quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sobre Meninas e Lobos [Crônica Falada no Camarote TVCOM]

Sylvia Ji's "Señora de las Sombras"


Saí do aeroporto e corri um táxi no Rio de Janeiro. Sol lindo, céu lindo, mar lindo. Não dá pra puxar assunto sobre o tempo com o motorista. Sobram as notícias da semana:

- Que o senhor acha do caso do Bruno, hein?

- Não quero falar sobre esses assuntos. Esses assuntos trazem uma vibração ruim.

Tá bem. Deixei ele fazer as vezes de maestro do diálogo. Saiu-se com um discurso sobre políticos. Emendou em crimes políticos. Espichou com sentenças sobre corrupção e, de repente:

- É, mas a culpa é do pai dessa menina que não criou direito. Não sabe que se envolver com jogador de futebol é assim? Era uma vagabunda. O importante é ter Jesus no coração. Se tivesse Jesus no coração, não tinha terminado assim.

Pronto. Encerrada a conversa. Realmente, trouxe vibrações ruins, ele não devia ter falado sobre isso. Fechou o tempo pra mim. Passei remoendo a afirmação machista daquele representante do trânsito. Generalizei e tive ódio daqueles que acreditam que uma mulher assassinada pode ser culpada da própria violência que sofreu. Raptada, espancada e desacordada. Por fim, mutilada. Virou comida de cachorro. Seus ossos adubaram o concreto. E a culpa foi dela? Ela que escolheu esse destino?

O Brasil mata dez mulheres por dia há dez anos. Sempre por motivos domésticos. Somos o terceiro país no mundo, atrás da Colômbia e da África do Sul. Achamos que somos emergentes, que nosso país cresce a olhos vistos, temos shoppings, hipermercados, rodovias, cidades, gigantes pela própria natureza. Ainda pré-históricos nos relacionamentos.
Mulheres procuram os consultórios por problemas de sexualidade. São reprimidas desde a infância, criadas para a frigidez. Embotadas no afeto do corpo porque isso ta,bém garante sua vida. Como? Porque uma mulher que tem prazer com o próprio marido é perigosa. Ela pode ter prazer também com outros homens. Uma mulher que não se interessa por sexo é uma fonte de prazer para o parceiro. E só.

Em qualquer das camadas socias assistimos a desigualdade como se fosse banal. A capacidade de assombro está fazendo muita falta.

Aqui não estamos precisando de educação para não bater na mulher. Aqui ainda precisamos educar para não matar a mulher.


Crônica Falada é um quadro do programa Camarote TVCOM.
Apresentação @katiasuman.
Crônica de @cinthyaverri exibida em 07/07/10.

Sobre Meninas e Lobos [Crônica Falada no Camarote TVCOM]

Sylvia Ji's "Señora de las Sombras"


Saí do aeroporto e corri um táxi no Rio de Janeiro. Sol lindo, céu lindo, mar lindo. Não dá pra puxar assunto sobre o tempo com o motorista. Sobram as notícias da semana:

- Que o senhor acha do caso do Bruno, hein?

- Não quero falar sobre esses assuntos. Esses assuntos trazem uma vibração ruim.

Tá bem. Deixei ele fazer as vezes de maestro do diálogo. Saiu-se com um discurso sobre políticos. Emendou em crimes políticos. Espichou com sentenças sobre corrupção e, de repente:

- É, mas a culpa é do pai dessa menina que não criou direito. Não sabe que se envolver com jogador de futebol é assim? Era uma vagabunda. O importante é ter Jesus no coração. Se tivesse Jesus no coração, não tinha terminado assim.

Pronto. Encerrada a conversa. Realmente, trouxe vibrações ruins, ele não devia ter falado sobre isso. Fechou o tempo pra mim. Passei remoendo a afirmação machista daquele representante do trânsito. Generalizei e tive ódio daqueles que acreditam que uma mulher assassinada pode ser culpada da própria violência que sofreu. Raptada, espancada e desacordada. Por fim, mutilada. Virou comida de cachorro. Seus ossos adubaram o concreto. E a culpa foi dela? Ela que escolheu esse destino?

O Brasil mata dez mulheres por dia há dez anos. Sempre por motivos domésticos. Somos o terceiro país no mundo, atrás da Colômbia e da África do Sul. Achamos que somos emergentes, que nosso país cresce a olhos vistos, temos shoppings, hipermercados, rodovias, cidades, gigantes pela própria natureza. Ainda pré-históricos nos relacionamentos.
Mulheres procuram os consultórios por problemas de sexualidade. São reprimidas desde a infância, criadas para a frigidez. Embotadas no afeto do corpo porque isso ta,bém garante sua vida. Como? Porque uma mulher que tem prazer com o próprio marido é perigosa. Ela pode ter prazer também com outros homens. Uma mulher que não se interessa por sexo é uma fonte de prazer para o parceiro. E só.

Em qualquer das camadas socias assistimos a desigualdade como se fosse banal. A capacidade de assombro está fazendo muita falta.

Aqui não estamos precisando de educação para não bater na mulher. Aqui ainda precisamos educar para não matar a mulher.


Crônica Falada é um quadro do programa Camarote TVCOM.
Apresentação @katiasuman.
Crônica de @cinthyaverri exibida em 07/07/10.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A Perda Necessária [Crônica Falada no Camarote TVCOM]


David Hockney's 'Pool'


Quando me convidaram para morar na Amazônia, eu fui. Pensei que, se não ousasse, jamais saberia o gosto da costela de tampaqui e a alegria de não ter uma profissão definida e experimentar talentos. Quando me chamaram de volta ao Rio Grande do Sul, eu voltei. Se ficasse lá, jamais saberia o que é abrir e gerenciar uma clínica médica.

Se não é por dentro do movimento, não estamos. É claro que toda decisão tem particularidades. Mas conjecturar e nunca definir um lado significa que tentamos ser perfeitos. É porque acreditamos que a premeditação pode nos salvar de errar, embora o perfeccionismo somente aprisione.

A natureza tem um ciclo a ser cumprido. Toda idade termina, a escola modifica, as relações influenciam, o corpo transgride a forma. A única permanência é a da mudança.

Ninguém consegue ficar parado. Na verdade, nem a dor que vive chantageando novas lembranças.

Quando uma coisa trágica acontece, queríamos que isso fosse diferente e nos mantemos imóveis cuidando da ferida. Não arredamos o pé para continuar desfrutando da autoridade do sofrimento.

Estamos no terreno da loucura. Uma ideia de que o tempo para e espera por nós. Nada pode continuar antes que o impasse se resolva. Ficamos congelados.

O pensamento como um disco riscado, um labirinto, um cachorro atrás do rabo.

O rancor e o mal-estar permanentes, a certeza de que amanhã também estaremos mal. Dá até uma esperança a própria desesperança.

Junto e de lambuja sentiremos a ilusão de comandar os eventos: não concordamos com o que aconteceu, não poderia ter acontecido. Portanto não podemos abandoná-lo. O ressentimento é trancar-se numa desculpa.

É esse o tempo da doença: quando tudo está cristalizado, como se a memória esperasse nossa decisão e, com isso, garantimos a ilusão de não enfrentar o fim e de imortalizar a dúvida.

Não é uma questão de rotina; é a repetição do sofrimento. É por dentro desse emaranhado que vamos evitando de encarar e perder de vez o que é para ser perdido, a perda necessária. Sem abrir mão, não podemos ir adiante.

Trauma dá muito trabalho. Perder custa, mas muito mais custa manter-se contra a corrente.


Crônica Falada é um quadro do programa Camarote TVCOM.
Apresentação @katiasuman.
Crônica de @cinthyaverri exibida em 30/06/10.

A Perda Necessária [Crônica Falada no Camarote TVCOM]


David Hockney's 'Pool'


Quando me convidaram para morar na Amazônia, eu fui. Pensei que, se não ousasse, jamais saberia o gosto da costela de tambaqui e a alegria de não ter uma profissão definida e experimentar talentos. Quando me chamaram de volta ao Rio Grande do Sul, eu voltei. Se ficasse lá, jamais saberia o que é abrir e gerenciar uma clínica médica.

Se não é por dentro do movimento, não estamos. É claro que toda decisão tem particularidades. Mas conjecturar e nunca definir um lado significa que tentamos ser perfeitos. É porque acreditamos que a premeditação pode nos salvar de errar, embora o perfeccionismo somente aprisione.

A natureza tem um ciclo a ser cumprido. Toda idade termina, a escola modifica, as relações influenciam, o corpo transgride a forma. A única permanência é a da mudança.

Ninguém consegue ficar parado. Na verdade, nem a dor que vive chantageando novas lembranças.

Quando uma coisa trágica acontece, queríamos que isso fosse diferente e nos mantemos imóveis cuidando da ferida. Não arredamos o pé para continuar desfrutando da autoridade do sofrimento.

Estamos no terreno da loucura. Uma ideia de que o tempo para e espera por nós. Nada pode continuar antes que o impasse se resolva. Ficamos congelados.

O pensamento como um disco riscado, um labirinto, um cachorro atrás do rabo.

O rancor e o mal-estar permanentes, a certeza de que amanhã também estaremos mal. Dá até uma esperança a própria desesperança.

Junto e de lambuja sentiremos a ilusão de comandar os eventos: não concordamos com o que aconteceu, não poderia ter acontecido. Portanto não podemos abandoná-lo. O ressentimento é trancar-se numa desculpa.

É esse o tempo da doença: quando tudo está cristalizado, como se a memória esperasse nossa decisão e, com isso, garantimos a ilusão de não enfrentar o fim e de imortalizar a dúvida.

Não é uma questão de rotina; é a repetição do sofrimento. É por dentro desse emaranhado que vamos evitando de encarar e perder de vez o que é para ser perdido, a perda necessária. Sem abrir mão, não podemos ir adiante.

Trauma dá muito trabalho. Perder custa, mas muito mais custa manter-se contra a corrente.


Crônica Falada é um quadro do programa Camarote TVCOM.
Apresentação @katiasuman.
Crônica de @cinthyaverri exibida em 30/06/10.

A Perda Necessária [Crônica Falada no Camarote TVCOM]


David Hockney's 'Pool'


Quando me convidaram para morar na Amazônia, eu fui. Pensei que, se não ousasse, jamais saberia o gosto da costela de tambaqui e a alegria de não ter uma profissão definida e experimentar talentos. Quando me chamaram de volta ao Rio Grande do Sul, eu voltei. Se ficasse lá, jamais saberia o que é abrir e gerenciar uma clínica médica.

Se não é por dentro do movimento, não estamos. É claro que toda decisão tem particularidades. Mas conjecturar e nunca definir um lado significa que tentamos ser perfeitos. É porque acreditamos que a premeditação pode nos salvar de errar, embora o perfeccionismo somente aprisione.

A natureza tem um ciclo a ser cumprido. Toda idade termina, a escola modifica, as relações influenciam, o corpo transgride a forma. A única permanência é a da mudança.

Ninguém consegue ficar parado. Na verdade, nem a dor que vive chantageando novas lembranças.

Quando uma coisa trágica acontece, queríamos que isso fosse diferente e nos mantemos imóveis cuidando da ferida. Não arredamos o pé para continuar desfrutando da autoridade do sofrimento.

Estamos no terreno da loucura. Uma ideia de que o tempo para e espera por nós. Nada pode continuar antes que o impasse se resolva. Ficamos congelados.

O pensamento como um disco riscado, um labirinto, um cachorro atrás do rabo.

O rancor e o mal-estar permanentes, a certeza de que amanhã também estaremos mal. Dá até uma esperança a própria desesperança.

Junto e de lambuja sentiremos a ilusão de comandar os eventos: não concordamos com o que aconteceu, não poderia ter acontecido. Portanto não podemos abandoná-lo. O ressentimento é trancar-se numa desculpa.

É esse o tempo da doença: quando tudo está cristalizado, como se a memória esperasse nossa decisão e, com isso, garantimos a ilusão de não enfrentar o fim e de imortalizar a dúvida.

Não é uma questão de rotina; é a repetição do sofrimento. É por dentro desse emaranhado que vamos evitando de encarar e perder de vez o que é para ser perdido, a perda necessária. Sem abrir mão, não podemos ir adiante.

Trauma dá muito trabalho. Perder custa, mas muito mais custa manter-se contra a corrente.


Crônica Falada é um quadro do programa Camarote TVCOM.
Apresentação @katiasuman.
Crônica de @cinthyaverri exibida em 30/06/10.

SUPERPAIS [Crônica Falada no TalkRadio]

Para Katia Suman,
que tem coragem
de verdade.



Raphael's "The Small Cowper Maddona"

Clarice Lispector uma vez escreveu que o maior desafio de toda mãe é aceitar ficar cada vez menor. Limitar a própria importância e permitir autonomia a um filho é a missão central da criação de alguém.

Cada movimento é uma oportunidade para testemunhar o milagre da competência: temos mais e mais dela a cada dia.

Uma amiga me contou que trocou de empregada. Foi difícil aceitar a saída da doméstica que acompanhava a família há mais de dez anos. Temia ao antecipar a dor que sentiria a filha. Afinal, desde que nasceu, recebia o amparo da senhora. Na limpeza não ia tão bem, mas topava qualquer brincadeira da menina. Eram grandes companheiras.

O resultado foi outro. A criança sentiu a saída, mas em poucos dias estava adaptada, feliz com a funcionária nova e mais: revelou que essa fazia o melhor chá da vida dela. Minha amiga ficou intrigada, que conversa era aquela de chá melhor da vida? O que será que ela infiltrava na xícara?

À tarde foi espiar o evento e descobrir a proeza. Qual não foi a surpresa quando constatou que o chá era o mesmo, a louça ia igual.

Perguntou para a filha qual era a melhoria tão especial. Sem piscar, já tascou a sentença:

- É que ela me entrega muito quente! E eu mesma é que decido quando está bom pra tomar.

Até o chá pode ter aventura. É uma alegria tomar as próprias decisões. Um desejo natural da infância que precisa ser observado e atendido.

Chega a ser cansativo o número de pais queixosos do comportamento dependente de seus jovens, da demora em se independizar. Querem que o filho assuma a própria vida, a economia, as responsabilidades.

Mas como vão proceder ou seguir adiante essas pessoas cujos pais jamais deixaram o posto de grandes decisores? De superprotetores? De sábios poderosos da casa? De geradores de todas as condutas?

É um crime descuidar uma pessoa que tem necessidades especiais. É um crime criar uma pessoa perfeitamente capaz com cuidados desnecessários.

A temperatura é melhor que se decida cada um. A mãe e o pai que aprendam a suportar sua ausência. A ausência é tão importante quanto a presença na hora de crescer.


>>Ouça Esta Crônica Falada
Crônica Falada é um quadro do programa TalkRadio na Rádio Itapema. Apresentação @katiasuman. Crônica de @cinthyaverri exibida em 29.06.2010
(arraste a rolagem para 35'de programa):

domingo, 4 de julho de 2010

SUPERPAIS [Crônica Falada no TalkRadio]

Para Katia Suman,
que tem coragem
de verdade.



Raphael's "The Small Cowper Maddona"

Clarice Lispector uma vez escreveu que o maior desafio de toda mãe é aceitar ficar cada vez menor. Limitar a própria importância e permitir autonomia a um filho é a missão central da criação de alguém.

Cada movimento é uma oportunidade para testemunhar o milagre da competência: temos mais e mais dela a cada dia.

Uma amiga me contou que trocou de empregada. Foi difícil aceitar a saída da doméstica que acompanhava a família há mais de dez anos. Temia ao antecipar a dor que sentiria a filha. Afinal, desde que nasceu, recebia o amparo da senhora. Na limpeza não ia tão bem, mas topava qualquer brincadeira da menina. Eram grandes companheiras.

O resultado foi outro. A criança sentiu a saída, mas em poucos dias estava adaptada, feliz com a funcionária nova e mais: revelou que essa fazia o melhor chá da vida dela. Minha amiga ficou intrigada, que conversa era aquela de chá melhor da vida? O que será que ela infiltrava na xícara?

À tarde foi espiar o evento e descobrir a proeza. Qual não foi a surpresa quando constatou que o chá era o mesmo, a louça ia igual.

Perguntou para a filha qual era a melhoria tão especial. Sem piscar, já tascou a sentença:

- É que ela me entrega muito quente! E eu mesma é que decido quando está bom pra tomar.

Até o chá pode ter aventura. É uma alegria tomar as próprias decisões. Um desejo natural da infância que precisa ser observado e atendido.

Chega a ser cansativo o número de pais queixosos do comportamento dependente de seus jovens, da demora em se independizar. Querem que o filho assuma a própria vida, a economia, as responsabilidades.

Mas como vão proceder ou seguir adiante essas pessoas cujos pais jamais deixaram o posto de grandes decisores? De superprotetores? De sábios poderosos da casa? De geradores de todas as condutas?

É um crime descuidar uma pessoa que tem necessidades especiais. É um crime criar uma pessoa perfeitamente capaz com cuidados desnecessários.

A temperatura é melhor que se decida cada um. A mãe e o pai que aprendam a suportar sua ausência. A ausência é tão importante quanto a presença na hora de crescer.


>>Ouça Esta Crônica Falada
Crônica Falada é um quadro do programa TalkRadio na Rádio Itapema. Apresentação @katiasuman. Crônica de @cinthyaverri exibida em 29.06.2010
(arraste a rolagem para 35'de programa):

SUPERPAIS [Crônica Falada no TalkRadio]

Para Katia Suman,
que tem coragem
de verdade.



Raphael's "The Small Cowper Maddona"

Clarice Lispector uma vez escreveu que o maior desafio de toda mãe é aceitar ficar cada vez menor. Limitar a própria importância e permitir autonomia a um filho é a missão central da criação de alguém.

Cada movimento é uma oportunidade para testemunhar o milagre da competência: temos mais e mais dela a cada dia.

Uma amiga me contou que trocou de empregada. Foi difícil aceitar a saída da doméstica que acompanhava a família há mais de dez anos. Temia ao antecipar a dor que sentiria a filha. Afinal, desde que nasceu, recebia o amparo da senhora. Na limpeza não ia tão bem, mas topava qualquer brincadeira da menina. Eram grandes companheiras.

O resultado foi outro. A criança sentiu a saída, mas em poucos dias estava adaptada, feliz com a funcionária nova e mais: revelou que essa fazia o melhor chá da vida dela. Minha amiga ficou intrigada, que conversa era aquela de chá melhor da vida? O que será que ela infiltrava na xícara?

À tarde foi espiar o evento e descobrir a proeza. Qual não foi a surpresa quando constatou que o chá era o mesmo, a louça ia igual.

Perguntou para a filha qual era a melhoria tão especial. Sem piscar, já tascou a sentença:

- É que ela me entrega muito quente! E eu mesma é que decido quando está bom pra tomar.

Até o chá pode ter aventura. É uma alegria tomar as próprias decisões. Um desejo natural da infância que precisa ser observado e atendido.

Chega a ser cansativo o número de pais queixosos do comportamento dependente de seus jovens, da demora em se independizar. Querem que o filho assuma a própria vida, a economia, as responsabilidades.

Mas como vão proceder ou seguir adiante essas pessoas cujos pais jamais deixaram o posto de grandes decisores? De superprotetores? De sábios poderosos da casa? De geradores de todas as condutas?

É um crime descuidar uma pessoa que tem necessidades especiais. É um crime criar uma pessoa perfeitamente capaz com cuidados desnecessários.

A temperatura é melhor que se decida cada um. A mãe e o pai que aprendam a suportar sua ausência. A ausência é tão importante quanto a presença na hora de crescer.


>>Ouça Esta Crônica Falada
Crônica Falada é um quadro do programa TalkRadio na Rádio Itapema. Apresentação @katiasuman. Crônica de @cinthyaverri exibida em 29.06.2010
(arraste a rolagem para 35'de programa):

sábado, 3 de julho de 2010

Há vida após a Copa

ZERO HORA
03 de julho de 2010 | N° 16385
Geral | Página 3

O DIA SEGUINTE
Há vida após a Copa
Cínthya Verri*



O que fazer agora que o Brasil saiu da Copa e todos já tinham programado as duas próximas semanas de festa? Foi uma quinzena de entusiasmo e apreensão, onde os problemas poderiam ser adiados, poderíamos nos endividar, a euforia pelo próximo jogo subestimava qualquer responsabilidade sobre casamento, filhos, negócios.


Nada era importante o suficiente para ser resolvido. Ficava-se deslizando entre dois sentimentos, duvidar e acreditar, sendo que quem desconfiava dava sinal de falta de patriotismo.

Já não se tem certeza se a torcida era pelo país ou para interromper o trabalho de manhã ou de tarde e emendar com a comemoração.

Toda idealização traz orfandade. É uma falsa companhia.

O que acontece depois do primeiro dia do fim de um transe coletivo? O rumor inicial é de melancolia: um encanto se quebra, e não existe substituto para colocar no lugar. Chora-se como diante do falecimento de um ente querido. É mais engasgo do que lágrima. Um susto de como serão as coisas daqui para frente. Como a Copa é realizada de quatro em quatro anos, a sensação é de que não haverá vida até 2014.

É um momento de revolta próprio da melancolia, que se transforma em indiferença com a repetição do tema. Curiosamente, o impulso é aceitar com facilidade a derrota para a Holanda. Deve-se entender que aceitar “fácil” é modo de dizer, espécie de truque, como uma criança que confessa, diante da perda de um brinquedo, que não gostava mesmo daquela diversão.

São as primeiras 12 horas, até vir a raiva, a procura louca para pôr a frustração na conta de alguém. Definir um culpado pela tragédia. Trata-se de um mecanismo de proteção: como não funcionou a indiferença e a pontada continua incomodando, o jeito é arrumar logo um bode expiatório para se livrar de qualquer relação com a saída precoce do time.

O preferido será o técnico Dunga. A fé migra com rapidez para o ódio. Ele será identificado como o teimoso e orgulhoso que não convocou Ronaldinho e Ganso e naufragou nas quartas de final como o time de Parreira. Basta acompanhar o Twitter para descobrir que a temporada de caça às bruxas está aberta. Entre os principais tópicos, “Dunga Burro” e “Felipe Melo” ganham as preferências dos desaforos. Até sobrou para Mick Jagger, considerado pé-frio, já que torceu para Inglaterra (que perdeu para a Alemanha) e em seguida para o Brasil (em homenagem ao filho).

Vencer é obrigação, perder é fatalidade

A repulsa vai durar dois dias, entre sábado e domingo. Não se falará de outra coisa que não teorias de conspiração que culminaram na desclassificação. Todos já sabiam que isso aconteceria. Não haverá surpresa. Entra-se no terreno do “se”, o que poderia ter ocorrido com alguma mudança na ordem natural do jogo. Em nenhum instante confia-se na casualidade. A derrota é reconhecida como um erro, não uma eventualidade.

É como se estivéssemos preparados somente para a vitória, representada no hexacampeonato, e nunca para a derrota. Vencer é compreendido como uma obrigação, perder é uma fatalidade. Mas a lógica é justamente o inverso. Esta é a 19ª Copa do Mundo, e o Brasil já chegou a sete finais. Somos bem mais preparados para perder do que para ganhar. É a nossa 12ª desclassificação ao longo de 80 anos. Portanto, é uma novidade bem antiga.

O raciocínio esportivo não pode abolir o lance de dados. Comparar é sadio. Xadrez é um jogo de inteligência: decorar combinações de jogadas e antecipar movimentos fazem um bom enxadrista. Se alguém perdeu a partida, foi porque não soube jogar. Gamão é o contrário, não porque em geral está embaixo dos tabuleiros de xadrez, mas porque funciona com dados. Por mais esperteza e técnica, se alguém ganhou ou perdeu, valeu-se da sorte.

O futebol dispensa o tabuleiro e abraça o acaso. O dado do futebol é roliço, oco, redondo, varia com o vento, com a pegada, com o couro. General do campo, o azar traz o terreno místico que se materializa durante 90 minutos de ações inesperadas. Até a jogada ensaiada depende de macumba. Não há sapo enterrado que um dia não cumpra a promessa de transformar a zebra na rainha da selva.

Precisaríamos de uma final de no mínimo 23 jogos para determinar o vencedor de uma maneira considerada estatisticamente significativa – o que indica que o time mais fraco seria coroado campeão em menos de 5% das vezes. Ou seja, só a partir de 23 contendas entre dois times se poderia determinar o melhor – o melhor de verdade. Sem o dedo do acaso. Isso é obviamente inviável num evento que paralisa o mundo, que cola os pares de olhos na tela como um magneto poderoso. Mais de duas dezenas de finais em 160 dias até o resultado.

Melhor aguentar a desilusão do que tentar provar pelo cansaço quem merecia levantar a Copa. No fundo, justiça no futebol desclassificaria qualquer torcida.

CINTHYA VERRI* | *Médica e psicoterapeuta

Saiu na Zero de hoje [Há vida após a Copa]

ZERO HORA
03 de julho de 2010 | N° 16385
Geral | Página 3

O DIA SEGUINTE
Há vida após a Copa
Cínthya Verri*



O que fazer agora que o Brasil saiu da Copa e todos já tinham programado as duas próximas semanas de festa? Foi uma quinzena de entusiasmo e apreensão, onde os problemas poderiam ser adiados, poderíamos nos endividar, a euforia pelo próximo jogo subestimava qualquer responsabilidade sobre casamento, filhos, negócios.


Nada era importante o suficiente para ser resolvido. Ficava-se deslizando entre dois sentimentos, duvidar e acreditar, sendo que quem desconfiava dava sinal de falta de patriotismo.

Já não se tem certeza se a torcida era pelo país ou para interromper o trabalho de manhã ou de tarde e emendar com a comemoração.

Toda idealização traz orfandade. É uma falsa companhia.

O que acontece depois do primeiro dia do fim de um transe coletivo? O rumor inicial é de melancolia: um encanto se quebra, e não existe substituto para colocar no lugar. Chora-se como diante do falecimento de um ente querido. É mais engasgo do que lágrima. Um susto de como serão as coisas daqui para frente. Como a Copa é realizada de quatro em quatro anos, a sensação é de que não haverá vida até 2014.

É um momento de revolta próprio da melancolia, que se transforma em indiferença com a repetição do tema. Curiosamente, o impulso é aceitar com facilidade a derrota para a Holanda. Deve-se entender que aceitar “fácil” é modo de dizer, espécie de truque, como uma criança que confessa, diante da perda de um brinquedo, que não gostava mesmo daquela diversão.

São as primeiras 12 horas, até vir a raiva, a procura louca para pôr a frustração na conta de alguém. Definir um culpado pela tragédia. Trata-se de um mecanismo de proteção: como não funcionou a indiferença e a pontada continua incomodando, o jeito é arrumar logo um bode expiatório para se livrar de qualquer relação com a saída precoce do time.

O preferido será o técnico Dunga. A fé migra com rapidez para o ódio. Ele será identificado como o teimoso e orgulhoso que não convocou Ronaldinho e Ganso e naufragou nas quartas de final como o time de Parreira. Basta acompanhar o Twitter para descobrir que a temporada de caça às bruxas está aberta. Entre os principais tópicos, “Dunga Burro” e “Felipe Melo” ganham as preferências dos desaforos. Até sobrou para Mick Jagger, considerado pé-frio, já que torceu para Inglaterra (que perdeu para a Alemanha) e em seguida para o Brasil (em homenagem ao filho).

Vencer é obrigação, perder é fatalidade

A repulsa vai durar dois dias, entre sábado e domingo. Não se falará de outra coisa que não teorias de conspiração que culminaram na desclassificação. Todos já sabiam que isso aconteceria. Não haverá surpresa. Entra-se no terreno do “se”, o que poderia ter ocorrido com alguma mudança na ordem natural do jogo. Em nenhum instante confia-se na casualidade. A derrota é reconhecida como um erro, não uma eventualidade.

É como se estivéssemos preparados somente para a vitória, representada no hexacampeonato, e nunca para a derrota. Vencer é compreendido como uma obrigação, perder é uma fatalidade. Mas a lógica é justamente o inverso. Esta é a 19ª Copa do Mundo, e o Brasil já chegou a sete finais. Somos bem mais preparados para perder do que para ganhar. É a nossa 12ª desclassificação ao longo de 80 anos. Portanto, é uma novidade bem antiga.

O raciocínio esportivo não pode abolir o lance de dados. Comparar é sadio. Xadrez é um jogo de inteligência: decorar combinações de jogadas e antecipar movimentos fazem um bom enxadrista. Se alguém perdeu a partida, foi porque não soube jogar. Gamão é o contrário, não porque em geral está embaixo dos tabuleiros de xadrez, mas porque funciona com dados. Por mais esperteza e técnica, se alguém ganhou ou perdeu, valeu-se da sorte.

O futebol dispensa o tabuleiro e abraça o acaso. O dado do futebol é roliço, oco, redondo, varia com o vento, com a pegada, com o couro. General do campo, o azar traz o terreno místico que se materializa durante 90 minutos de ações inesperadas. Até a jogada ensaiada depende de macumba. Não há sapo enterrado que um dia não cumpra a promessa de transformar a zebra na rainha da selva.

Precisaríamos de uma final de no mínimo 23 jogos para determinar o vencedor de uma maneira considerada estatisticamente significativa – o que indica que o time mais fraco seria coroado campeão em menos de 5% das vezes. Ou seja, só a partir de 23 contendas entre dois times se poderia determinar o melhor – o melhor de verdade. Sem o dedo do acaso. Isso é obviamente inviável num evento que paralisa o mundo, que cola os pares de olhos na tela como um magneto poderoso. Mais de duas dezenas de finais em 160 dias até o resultado.

Melhor aguentar a desilusão do que tentar provar pelo cansaço quem merecia levantar a Copa. No fundo, justiça no futebol desclassificaria qualquer torcida.

CINTHYA VERRI* | *Médica e psicoterapeuta

Saiu na Zero de hoje [Há vida após a Copa]

ZERO HORA
03 de julho de 2010 | N° 16385
Geral | Página 3

O DIA SEGUINTE
Há vida após a Copa
Cínthya Verri*



O que fazer agora que o Brasil saiu da Copa e todos já tinham programado as duas próximas semanas de festa? Foi uma quinzena de entusiasmo e apreensão, onde os problemas poderiam ser adiados, poderíamos nos endividar, a euforia pelo próximo jogo subestimava qualquer responsabilidade sobre casamento, filhos, negócios.


Nada era importante o suficiente para ser resolvido. Ficava-se deslizando entre dois sentimentos, duvidar e acreditar, sendo que quem desconfiava dava sinal de falta de patriotismo.

Já não se tem certeza se a torcida era pelo país ou para interromper o trabalho de manhã ou de tarde e emendar com a comemoração.

Toda idealização traz orfandade. É uma falsa companhia.

O que acontece depois do primeiro dia do fim de um transe coletivo? O rumor inicial é de melancolia: um encanto se quebra, e não existe substituto para colocar no lugar. Chora-se como diante do falecimento de um ente querido. É mais engasgo do que lágrima. Um susto de como serão as coisas daqui para frente. Como a Copa é realizada de quatro em quatro anos, a sensação é de que não haverá vida até 2014.

É um momento de revolta próprio da melancolia, que se transforma em indiferença com a repetição do tema. Curiosamente, o impulso é aceitar com facilidade a derrota para a Holanda. Deve-se entender que aceitar “fácil” é modo de dizer, espécie de truque, como uma criança que confessa, diante da perda de um brinquedo, que não gostava mesmo daquela diversão.

São as primeiras 12 horas, até vir a raiva, a procura louca para pôr a frustração na conta de alguém. Definir um culpado pela tragédia. Trata-se de um mecanismo de proteção: como não funcionou a indiferença e a pontada continua incomodando, o jeito é arrumar logo um bode expiatório para se livrar de qualquer relação com a saída precoce do time.

O preferido será o técnico Dunga. A fé migra com rapidez para o ódio. Ele será identificado como o teimoso e orgulhoso que não convocou Ronaldinho e Ganso e naufragou nas quartas de final como o time de Parreira. Basta acompanhar o Twitter para descobrir que a temporada de caça às bruxas está aberta. Entre os principais tópicos, “Dunga Burro” e “Felipe Melo” ganham as preferências dos desaforos. Até sobrou para Mick Jagger, considerado pé-frio, já que torceu para Inglaterra (que perdeu para a Alemanha) e em seguida para o Brasil (em homenagem ao filho).

Vencer é obrigação, perder é fatalidade

A repulsa vai durar dois dias, entre sábado e domingo. Não se falará de outra coisa que não teorias de conspiração que culminaram na desclassificação. Todos já sabiam que isso aconteceria. Não haverá surpresa. Entra-se no terreno do “se”, o que poderia ter ocorrido com alguma mudança na ordem natural do jogo. Em nenhum instante confia-se na casualidade. A derrota é reconhecida como um erro, não uma eventualidade.

É como se estivéssemos preparados somente para a vitória, representada no hexacampeonato, e nunca para a derrota. Vencer é compreendido como uma obrigação, perder é uma fatalidade. Mas a lógica é justamente o inverso. Esta é a 19ª Copa do Mundo, e o Brasil já chegou a sete finais. Somos bem mais preparados para perder do que para ganhar. É a nossa 12ª desclassificação ao longo de 80 anos. Portanto, é uma novidade bem antiga.

O raciocínio esportivo não pode abolir o lance de dados. Comparar é sadio. Xadrez é um jogo de inteligência: decorar combinações de jogadas e antecipar movimentos fazem um bom enxadrista. Se alguém perdeu a partida, foi porque não soube jogar. Gamão é o contrário, não porque em geral está embaixo dos tabuleiros de xadrez, mas porque funciona com dados. Por mais esperteza e técnica, se alguém ganhou ou perdeu, valeu-se da sorte.

O futebol dispensa o tabuleiro e abraça o acaso. O dado do futebol é roliço, oco, redondo, varia com o vento, com a pegada, com o couro. General do campo, o azar traz o terreno místico que se materializa durante 90 minutos de ações inesperadas. Até a jogada ensaiada depende de macumba. Não há sapo enterrado que um dia não cumpra a promessa de transformar a zebra na rainha da selva.

Precisaríamos de uma final de no mínimo 23 jogos para determinar o vencedor de uma maneira considerada estatisticamente significativa – o que indica que o time mais fraco seria coroado campeão em menos de 5% das vezes. Ou seja, só a partir de 23 contendas entre dois times se poderia determinar o melhor – o melhor de verdade. Sem o dedo do acaso. Isso é obviamente inviável num evento que paralisa o mundo, que cola os pares de olhos na tela como um magneto poderoso. Mais de duas dezenas de finais em 160 dias até o resultado.

Melhor aguentar a desilusão do que tentar provar pelo cansaço quem merecia levantar a Copa. No fundo, justiça no futebol desclassificaria qualquer torcida.

CINTHYA VERRI* | *Médica e psicoterapeuta

EU TE DISSE

Entro na cozinha de manhã. Quer dizer, entro na cozinha às 11h, que é toda a minha manhã. As ondas de calor desde a porta já me avisavam q...