quinta-feira, 4 de março de 2010

SPRINTCUTS – atalhos para lugar nenhum.



Na Amazônia, fiz amizade com um geólogo. Nada aprendi sobre as pedras e o solo, mas deixou uma lição valiosa. Em uma dessas santas noites de bar, o guru da terra disse o seguinte:

- Hoje você pode ganhar menos dinheiro, mas te sobram os minutos para andar de ônibus ao invés de avião, por exemplo. Com a idade, a renda aumenta, mas nada vai valer mais que o tempo - esse vai passar a ser teu ouro.

O amigo também me ensinou dicas sobre loterias, jogos de azar e pocker. Nenhuma instrução me ajudou mais do que a pérola sobre desfrutar de liberdade dentro do tempo.

Aprendemos desde cedo com os porquinhos, vaquinhas e ovelhinhas de louça para depositar moedas: economizar faz bem. Desde a infância juntamos as parcas mesadas para valorizar o dinheiro. De grão em grão, a galinha enche o papo. Mas ela engole logo depois.

Tenho um colega médico que trabalha em plantões, opera nas folgas dos outros e é excelente profissional. Há anos junta seus ganhos. Tem uma pequena fortuna no banco e já conhece investimentos o suficiente para saber que cada níquel reunido gera mais dígitos no extrato. Perguntei a ele para quê juntava a soma. Disse que não sabia, mas tinha certeza de que descobriria um dia.

Não acredito nisso. A lentidão é a velocidade. A pausa é mais poderosa que a nota musical. O intervalo dita o andamento.

Sem a cadência natural, nos tornamos biônicos, perdemos a espontaneidade. O espaço continua sendo o tempo de quem tem imaginação.

Usamos computadores cada vez mais rápidos, celulares que aglomeram funções para que acessemos imediatamente qualquer coisa. Não descansamos um minuto. Embora não tenhamos um objetivo exato. Usamos a premissa de que “economizar é sempre bom” para não sermos pegos desprevenidos por problemas. Nosso tempo é para remediar um futuro contratempo.

Só que nossa vida se torna um permanente acidente.

Uma companhia de telefonia celular americana criou o “Sprintcuts” e um website chamado www.waitless.org. A ideia central é reunir a nós, os afobados, e convidar-nos a usar técnicas que poupar o relógio: uns poucos minutos por dia ganhos, ao final da vida, representam dias ou meses salvos.

Eu me pergunto: para quê?

Quem quiser reservar o tempo, poderá mesmo demorar mais na hora de escolher a roupa para a Festa do Andador, o principal evento anual da Casa de Repouso.

Confira a Crônica Falada sobre este tema no Programa Camarote TVCOM que foi ao ar dia 03.02.2010. Vá para o Bairro das Mídias

SPRINTCUTS – atalhos para lugar nenhum.



Na Amazônia, fiz amizade com um geólogo. Nada aprendi sobre as pedras e o solo, mas deixou uma lição valiosa. Em uma dessas santas noites de bar, o guru da terra disse o seguinte:

- Hoje você pode ganhar menos dinheiro, mas te sobram os minutos para andar de ônibus ao invés de avião, por exemplo. Com a idade, a renda aumenta, mas nada vai valer mais que o tempo - esse vai passar a ser teu ouro.

O amigo também me ensinou dicas sobre loterias, jogos de azar e pocker. Nenhuma instrução me ajudou mais do que a pérola sobre desfrutar de liberdade dentro do tempo.

Aprendemos desde cedo com os porquinhos, vaquinhas e ovelhinhas de louça para depositar moedas: economizar faz bem. Desde a infância juntamos as parcas mesadas para valorizar o dinheiro. De grão em grão, a galinha enche o papo. Mas ela engole logo depois.

Tenho um colega médico que trabalha em plantões, opera nas folgas dos outros e é excelente profissional. Há anos junta seus ganhos. Tem uma pequena fortuna no banco e já conhece investimentos o suficiente para saber que cada níquel reunido gera mais dígitos no extrato. Perguntei a ele para quê juntava a soma. Disse que não sabia, mas tinha certeza de que descobriria um dia.

Não acredito nisso. A lentidão é a velocidade. A pausa é mais poderosa que a nota musical. O intervalo dita o andamento.

Sem a cadência natural, nos tornamos biônicos, perdemos a espontaneidade. O espaço continua sendo o tempo de quem tem imaginação.

Usamos computadores cada vez mais rápidos, celulares que aglomeram funções para que acessemos imediatamente qualquer coisa. Não descansamos um minuto. Embora não tenhamos um objetivo exato. Usamos a premissa de que “economizar é sempre bom” para não sermos pegos desprevenidos por problemas. Nosso tempo é para remediar um futuro contratempo.

Só que nossa vida se torna um permanente acidente.

Uma companhia de telefonia celular americana criou o “Sprintcuts” e um website chamado www.waitless.org. A ideia central é reunir a nós, os afobados, e convidar-nos a usar técnicas que poupar o relógio: uns poucos minutos por dia ganhos, ao final da vida, representam dias ou meses salvos.

Eu me pergunto: para quê?

Quem quiser reservar o tempo, poderá mesmo demorar mais na hora de escolher a roupa para a Festa do Andador, o principal evento anual da Casa de Repouso.

Confira a Crônica Falada sobre este tema no Programa Camarote TVCOM que foi ao ar dia 03.02.2010. Vá para o Bairro das Mídias

SPRINTCUTS – atalhos para lugar nenhum.



Na Amazônia, fiz amizade com um geólogo. Nada aprendi sobre as pedras e o solo, mas deixou uma lição valiosa. Em uma dessas santas noites de bar, o guru da terra disse o seguinte:

- Hoje você pode ganhar menos dinheiro, mas te sobram os minutos para andar de ônibus ao invés de avião, por exemplo. Com a idade, a renda aumenta, mas nada vai valer mais que o tempo - esse vai passar a ser teu ouro.

O amigo também me ensinou dicas sobre loterias, jogos de azar e pocker. Nenhuma instrução me ajudou mais do que a pérola sobre desfrutar de liberdade dentro do tempo.

Aprendemos desde cedo com os porquinhos, vaquinhas e ovelhinhas de louça para depositar moedas: economizar faz bem. Desde a infância juntamos as parcas mesadas para valorizar o dinheiro. De grão em grão, a galinha enche o papo. Mas ela engole logo depois.

Tenho um colega médico que trabalha em plantões, opera nas folgas dos outros e é excelente profissional. Há anos junta seus ganhos. Tem uma pequena fortuna no banco e já conhece investimentos o suficiente para saber que cada níquel reunido gera mais dígitos no extrato. Perguntei a ele para quê juntava a soma. Disse que não sabia, mas tinha certeza de que descobriria um dia.

Não acredito nisso. A lentidão é a velocidade. A pausa é mais poderosa que a nota musical. O intervalo dita o andamento.

Sem a cadência natural, nos tornamos biônicos, perdemos a espontaneidade. O espaço continua sendo o tempo de quem tem imaginação.

Usamos computadores cada vez mais rápidos, celulares que aglomeram funções para que acessemos imediatamente qualquer coisa. Não descansamos um minuto. Embora não tenhamos um objetivo exato. Usamos a premissa de que “economizar é sempre bom” para não sermos pegos desprevenidos por problemas. Nosso tempo é para remediar um futuro contratempo.

Só que nossa vida se torna um permanente acidente.

Uma companhia de telefonia celular americana criou o “Sprintcuts” e um website chamado www.waitless.org. A ideia central é reunir a nós, os afobados, e convidar-nos a usar técnicas que poupar o relógio: uns poucos minutos por dia ganhos, ao final da vida, representam dias ou meses salvos.

Eu me pergunto: para quê?

Quem quiser reservar o tempo, poderá mesmo demorar mais na hora de escolher a roupa para a Festa do Andador, o principal evento anual da Casa de Repouso.

Confira a Crônica Falada sobre este tema no Programa Camarote TVCOM que foi ao ar dia 03.02.2010.

terça-feira, 2 de março de 2010

Trainspotting é o próximo filme do CINETERAPIA



29/03, 20h, no Cinebancários -
Rua General Câmara, 424 - Centro
(Pertinho do Theatro São Pedro)
EVENTO GRATUITO


O Sindibancários e o Espaço Cultural Clínica Verri selaram um pacto e quem ganha é você.

Agora, uma vez por mês, você pode ir ao cinema de graça e curtir ótimos diálogos com psiquiatras, terapeutas e outras personalidades.

A estréia do ciclo fica por conta de Trainspotting e do Dr. Carlos Alberto Iglesias Salgado.

Para a exibição do filme, a Channel 4 da Inglaterra cedeu os direitos especialmente para o evento.

[Sobre o Convidado]
Carlos Alberto Iglesias Salgado é o novo presidente da Abead (gestão 2010/2011), eleito durante o XX Congresso Brasileiro da entidade, em Bento Gonçalves. É psiquiatra com mestrado em Psiquiatria pela UFRGS. Especialista em Dependência Química pela Unifesp. Coordenador do Ambulatório de Dependência Química do Hospital Presidente Vargas e preceptor de Residência Médica em Psiquiatria no mesmo local. É o atual coordenador do Departamento de Dependência Química da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

[Sobre o Filme]
Trainspotting, livro transformado em cult pelas mãos do cineasta Danny Boyle, drama britânico lançado em 1996, consagrou Irvine Welsh como uma das vozes mais representativas de sua geração.

[Sinopse]
Trainspotting, na gíria escocesa, é uma atividade sem sentido, algo que é uma total perda de tempo. Essa expressão resume as vidas de Rents, Sick Boy, Tommy, Matty, Spud e Begbie, jovens moradores de Edimburgo que passam a maior parte de seu tempo se embebedando em pubs, arrumando confusão, assistindo a jogos de futebol pela televisão e, principalmente, se drogando. A heroína é a droga preferida, um barato que dura tempo suficiente para aplacar a banalidade da existência. Pelo menos até o próximo pico.

Explicitando toda a dor e a banalidade de ser jovem em um mundo de portas fechadas, onde a maior oportunidade que se pode esperar é conseguir um emprego reles em uma grande empresa, ter filhos e desfrutar de uma velhice obesa, Irvine Welsh narra, com ironia e sem meias palavras, o cotidiano de jovens que renunciaram a tudo isso, que preferem se perder em um mundo de contravenções, vagar pelas ruas sem rumo, a ceder a uma vida adulta que não faz o mínimo sentido.


[Principais Prêmios e Indicações]

Oscar 1997 (EUA)

* Indicado na categoria de melhor roteiro adaptado.

Eleito pela Times um dos melhores 1000 filmes já feitos, em 2004.

BAFTA 1996 (Reino Unido)

* Venceu na categoria de melhor roteiro adaptado.
* Indicado nas categorias de melhor filme britânico (Prêmio Alexander Korda).

Prêmio Bodil 1997 (Dinamarca)

* Venceu na categoria de melhor filme não-americano.

Brit Awards 1997 (Reino Unido)

* Venceu na categoria de melhor trilha sonora.

Independent Spirit Awards 1997 (EUA)

* Indicado na categoria de melhor filme estrangeiro.


Reservas de ingressos deverão ser feitas por email
(atendimento@clinicaverri.com.br)
e serão válidas até 20 minutos antes da sessão.

Trainspotting é o próximo filme do CINETERAPIA



29/03, 20h, no Cinebancários -
Rua General Câmara, 424 - Centro
(Pertinho do Theatro São Pedro)
EVENTO GRATUITO


O Sindibancários e o Espaço Cultural Clínica Verri selaram um pacto e quem ganha é você.

Agora, uma vez por mês, você pode ir ao cinema de graça e curtir ótimos diálogos com psiquiatras, terapeutas e outras personalidades.

A estréia do ciclo fica por conta de Trainspotting e do Dr. Carlos Alberto Iglesias Salgado.

Para a exibição do filme, a Channel 4 da Inglaterra cedeu os direitos especialmente para o evento.

[Sobre o Convidado]
Carlos Alberto Iglesias Salgado é o novo presidente da Abead (gestão 2010/2011), eleito durante o XX Congresso Brasileiro da entidade, em Bento Gonçalves. É psiquiatra com mestrado em Psiquiatria pela UFRGS. Especialista em Dependência Química pela Unifesp. Coordenador do Ambulatório de Dependência Química do Hospital Presidente Vargas e preceptor de Residência Médica em Psiquiatria no mesmo local. É o atual coordenador do Departamento de Dependência Química da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

[Sobre o Filme]
Trainspotting, livro transformado em cult pelas mãos do cineasta Danny Boyle, drama britânico lançado em 1996, consagrou Irvine Welsh como uma das vozes mais representativas de sua geração.

[Sinopse]
Trainspotting, na gíria escocesa, é uma atividade sem sentido, algo que é uma total perda de tempo. Essa expressão resume as vidas de Rents, Sick Boy, Tommy, Matty, Spud e Begbie, jovens moradores de Edimburgo que passam a maior parte de seu tempo se embebedando em pubs, arrumando confusão, assistindo a jogos de futebol pela televisão e, principalmente, se drogando. A heroína é a droga preferida, um barato que dura tempo suficiente para aplacar a banalidade da existência. Pelo menos até o próximo pico.

Explicitando toda a dor e a banalidade de ser jovem em um mundo de portas fechadas, onde a maior oportunidade que se pode esperar é conseguir um emprego reles em uma grande empresa, ter filhos e desfrutar de uma velhice obesa, Irvine Welsh narra, com ironia e sem meias palavras, o cotidiano de jovens que renunciaram a tudo isso, que preferem se perder em um mundo de contravenções, vagar pelas ruas sem rumo, a ceder a uma vida adulta que não faz o mínimo sentido.


[Principais Prêmios e Indicações]

Oscar 1997 (EUA)

* Indicado na categoria de melhor roteiro adaptado.

Eleito pela Times um dos melhores 1000 filmes já feitos, em 2004.

BAFTA 1996 (Reino Unido)

* Venceu na categoria de melhor roteiro adaptado.
* Indicado nas categorias de melhor filme britânico (Prêmio Alexander Korda).

Prêmio Bodil 1997 (Dinamarca)

* Venceu na categoria de melhor filme não-americano.

Brit Awards 1997 (Reino Unido)

* Venceu na categoria de melhor trilha sonora.

Independent Spirit Awards 1997 (EUA)

* Indicado na categoria de melhor filme estrangeiro.


Reservas de ingressos deverão ser feitas por email
(atendimento@clinicaverri.com.br)
e serão válidas até 20 minutos antes da sessão.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Offline

Epitáfio
Gostava de entrar de
cabeça em seus textos.


Passeava pelo Facebook quando meu amigo querido que vive em Los Angeles apareceu online. O serviço de mensagem instantânea do Facebook é tão precário que só serve para convidar o contato para um encontro em outro programa. Foi o que fizemos.

Não entrava no MSN desde que eu e Bitols começamos a namorar. Logo no início, conversamos sobre como o messenger podia ser um covil de conversinhas que convidavam a outras conversinhas muitos piores. Combinamos aposentar os nossos.

Quando entrei no MSN para falar com o compadre dos states, estava cometendo uma infração. Escolhi o modo “invisível”. Verifiquei meus contatos bloqueados do passado sorrindo enquanto chateava com o amigo querido de LA. Qual não foi minha surpresa quando vejo o nick de Bitols atualizado informando o twitter dele?

Quando isso tinha acontecido?

Meditei a respeito. Como poderia cobrar a brecha se eu também quebrava a promessa? Formulei um plano rápido. Resolvi twittar que estivera no MSN. Pus assim:

Entrei no MSN. Não tive coragem de sair do invisível, no entanto. Achei que ia ser uma chuva de: oh, está viva. Não quis passar vexame.
4:47 PM Feb 19th from web

A isca funcionou perfeitamente. Bitols escreveu um email comentando a twitada.

oi amor
aquilo que tu sentiu hj no MSN acho que eu também sentiria.
mal entraria, e todas as janelas diriam:oh!
ficaria constrangido e logo invisível.
faz um tempão que não entro. não dá para mexer no passado.
beijo
Bitols

Bingo. Ele também lembrava da promessa. Feito o barraco:

- Que história é essa do senhor ter andado no MSN?

- Eu te falei, amor, dei aquela entrevista.

- Que entrevista?

- Aquela para a Bahia. Foi via MSN. Eu te falei.

- Falou porcaria nenhuma! Que conversa foi essa de melhor não provocar o passado? Que passado? Não bloqueou teus contatos?

- Mas eu não sei bloquear!

- Ah, não sabe? Não sabe clicar com o botão direito?

- Juro! Não sei! E depois, acho “bloquear” tão forte...

- Quer dizer que o senhor deu a tal “entrevista” com mil contatinhos gritando: “Canalha”, é você?

E aproveitou para deixar teu Twitter para as mocreias.

Deixa pra mim. Vou ensinar a bloquear no computador.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Capim nosso de cada dia - Crônica Falada no Camarote TVCOM [17.02.10]


Capim Anoni – Eragrostis spp

O capim-anoni veio importado por um agrônomo na década de 50. Chegou aos pastos do Rio Grande do Sul travestido de solução para herbívoros. A planta crescia incrivelmente viçosa e se espalhava magicamente.

Mas o Anoni revelou-se uma praga, um caso de contaminação biológica. A espécie disseminou-se e tomou o espaço das leguminosas e outros vegetais nativos. O gado não consegue pastá-lo, os cavalos ficam enfraquecidos. Não conseguimos arrancar o Anoni com a mão. É aquele capim alto e verde que parece de seda. Não cede.

Vejo que estamos sempre atrás do Anoni. Sempre querendo uma solução fantástica, capaz de nos poupar do esforço característico. Queremos uma bondade parada, um atalho, uma curva rápida para cruzar montanhas. Queremos emagrecer sem passar fome, clarear olheiras em cinco minutos, cumprir faculdades e construir carreiras em dois anos. Queremos peelings que não agridam a pele, massageadores que reduzam a gordura, transformar alimentos congelados em uma explosão de sabores usando um novo forno.

Queremos encarnar a cigarra, nunca a formiga. Almejamos parecer os mais espertos. Sonhamos em superar o trabalho árduo a que os outros se submetem.

Não é apenas a arrogância que nos move em direção aos anonis. É também uma ambição invejosa.

O capim-anoni, em seu ambiente natural, não é um problema. Lá ele divide espaço com combatentes originais. Não sabe se alastrar na terra natal. Guarda as proporções de equilíbrio. Somente translocado é que ele se comporta mal.

O mesmo acontece quando vemos a vida de alguém. Selecionamos os aspectos que queríamos ter: muito dinheiro, uma mulher com seios fartos, o jeito de falar especial ou até o cabelo liso. Pinçamos o objeto, como se fosse possível reproduzir as condições originais.

Assim nascem as anorexias nervosas, as bulimias, os transtornos de ansiedade generalizada. Uma ânsia que não sabemos de quê. É a não aceitação de nossa flora nativa, a contaminação biológica do desejo.

Trazemos vontades anoni também – sonhos da mãe, do pai, do marido, da namorada. Vontades que não são as nossas: uma profissão específica, ter muitos filhos, usar roupas claras, sapatos com salto alto. Muitas vezes não é o que faríamos da nossa existência se decidíssemos por nossa conta.

Enxertar uma característica, assumir uma expectativa alheia é o mesmo que plantar o anoni: devastará o pasto, atropelará espaços e acabaremos desnutridos.

O anoni é nossa tentativa perene de aposentadoria.

Confira a Crônica Falada no Camarote TVCOM: vá para o Bairro das Mídias

O Capim nosso de cada dia - Crônica Falada no Camarote TVCOM [17.02.10]


Capim Anoni – Eragrostis spp

O capim-anoni veio importado por um agrônomo na década de 50. Chegou aos pastos do Rio Grande do Sul travestido de solução para herbívoros. A planta crescia incrivelmente viçosa e se espalhava magicamente.

Mas o Anoni revelou-se uma praga, um caso de contaminação biológica. A espécie disseminou-se e tomou o espaço das leguminosas e outros vegetais nativos. O gado não consegue pastá-lo, os cavalos ficam enfraquecidos. Não conseguimos arrancar o Anoni com a mão. É aquele capim alto e verde que parece de seda. Não cede.

Vejo que estamos sempre atrás do Anoni. Sempre querendo uma solução fantástica, capaz de nos poupar do esforço característico. Queremos uma bondade parada, um atalho, uma curva rápida para cruzar montanhas. Queremos emagrecer sem passar fome, clarear olheiras em cinco minutos, cumprir faculdades e construir carreiras em dois anos. Queremos peelings que não agridam a pele, massageadores que reduzam a gordura, transformar alimentos congelados em uma explosão de sabores usando um novo forno.

Queremos encarnar a cigarra, nunca a formiga. Almejamos parecer os mais espertos. Sonhamos em superar o trabalho árduo a que os outros se submetem.

Não é apenas a arrogância que nos move em direção aos anonis. É também uma ambição invejosa.

O capim-anoni, em seu ambiente natural, não é um problema. Lá ele divide espaço com combatentes originais. Não sabe se alastrar na terra natal. Guarda as proporções de equilíbrio. Somente translocado é que ele se comporta mal.

O mesmo acontece quando vemos a vida de alguém. Selecionamos os aspectos que queríamos ter: muito dinheiro, uma mulher com seios fartos, o jeito de falar especial ou até o cabelo liso. Pinçamos o objeto, como se fosse possível reproduzir as condições originais.

Assim nascem as anorexias nervosas, as bulimias, os transtornos de ansiedade generalizada. Uma ânsia que não sabemos de quê. É a não aceitação de nossa flora nativa, a contaminação biológica do desejo.

Trazemos vontades anoni também – sonhos da mãe, do pai, do marido, da namorada. Vontades que não são as nossas: uma profissão específica, ter muitos filhos, usar roupas claras, sapatos com salto alto. Muitas vezes não é o que faríamos da nossa existência se decidíssemos por nossa conta.

Enxertar uma característica, assumir uma expectativa alheia é o mesmo que plantar o anoni: devastará o pasto, atropelará espaços e acabaremos desnutridos.

O anoni é nossa tentativa perene de aposentadoria.

Confira a Crônica Falada no Camarote TVCOM: vá para o Bairro das Mídias

O Capim nosso de cada dia - Crônica Falada no Camarote TVCOM [17.02.10]


Capim Anoni – Eragrostis spp

O capim-anoni veio importado por um agrônomo na década de 50. Chegou aos pastos do Rio Grande do Sul travestido de solução para herbívoros. A planta crescia incrivelmente viçosa e se espalhava magicamente.

Mas o Anoni revelou-se uma praga, um caso de contaminação biológica. A espécie disseminou-se e tomou o espaço das leguminosas e outros vegetais nativos. O gado não consegue pastá-lo, os cavalos ficam enfraquecidos. Não conseguimos arrancar o Anoni com a mão. É aquele capim alto e verde que parece de seda. Não cede.

Vejo que estamos sempre atrás do Anoni. Sempre querendo uma solução fantástica, capaz de nos poupar do esforço característico. Queremos uma bondade parada, um atalho, uma curva rápida para cruzar montanhas. Queremos emagrecer sem passar fome, clarear olheiras em cinco minutos, cumprir faculdades e construir carreiras em dois anos. Queremos peelings que não agridam a pele, massageadores que reduzam a gordura, transformar alimentos congelados em uma explosão de sabores usando um novo forno.

Queremos encarnar a cigarra, nunca a formiga. Almejamos parecer os mais espertos. Sonhamos em superar o trabalho árduo a que os outros se submetem.

Não é apenas a arrogância que nos move em direção aos anonis. É também uma ambição invejosa.

O capim-anoni, em seu ambiente natural, não é um problema. Lá ele divide espaço com combatentes originais. Não sabe se alastrar na terra natal. Guarda as proporções de equilíbrio. Somente translocado é que ele se comporta mal.

O mesmo acontece quando vemos a vida de alguém. Selecionamos os aspectos que queríamos ter: muito dinheiro, uma mulher com seios fartos, o jeito de falar especial ou até o cabelo liso. Pinçamos o objeto, como se fosse possível reproduzir as condições originais.

Assim nascem as anorexias nervosas, as bulimias, os transtornos de ansiedade generalizada. Uma ânsia que não sabemos de quê. É a não aceitação de nossa flora nativa, a contaminação biológica do desejo.

Trazemos vontades anoni também – sonhos da mãe, do pai, do marido, da namorada. Vontades que não são as nossas: uma profissão específica, ter muitos filhos, usar roupas claras, sapatos com salto alto. Muitas vezes não é o que faríamos da nossa existência se decidíssemos por nossa conta.

Enxertar uma característica, assumir uma expectativa alheia é o mesmo que plantar o anoni: devastará o pasto, atropelará espaços e acabaremos desnutridos.

O anoni é nossa tentativa perene de aposentadoria.

Confira a Crônica Falada no Camarote TVCOM:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Borbulhas de Amor

EPITÁFIO
Há outras formas
de aquecer um corpo.


- Vamos passar a noite no motel?

Achei legal a ideia, afinal, divido o apartamento com meu irmão. Seria, sem dúvida, mais romântico.

Eu não sei nada sobre motéis. Devo ter freqüentado, no máximo, uns dois. Na vida. Juro. É puro fruto do acaso porque acabei namorando gente que vivia sozinha. Então, não tive o tour iniciático, não herdei problemas com sogros, não girei pela cidade.

Quando ele sugeriu o motel, achei bem diferente. Meio cedo para já querer “diferente”, mas ok. Segurei o pensamento inseguro e fiz o mantra de “é pelo romance”.

Chegamos no motel muito rápido. Estranho para quem sempre pergunta as rotas, os melhores trajetos. Na portaria, nem leu a tabuleta, saiu pedindo suíte 23 ou 33 não-sei-o-quê.

Eu olhava tudo disfarçando a cara de tonta. Não estou acostumada a não saber certas coisas, ainda mais aos trinta anos. Como ia contar que não conhecia nada de nada daquilo?

Para minha surpresa, chegava a me sentir encabulada de estar num motel, tamanha a lacuna que encontrei: vergonha de estar em motel eu devia ter sentido aos quinze anos, não agora.

Havia quartos com e sem Academia do Prazer, a voz anunciou. Na hora repeti rindo baixo, mas ele ouviu.

- A Academia do Prazer daqui é mixa, precisa ver os equipamentos dos motéis da Scharlau.

Acrescentou uma piadinha sobre um tal “JM” que sai nos cartões de crédito da região metropolitana

- Como se isso guardasse segredo, mas TODOS sabem que “JM” são as iniciais do dono dos motéis da região.

Todos sabem? Ia me segurando no assento do carro, rezando pelo botão ejetor. Mas o pesadelo só começava. Lembrei da amiga da adolescência que tinha cartão Vip do Vison Motel e ganhava descontos e pernoites com seu namorado. E eu lá, mentindo que já conhecia e não achava grande coisa.

Falou da batata frita do motel botafogo, da decoração brega no porto dos casais, da decadência do medieval, do bom e honesto A2.

- Hum, sei. É mesmo? Puxa. Quem diria?

Começou a encher a banheira e disse:

- Mas é para depois, tu sabe, né? Depois da hidro não dá para fazer nada.

- É, realmente.

*Gracias, Bob,
pela sugestão
de morte.

EU TE DISSE

Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...