criança. Livra a culpa e permite-se viver. Ela concebeu, por meio da literatura, um mundo onde os dois, a irmã e o namorado, poderiam ver-se novamente e se amar. É a expressão legítima de quem compreende o acaso e sua imperiosidade.

Michael Beard, personagem central de Solar, exibe justamente o reverso. É sutil a diferença, porque, à primeira vista, se poderia concluir que é um homem sem remorso; que a própria ausência de culpa incita o desenvolvimento da personalidade sedutora e sociopática; capaz de usar qualquer um que cruzasse seu caminho para, sem escrúpulos, extrair vantagens para si. Desse modo se comporta em seus cinco casamentos e com todas as amantes; no trabalho, apropria-se das pesquisas de outro homem, incrimina um terceiro em um assassinato; atribui-se a autoria de relatos alheios para usar em suas palestras; premedita o uso de verbas e patenteia invenções que não foram suas.

Ao exame com mais cuidado, encontramos um homem arrogante e inábil, incapaz de viver bem. Gênio da física, Michael Beard escreveu um trabalho original que lhe rendeu o Prêmio Nobel. Partiu de Einstein e descobriu uma leitura inédita, curiosamente, sobre a interrelação dos elementos: a chamada conflação. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas ou conceitos, que compartilhem algumas características em comum, tornam-se mistas, até aparentarem uma única identidade – as diferenças parecem perdidas.

Não é à toa: a ideia se assemelha ao borramento ético do personagem; à dificuldade de Beard em apreciar qualquer um de modo independente. Não soube nunca se colocar no lugar do outro, antecipar, sentir empatia ou mesmo cuidar de alguém. Principalmente, porque não sabia cuidar de si mesmo.

Freud, em seu famoso artigo Criminosos por um Sentimento de Culpa, ensinou que a atitude criminosa pode ser gerada pela culpa; o mesmo avalia Nietzche, quando fala dos Delinquentes Pálidos pela interlocução de Zaratustra. Mas foi Paulo Sérgio Rosa Guedes, nos ombros desses gigantes, quem descreveu a conduta com clareza e simplicidade. Em A Paixão – Caminhos e Descaminhos, anuncia o quanto o sentimento de culpa é um sistema, um artifício de ver e agir que instalamos sobre o raciocínio. Com ele nos mantemos em busca do poder; nós é que sabemos como deveria ser; quando nossas ideias valem mais que a realidade; e é possível acreditar que existe um deus e que somos melhores do que ele.

Neste ponto, reconhecemos que culpa e onipotência são a mesma coisa. Na epígrafe, John Updike é empregado para afinar o tom da narrativa nesse sentido: “Que lhe dá grande prazer, faz Rabbit sentir-se rico, contemplar o desperdício do mundo, saber que a terra também é mortal”.

Paulo Sérgio explica:

“1. O sentimento de culpa nunca é consequência de algo, e sim, causa.

2. O sentimento de culpa é sempre oposto, antagônico, à vivência de responsabilidade pessoal. São sentimentos auto-excludentes apesar de, na linguagem comum, serem vistos como sinônimos.

3. O sentimento de culpa é sempre um delírio de grandeza, uma ilusão de onipotência, uma convicção absoluta de ter poder.”

Nossa reação diante do devir, especialmente diante do que nos desagrada, é condenar a realidade. Sentimo-nos poderosos: julgamos o acaso e chamamos de sorte ou azar.

Michael Beard é o exemplo típico dessa inversão. Quando chega ao Polo Norte, por exemplo, conhece que é uma questão de acidente geográfico, mas assinala que está no topo do mundo e que todos, inclusive a ex-mulher, estão abaixo dele. Nessa oportunidade, quando passou a ser admirado pelos companheiros de viagem, não pôde evitar de achar graça em virar o queridinho do grupo, mas se considerou rebaixado por dar valor às pessoas. Ao examinar a condição humana, pondera que “é a melhor, não, é a mais interessante das raças, talvez não a melhor imaginável, mas a melhor disponível”. Confia que poderíamos ser salvos de nossa natureza através da implementação de leis e do respeito à elas. Michael alcança concluir, por um relance, que não superaria a humanidade dentro dele; medita que, na hora da morte, provavelmente estaria usando meias díspares, teria emails por responder, camisas ainda estariam sem botões, a luz do corredor permaneceria com defeito, restariam contas a pagar, amigos esperando por uma resposta e amantes por conquistar. “Esquecimento, a última palavra em organização, seria seu único consolo.”

É contra essa verdade que Michael se dedica e, evidentemente, fracassa.

É um livro trágico e cômico, igual a nossa existência.

Reparação e Solar apresentam a riqueza, a dimensão da força e o antagonismo da culpa e da responsabilidade. Por serem óbvios, tão difíceis de ver. Precisamos de todas as versões disponíveis. Prova de que a arte, de fato, não avança. Não tem sentido. É como a vida: um eterno retorno.

Médica, psicoterapeuta
cinthya@clinicaverri.com.br

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Cultura, p. 6
07 de agosto de 2010 | N° 16420
Porto Alegre (RS)
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EU TE DISSE

Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...