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sábado, 10 de julho de 2010

Descansando em Paz.

Sonhar não custa nada.
E o meu sonho é tão real.

EPITÁFIO

Tomava Rivotril esperando
que o outro dormisse.




(sem scanner aqui na serra,
acabei fotografando a morte)

Com sono, sou irascível. Minha lucidez é delicada. Não sei nem como sobrevivi à residência médica e seus plantões. É um mistério para mim de onde arranjei disposição para anos de noites maldormidas. Fico intratável, pior que qualquer criança. Aliás, gastei a flexibilidade na infância. Não sobrou nada.

Já faz muito que zelo pelo tempo com Morpheus, pela higiene mental de sonhar.

Sonolência, pra mim, pesa mais que a fome no quesito irritação.

Cultivei um berço de dois metros quadrados, meu quarto é quase só cama. Lençois perfumados, fronhas rechonchudas, edredons coloridos, luz amena e suave na cabeceira. Tudo para garantir o pouso do corpo com toda majestade.

Vivia como a Michelle Pfeifer na cena de abertura de “Chéri”:

- Nada como uma cama toda só para a gente!

Aí chegou o Bitols.

Primeiro que o sono pra ele é rodapé da lista: o último que começa e o primeiro que termina. Pra ele, cinco horinhas tá mais que bom. Compreendo e admiro a fibra, achava inclusive superlindo que ele fizesse campanhas pra que eu o esperasse até a última gota da noite. Tive que ajudá-lo a entender que eu precisava mais de descanso que ele, que não era indiferença, que dependia do hábito das oito horas e patati-patatá. Ele se dobrou no romance e aceitou que eu fosse primeiro pra cama.

Ufa.

Depois veio a questão do café. Bitols era capaz de beber negrume em forma de tintura de café, um lodo espesso de cafeína, manhã, tarde e noite. Conclusão: agitação física, tremores e fasciculações musculares durante a madrugada (ui, que ódio! Chutinhos no meio do Lago dos Cisnes da minha cabeça). Recomecei a sabatina, agora com o tema anti-café depois das 22h. O moço se debateu, mas aderiu.

Ufa.

Depois veio a questão sonora. Não que eu não estivesse habituada desde a infância com meu pai serrador de troncos que fazia a casa tremer; estava. Mas é que o Bitols só ronca quando tem asma. Não é que eu quisesse um atleta do espirômetro, mas ele fumava muito antes de dormir. E ignorava a existência da bombinha, do nebulizador, essas coisas que reduzem inflamação pulmonar. Resultado: orquestra de barítonos espantadores de guaxinins imaginários na madrugada. Fiz o rancho na farmácia, convenci que era essencial, que baixa de oxigênio mata neurônios, ou seja, a cada noite com hipóxia ele ficava mais burro, etc. Resmungou, mas passou a praticar.

Ufa.

Depois veio a questão das declarações românticas na madrugada. Descobri que quando durmo viro o Shrek. Ele me abraçava de madrugada:

- Branquinha, eu te amo tanto!

- Tá bem. Me deixa dormir.

Juro. É verídico. Magoei Bitolinos com meu condicionamento militar, mas era automático! Rebati, argumentei, consolei. Fiz o que pude. Por fim, pedi pra que não esperasse comportamento polido. Dormindo, sou um ogro. Sinto muito. É questão de vida ou morte. Compreendeu.

Ufa.

Depois veio a questão do acordamento por qualquer motivo. Por exemplo, no avião. Adoro dormir em viagens. Desde pequena, no banco de trás do monza do pai, nos ônibus, em trem. Qualquer sacolejar me embala. Embarco no avião salivando os sonhos que terei, sempre psicodélicos e aventureiros. Bitols não perde a coca-cola jamais. E achava que eu também não queria desperdiçar o refrigerante ou o prazer do serviço de bordo. Ui, que ódio. No meio do Indiana Jones privê o cara me passa suco de laranja. E o pior: era pura gentileza. Como é difícil entender que sono pra mim é sagrado! Como é que a gente reclama de cavalheirismo? Respirei, baixei o volume da raiva, conversamos, entendeu.

Ufa.

Depois veio a questão da rádio nacional matinal ligada na cabeça dele. Abria os olhos logo cedo e já saía dando notícias altíssimas sobre tudo o que aconteceria no dia. E não é pouco: entrevistas, emails, passagens, homenagens, colunas, matérias, pautas, rádio, tv e jornal, o blog, o consultório poético, o twitter, o Vicente, a Mariana, a mãe, o pai, a ex, a outra ex, o salário, o curso de rock, o amigo, a amiga, o almoço. Eu não consigo com tanta alegria. Eu me afogava na excitação. Era o naufrágio do dia em cinco minutos. Dias e dias de desentendimentos matinais. De ogro passei a anão: virei o Zangado. Ganhei má fama de mal-humorada. Mas ele mesmo diagnosticou o descompasso. Reduziu a marcha. Agora levanta, sai de perto e telefona para alguém.

Ufa.

E agora o Bitols me deu folga e foi ao Rio de Janeiro.

Ufa?

Quem diz que eu conseguia dormir?

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