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sábado, 14 de abril de 2007

Chuva e Guarda-chuva




Poesia - Cínthya Verri
Arranjo gráfico - Cleyton Arghiropol

Chuva e Guarda-chuva




Poesia - Cínthya Verri
Arranjo gráfico - Cleyton Arghiropol

Embraçamento (14.12.06)


E o amor
Queimando no peito
Na alcova do peito
No fundo
E se espalhando em ondas
De calor pelo corpo

Te vejo brincar
Com amor tão livre
Tanta coragem

(E tão comum de se perder
Essa coisa que se perde)

Você e o brinquedo
De amor
(fantasia)

Fico inflamada
De amor por ti

Lembro
Que a vida é linda
E que pode ser procriada

Prece
À Nossa paz secreta-interna:
Embraçados no silêncio,

Que suportemos a felicidade.

Embraçamento (14.12.06)


E o amor
Queimando no peito
Na alcova do peito
No fundo
E se espalhando em ondas
De calor pelo corpo

Te vejo brincar
Com amor tão livre
Tanta coragem

(E tão comum de se perder
Essa coisa que se perde)

Você e o brinquedo
De amor
(fantasia)

Fico inflamada
De amor por ti

Lembro
Que a vida é linda
E que pode ser procriada

Prece
À Nossa paz secreta-interna:
Embraçados no silêncio,

Que suportemos a felicidade.

A Boca e o Meio


Elza canta
Também estou aí,
Que é que há?
Estou nessa boca.

Mas se (e se me) (e se se)
Cala a boca poética
Estou fora da boca.

Entro na boca
Acende-me a chama
E pressinto o incêndio
É aí que me p a r o.

Entro na boca
Olha que me perco de vez
Sem perder-me no fim

O verso

Justifica os meios.

A Boca e o Meio


Elza canta
Também estou aí,
Que é que há?
Estou nessa boca.

Mas se (e se me) (e se se)
Cala a boca poética
Estou fora da boca.

Entro na boca
Acende-me a chama
E pressinto o incêndio
É aí que me p a r o.

Entro na boca
Olha que me perco de vez
Sem perder-me no fim

O verso

Justifica os meios.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Mandato do Querer (ago/06)

Compreendo agora, nesse mesmo instante
Que o borrado passado, não muito distante,
É simples pedaço de falso brilhante
Usamos (des)culpa de sermos infantes:
E agora, crescidos, dizemos: abuso
Mentira que seja uma repetição
Façamos um novo e mais nobre uso
Largando a carcaça de medo e ilusão.
Aquilo chamado de pura inocência
Vestia não-dita, mas tal competência
Prazer de ser vítima em inconsciência
É Instinto intuído de sobrevivência
Agora no entanto são vívidos fatos.
Deixemos a ela o nosso ultimato:
São ocos! É culpa o nosso chicote!
Sentindo prazer, isso não é boicote.
(o sul é a vida; a morte, o norte!)

Mandato do Querer (ago/06)

Compreendo agora, nesse mesmo instante
Que o borrado passado, não muito distante,
É simples pedaço de falso brilhante
Usamos (des)culpa de sermos infantes:
E agora, crescidos, dizemos: abuso
Mentira que seja uma repetição
Façamos um novo e mais nobre uso
Largando a carcaça de medo e ilusão.
Aquilo chamado de pura inocência
Vestia não-dita, mas tal competência
Prazer de ser vítima em inconsciência
É Instinto intuído de sobrevivência
Agora no entanto são vívidos fatos.
Deixemos a ela o nosso ultimato:
São ocos! É culpa o nosso chicote!
Sentindo prazer, isso não é boicote.
(o sul é a vida; a morte, o norte!)

segunda-feira, 26 de março de 2007

A Camisa Branca


Sentei-me para tomar café.
Senti-me realmente estúpida. Não a princípio. A princípio, senti-me realmente elegante, na cafeteria:
- Dê-me um capuccino, por favor. Posso sentar lá fora?
- Claro!
Respondeu a balconista, de avental negro, que poderia ser qualquer outra, tão pouco individual que era.
Sentei-me para tomar o café.
Uma mulher de olhos tristonhos, cheia de neblina por dentro, com camisa branca de botões.
Adoro usar camisa branca de botões. Não sei porque tenho apenas uma. Talvez porque fique ocupada escolhendo o dia para usá-la. Penso: ‘não, hoje não é o dia. Quem sabe mais à noite, se formos na casa de alguém, passear ou sair para jantar. Mas, na maioria das vezes, não saímos ou então faz frio para a camisa que tem mangas curtas. Ou é calor e a camisa tem, mesmo que curtas, mangas.
Então, esperamos o dia. Eu e a camisa.
Hoje, depois que estivemos abraçados, derretidos na cama, vesti a camisa sem pensar. Abotoei-a na frente do espelho e achei elegante.
Agora, na vitrine da loja de cafés, vejo-me. Sentada, a mulher tristonha que insiste em escrever coisas.
Às vezes, acho fruto da minha arrogância isso de querer escrever.
Esperança. Alguém irá ler e se identificar. Esse alguém, ao final do lido, molhará os olhos e sentirá a volúpia agradecida por minha grande capacidade de tradução. E, claro, irá amar a autora.
Escondo de mim meu desejo grandioso de furor curandis. Ora, não o escondo tanto. Vejo-o logo, em dias como hoje, com a camisa branca. Especialmente se me encorajo a escrever.
E, por fim, o meu furor é de curar a mim.
São meus os olhos que se molham ao final do escrito. É a mim que visito quando escrevo. E sou eu a leitora que vê tradução e sente amor pela autora.
Igual à mulher de avental negro, sou a mulher de camisa branca. Que poderia ser qualquer outra, tão pouco individual que sou.
Sou mais um agrupamento.

A Camisa Branca


Sentei-me para tomar café.
Senti-me realmente estúpida. Não a princípio. A princípio, senti-me realmente elegante, na cafeteria:
- Dê-me um capuccino, por favor. Posso sentar lá fora?
- Claro!
Respondeu a balconista, de avental negro, que poderia ser qualquer outra, tão pouco individual que era.
Sentei-me para tomar o café.
Uma mulher de olhos tristonhos, cheia de neblina por dentro, com camisa branca de botões.
Adoro usar camisa branca de botões. Não sei porque tenho apenas uma. Talvez porque fique ocupada escolhendo o dia para usá-la. Penso: ‘não, hoje não é o dia. Quem sabe mais à noite, se formos na casa de alguém, passear ou sair para jantar. Mas, na maioria das vezes, não saímos ou então faz frio para a camisa que tem mangas curtas. Ou é calor e a camisa tem, mesmo que curtas, mangas.
Então, esperamos o dia. Eu e a camisa.
Hoje, depois que estivemos abraçados, derretidos na cama, vesti a camisa sem pensar. Abotoei-a na frente do espelho e achei elegante.
Agora, na vitrine da loja de cafés, vejo-me. Sentada, a mulher tristonha que insiste em escrever coisas.
Às vezes, acho fruto da minha arrogância isso de querer escrever.
Esperança. Alguém irá ler e se identificar. Esse alguém, ao final do lido, molhará os olhos e sentirá a volúpia agradecida por minha grande capacidade de tradução. E, claro, irá amar a autora.
Escondo de mim meu desejo grandioso de furor curandis. Ora, não o escondo tanto. Vejo-o logo, em dias como hoje, com a camisa branca. Especialmente se me encorajo a escrever.
E, por fim, o meu furor é de curar a mim.
São meus os olhos que se molham ao final do escrito. É a mim que visito quando escrevo. E sou eu a leitora que vê tradução e sente amor pela autora.
Igual à mulher de avental negro, sou a mulher de camisa branca. Que poderia ser qualquer outra, tão pouco individual que sou.
Sou mais um agrupamento.

terça-feira, 20 de março de 2007

Mal de Pensamentos


Estive às voltas com Adélia Prado, de quem queria ouvir a voz. Eu também queria ver a Isadora Duncan Dançar. Escrevi ‘dançar’com letra maiúscula num lapso. Quis corrigir. Apaguei e reescrevi com letra maiúscula três vezes. No fim, dançar é o sobrenome da Isadora. Deixei assim.
Meus pensamentos hoje faziam neblina nos meus olhos. Tem dia em que me refugio atrás deles, provavelmente pra fazer de conta que não corro perigo só em estar viva.
Disse até que estava amarga a quem perguntou como eu estava hoje.
De qualquer modo, tem dia em que azedo a língua. Eu não brigo com isso.
Vinha no trânsito encharcado da tarde chuvosa. Eu me entristeço nesses dias em que as moscas e formigas estão nervosas também.
Depois, lá no trânsito, cheia de nuvens mentais, parei na sinaleira. O rádio chiava uma música e eu não ouvia. Ali parada, assistia uns policiais verificando documentos de uns motoqueiros. Na minha frente estava um Chevette preto, com uns rapazes. Muito subitamente, o policial maior – era grande mesmo, ademais dos apetrechos todos, coturnos e capacete – saltou para o lado do motorista do tal Chevette. Rugiu com cara muito séria. Os rapazes desceram do carro, todos muitíssimo atônitos. O policial agigantou-se mais, com a mão pronta a sacar a arma, com muita ferocidade, revistou os rapazes. Tudo ali, bem na minha frente. Eu, que pacatamente sofria de pensamentos múltiplos, choquei-me. Os rapazes estavam assustadíssimos. A sinaleira que já tinha estado verde, transmutou-se ao vermelho pela terceira vez. E eu ali, paradinha. Atrás do vidro do carro assistindo. Por fim, movi-me à esquerda pedindo passagem pra pouco gentil senhora do carro que fazia menção de passar na faixa do lado. Enfim, pude mudar a faixa e seguir o rumo. Imediatamente, ouvi o rádio tocando a música, senti meu corpo no banco do carro, senti o motor do carro, senti o asfalto debaixo dos pneus, senti que era abafado, ouvi os sons todos à volta.
Senti-me tão viva.

Um jorro de adrenalina é muito bom pra mal de pensamentos.

Mal de Pensamentos


Estive às voltas com Adélia Prado, de quem queria ouvir a voz. Eu também queria ver a Isadora Duncan Dançar. Escrevi ‘dançar’com letra maiúscula num lapso. Quis corrigir. Apaguei e reescrevi com letra maiúscula três vezes. No fim, dançar é o sobrenome da Isadora. Deixei assim.
Meus pensamentos hoje faziam neblina nos meus olhos. Tem dia em que me refugio atrás deles, provavelmente pra fazer de conta que não corro perigo só em estar viva.
Disse até que estava amarga a quem perguntou como eu estava hoje.
De qualquer modo, tem dia em que azedo a língua. Eu não brigo com isso.
Vinha no trânsito encharcado da tarde chuvosa. Eu me entristeço nesses dias em que as moscas e formigas estão nervosas também.
Depois, lá no trânsito, cheia de nuvens mentais, parei na sinaleira. O rádio chiava uma música e eu não ouvia. Ali parada, assistia uns policiais verificando documentos de uns motoqueiros. Na minha frente estava um Chevette preto, com uns rapazes. Muito subitamente, o policial maior – era grande mesmo, ademais dos apetrechos todos, coturnos e capacete – saltou para o lado do motorista do tal Chevette. Rugiu com cara muito séria. Os rapazes desceram do carro, todos muitíssimo atônitos. O policial agigantou-se mais, com a mão pronta a sacar a arma, com muita ferocidade, revistou os rapazes. Tudo ali, bem na minha frente. Eu, que pacatamente sofria de pensamentos múltiplos, choquei-me. Os rapazes estavam assustadíssimos. A sinaleira que já tinha estado verde, transmutou-se ao vermelho pela terceira vez. E eu ali, paradinha. Atrás do vidro do carro assistindo. Por fim, movi-me à esquerda pedindo passagem pra pouco gentil senhora do carro que fazia menção de passar na faixa do lado. Enfim, pude mudar a faixa e seguir o rumo. Imediatamente, ouvi o rádio tocando a música, senti meu corpo no banco do carro, senti o motor do carro, senti o asfalto debaixo dos pneus, senti que era abafado, ouvi os sons todos à volta.
Senti-me tão viva.

Um jorro de adrenalina é muito bom pra mal de pensamentos.

terça-feira, 13 de março de 2007

Terapia dos Contos


‘Cantar’ histórias promove o contato com nossas origens enraizadas no passado distante: é um prazer terapêutico.
A oficina Terapia dos Contos é a aliança entre estudos de psico-análise, contos de fadas e lendas.
Através dos contos, somos capazes de tocar nossa intimidade, estimular a imaginação e alcançar a paixão.
As histórias trazem palavras sobre a vida da alma: somos capazes de nos encontrar nelas. Esse encontro é curativo.
Quando crianças, alcançamos os primeiros significados das histórias. Na medida em que crescemos, podemos entender outras nuances. Um conto é uma teia repleta de significações. Recebê-lo é uma boa maneira de desenvolver nossa percepção: são forças renovadoras.
Muitas vezes, esquecemos o que é valioso e fundamental: não vemos dádiva em nossas fraquezas, não vemos as dores da transformação e do crescimento como processos naturais e enriquecedores.
Exatamente como nos contos, a jornada da vida nos oferece chances de recuperação, aprendizagem e transformação.
Essa é uma delas.
Oficina Terapia dos Contos
Todas as quintas-feiras às 20h e 30 min. No Empório Canela Café Gourmet, em Canela, RS.
Informações e inscrições: (54) 3031.1000 e (54) 84093502.

Terapia dos Contos


‘Cantar’ histórias promove o contato com nossas origens enraizadas no passado distante: é um prazer terapêutico.
A oficina Terapia dos Contos é a aliança entre estudos de psico-análise, contos de fadas e lendas.
Através dos contos, somos capazes de tocar nossa intimidade, estimular a imaginação e alcançar a paixão.
As histórias trazem palavras sobre a vida da alma: somos capazes de nos encontrar nelas. Esse encontro é curativo.
Quando crianças, alcançamos os primeiros significados das histórias. Na medida em que crescemos, podemos entender outras nuances. Um conto é uma teia repleta de significações. Recebê-lo é uma boa maneira de desenvolver nossa percepção: são forças renovadoras.
Muitas vezes, esquecemos o que é valioso e fundamental: não vemos dádiva em nossas fraquezas, não vemos as dores da transformação e do crescimento como processos naturais e enriquecedores.
Exatamente como nos contos, a jornada da vida nos oferece chances de recuperação, aprendizagem e transformação.
Essa é uma delas.
Oficina Terapia dos Contos
Todas as quintas-feiras às 20h e 30 min. No Empório Canela Café Gourmet, em Canela, RS.
Informações e inscrições: (54) 3031.1000 e (54) 84093502.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Conto das Contas II


Devido ao sucesso do Conto das Contas I, ponho-me a narrar outros detalhes.
A paixão pelas contas, o fervilhar nosso atrás do dinheiro, nossas distrações nos pardais e as lindas multas que recebemos com nossos nomes e foto do bravo instante em que nos impomos à regra do trânsito: como tomam nossos dias: andam às voltas em nossas mentes.
Aproxima-se o imposto de renda. Ah, agora sim! Assunto pra conversar com todos os brasileiros e sentir-se irmandado - a fraternidade dos assolados pelos impostos!
E a sensação de ser herói neste país pulveriza a purpurina...
Ver o pior dos tempos (na economia ou em tudo o mais) é todo um processo. Achar isso tão importante tem uma função.
Nietzsche nos brinda em seu livro ' A Genealogia da Moral':
"Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: 'essas aves de rapina são más; e quem for o seu oposto, ovelha, este não deveria ser bom?' (...) Se os oprimidos, pisoteados, uiltrajados exortam uns aos outros, dizendo, com a vingativa astúcia da impotência: 'sejamos outra coisa coisa que não os maus, sejamos bons!"
Assim, encontrarmo-nos ovelha com ovelha a ruminar a maldade das aves de rapina é identificar o irmão passivamente bom.
Imóvel, impotente, mas sentindo o próprio espírito puro, uma boa alma pagadora de impostos e tributos.
Diante do inevitável, sentir a própria impotência como parte desimportante da realidade é raro.
Melhor sentir-se atuante da própria passividade. Assim, amargar-se com ódio ao mau para sentir-se bom é não ir ativamente em busca do valor em si mesmo.
Aguarda-se silenciosamente, no fundo, encolhido em ódio, pela bem-aventurança que há de vir um dia - e com juros! Será então a felicidade aos puros, àqueles que mais sofreram.
Fé e esperança.
Nada faz-se na vida. Nada acontece. Resta a fé e a esperança. E os impostos.
Jesus disse - mas parece que essa parte ninguém estava prestando atenção: pobres sempre existirão, mas eu passarei.
Ao vibrar com as cobranças e com o ódio que vem com elas, pensemos que isso não é particular; isso não é uma escolha pessoal: é uma grande onda que nos assola os corpos quando nos agrupamos aos ovelhaços.