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sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

A Secreta Voz

Ouço a voz,
a secreta voz.
Por trás dos ruídos da televisão e do microondas e das ondas eletroestáticas e das vozes da rua e da família no vizinho e dos carros e motos e ônibus e caminhões e camionetas com mudanças e das mudanças e dos móveis todos arrastando e das faxineiras com seus rádios na AM e dos homens com seus rádios na AM e das bicicletas e dos jornaleiros e da água da chuva e do vento e da água dos banhos e dos chuveiros e das louças sendo lavadas e das comidas sendo comidas e dos jogos no estádio ao longe e das torcidas e das brigas distorcidas e da estrada que zune e dos faróis trocando as cores e das árvores caindo e do telefone tocando e do som de dentro dele e uma infinidade de sons que se somam e se confluem numa onda espiralada que vai afunilando-se pelo meu canal auditivo e vibrando o tambor que conta pro cérebro o que passa lá fora.
Mas ouço a voz,
a secreta voz.
Que me conta a minha verdade; e se posso filtrar tudo lá fora (lá fora nos sons que nem sei, lá fora no céu dos pensamentos) eu consigo ouvir.
Meu desejos sussurrados e secretos - esses que não conto pra ninguém. Esses que sou eu mais do que tudo que aparento, do que digo. São os não ditos - nem benditos, nem malditos.
Ouço a voz, a secreta voz, que sussurra: vai.
Como uma brisa rasteira e do sul, vento terral, baixo, úmido. Vai - ela diz. Com o 'a' bem vocalizado, espichado e comprido: vaaai... Com reticências ao fim. Depois, seguem-se uma infinidade de pedidos, todos muito válidos e vivos. E todos os quereres vão-se interpondo como num bordado ou num crochê. Vai...
Essa é a secreta voz. Cantou-a Vinícius. Personificou-a Vinícius. Viveu-a Vinícius. E Carlos - que foi ser gauche na vida.
E eu, agora que a ouço, compreendo. Não há como não me atender. O sussuro é doce.
E Vou.

A Secreta Voz

Ouço a voz,
a secreta voz.
Por trás dos ruídos da televisão e do microondas e das ondas eletroestáticas e das vozes da rua e da família no vizinho e dos carros e motos e ônibus e caminhões e camionetas com mudanças e das mudanças e dos móveis todos arrastando e das faxineiras com seus rádios na AM e dos homens com seus rádios na AM e das bicicletas e dos jornaleiros e da água da chuva e do vento e da água dos banhos e dos chuveiros e das louças sendo lavadas e das comidas sendo comidas e dos jogos no estádio ao longe e das torcidas e das brigas distorcidas e da estrada que zune e dos faróis trocando as cores e das árvores caindo e do telefone tocando e do som de dentro dele e uma infinidade de sons que se somam e se confluem numa onda espiralada que vai afunilando-se pelo meu canal auditivo e vibrando o tambor que conta pro cérebro o que passa lá fora.
Mas ouço a voz,
a secreta voz.
Que me conta a minha verdade; e se posso filtrar tudo lá fora (lá fora nos sons que nem sei, lá fora no céu dos pensamentos) eu consigo ouvir.
Meu desejos sussurrados e secretos - esses que não conto pra ninguém. Esses que sou eu mais do que tudo que aparento, do que digo. São os não ditos - nem benditos, nem malditos.
Ouço a voz, a secreta voz, que sussurra: vai.
Como uma brisa rasteira e do sul, vento terral, baixo, úmido. Vai - ela diz. Com o 'a' bem vocalizado, espichado e comprido: vaaai... Com reticências ao fim. Depois, seguem-se uma infinidade de pedidos, todos muito válidos e vivos. E todos os quereres vão-se interpondo como num bordado ou num crochê. Vai...
Essa é a secreta voz. Cantou-a Vinícius. Personificou-a Vinícius. Viveu-a Vinícius. E Carlos - que foi ser gauche na vida.
E eu, agora que a ouço, compreendo. Não há como não me atender. O sussuro é doce.
E Vou.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Construir uma Casa


Não sei ainda como se faz. Ainda. Mas por dentro de mim, já está. Com seus pisos de tijolos e mosaicos de cerâmica. Com seus vértices, com seus telhados, com seus espaços de estar. A casa ainda não está pronta fora - mas eu estou pronta pra ela: pra casa no morro, de paredes feito braços amorosos a receber-nos e aos que convidarmos. Tudo perfeito. Seja qual for o processo, será perfeito - porque estou pronta pra ele. Todo o risco de qualquer criação. Todo riso, também. Sou sorrisos de planejamento. Ah, como estou pronta pra ela... Preparei-me toda, todo esse tempo, pra receber a casa. Vou recebê-la - também eu com braços de aconchegar. Canto-a desde muito pequena, essa casa de colher pimenta e sal com a mão. Venho cantando na estrada, pra casa agora eu vou. E não será nela que enfim serei feliz. Sou, agora, mais que felicidade. Sou o riso da coragem que me dá, do amor pela terra, do amor em mim. Sou hoje, a estrada onde cantarolo, indo pra casa e pra sua vista de imensidão.

Construir uma Casa


Não sei ainda como se faz. Ainda. Mas por dentro de mim, já está. Com seus pisos de tijolos e mosaicos de cerâmica. Com seus vértices, com seus telhados, com seus espaços de estar. A casa ainda não está pronta fora - mas eu estou pronta pra ela: pra casa no morro, de paredes feito braços amorosos a receber-nos e aos que convidarmos. Tudo perfeito. Seja qual for o processo, será perfeito - porque estou pronta pra ele. Todo o risco de qualquer criação. Todo riso, também. Sou sorrisos de planejamento. Ah, como estou pronta pra ela... Preparei-me toda, todo esse tempo, pra receber a casa. Vou recebê-la - também eu com braços de aconchegar. Canto-a desde muito pequena, essa casa de colher pimenta e sal com a mão. Venho cantando na estrada, pra casa agora eu vou. E não será nela que enfim serei feliz. Sou, agora, mais que felicidade. Sou o riso da coragem que me dá, do amor pela terra, do amor em mim. Sou hoje, a estrada onde cantarolo, indo pra casa e pra sua vista de imensidão.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Poesia (Leitura e além)

Hoje encontrei um arquivo chamado ‘poesia’.
Assim - com pê minúsculo. Abri o arquivo. Dizia no topo: poesia (Somente leitura).
O papel estava em branco.
Pois é...
Poesia: com letra minúscula, para leitura somente: é uma tela em branco.
Isso não existe. Não é poesia.
Poesia é para deitar, para coçar, para transar, para comer, para beber, para verter, para ter, para destemer, para sonhar, para mexer, para crescer, para o que quer que ela seja. Viver é poesia.

Poesia somente leitura não existe. Definitivamente.

Poesia (Leitura e além)

Hoje encontrei um arquivo chamado ‘poesia’.
Assim - com pê minúsculo. Abri o arquivo. Dizia no topo: poesia (Somente leitura).
O papel estava em branco.
Pois é...
Poesia: com letra minúscula, para leitura somente: é uma tela em branco.
Isso não existe. Não é poesia.
Poesia é para deitar, para coçar, para transar, para comer, para beber, para verter, para ter, para destemer, para sonhar, para mexer, para crescer, para o que quer que ela seja. Viver é poesia.

Poesia somente leitura não existe. Definitivamente.

Boca Viva

A boca viva que tenho é voraz. Sedenta de palavras a serem ditas. E não me calo...
Silencio-me, mas não me calo.
Silenciar, significa ver-me sem palavras a dizer. Calar, significa entrouxar as palavras e devolvê-las ao mar.
Hoje, com mais silêncio presente em mim, vejo-me mais silenciosa. Há muito menos a ser dito. Mas não, ainda não me calo.

Boca Viva

A boca viva que tenho é voraz. Sedenta de palavras a serem ditas. E não me calo...
Silencio-me, mas não me calo.
Silenciar, significa ver-me sem palavras a dizer. Calar, significa entrouxar as palavras e devolvê-las ao mar.
Hoje, com mais silêncio presente em mim, vejo-me mais silenciosa. Há muito menos a ser dito. Mas não, ainda não me calo.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Parreira


(Oscar Capeche - Bodegón con Uvas)
Minhas irmãs e eu.
Colocamo-nos em uma parreira. Penduramos os nossos cachos de suculentas uvas de palavras. As palavras são envolvidas em delicadas cascas transparentes, prontas a serem sorvidas, com ou sem sementes.
Costumamos temer engolir as sementes das uvas. É porque as sementes, quando engolidas junto com o doce da polpa, na hora de serem digeridas, podem causar inflamação. Essa inflamação será na ponta inútil e, por isso mesmo, misteriosa do intestino: o apêndice. O apêndice também tem um pouco o formato de um cachinho. Um cachinho de intestino. Que inflamado, dói. Em geral, precisa de operação para retirada.
As sementes das nossas uvas não vão pro intestino. Vão ao coração. Também ele pode ficar um pouco inflamado. Mas se inflamar, será de paixão. O coração pega fogo às vezes. Nossas uvas de palavras aos cachos, têm sementes flamejantes. Delas nascem pequenos calores do bem. Esses focos calorentos chamam a atenção do portador pra região inflamada. Será preciso fazer algo a respeito. Em geral, a operação necessária não será de retirada. O foco que inflama precisará de cuidados - que pode resultar em reavivamento de partes mortas.
Nossos cachos têm forma de púbis, de tripa, de balão, de árvore. São como nuvens pras quais se imagina uma forma e um nome.
São beijos de fruta, de trato amoroso e consumo indicado em abundância.

Parreira


(Oscar Capeche - Bodegón con Uvas)
Minhas irmãs e eu.
Colocamo-nos em uma parreira. Penduramos os nossos cachos de suculentas uvas de palavras. As palavras são envolvidas em delicadas cascas transparentes, prontas a serem sorvidas, com ou sem sementes.
Costumamos temer engolir as sementes das uvas. É porque as sementes, quando engolidas junto com o doce da polpa, na hora de serem digeridas, podem causar inflamação. Essa inflamação será na ponta inútil e, por isso mesmo, misteriosa do intestino: o apêndice. O apêndice também tem um pouco o formato de um cachinho. Um cachinho de intestino. Que inflamado, dói. Em geral, precisa de operação para retirada.
As sementes das nossas uvas não vão pro intestino. Vão ao coração. Também ele pode ficar um pouco inflamado. Mas se inflamar, será de paixão. O coração pega fogo às vezes. Nossas uvas de palavras aos cachos, têm sementes flamejantes. Delas nascem pequenos calores do bem. Esses focos calorentos chamam a atenção do portador pra região inflamada. Será preciso fazer algo a respeito. Em geral, a operação necessária não será de retirada. O foco que inflama precisará de cuidados - que pode resultar em reavivamento de partes mortas.
Nossos cachos têm forma de púbis, de tripa, de balão, de árvore. São como nuvens pras quais se imagina uma forma e um nome.
São beijos de fruta, de trato amoroso e consumo indicado em abundância.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Descabimento


E tu...
Apolo cibernético
A exibir-se pra mim
Eu, a fã.
Eu, o afã
Arfando todo
Renascendo
E o desejo
(ah, o desejo...)
A alucinar-me
Lupificar-me
(foi a lua?)
Foi o sol
O sol
Apolíneo-dionisíaco
Que vi em ti
Através de ti
Tua imagem
Desnuda
De carne e sangue e veias
E alma
É sol de meu desejo
A iluminar todo meu dia
A repousar-me os olhos
De toda a feiúra do mundo
A imagem muda e móvel
Fez-se feroz desalinho
Aninhando-se
Carente de mim
E me vendo
E me tendo
Toda
Vivos, sem dúvida
Sem pensar
Embalando-nos
Sou a manhã cheia de sono
A tarde morna de maçã
A noite negra enluarada
Refletindo o sol
Reflito
Sobre tua pele lisa e macia
E clara
E salivo
Como quem deseja o doce
Como quem precisa
E te preciso, amor meu
E que bem é precisar-te
Necessária saudade
Prescindível saudade
E ter-te
Mesmo que de frente
Pela janela
Mesmo que feito de luz
Literalmente
É gozar em azáfama
De todos os eus
Que somos

(é descaber-se).

Descabimento


E tu...
Apolo cibernético
A exibir-se pra mim
Eu, a fã.
Eu, o afã
Arfando todo
Renascendo
E o desejo
(ah, o desejo...)
A alucinar-me
Lupificar-me
(foi a lua?)
Foi o sol
O sol
Apolíneo-dionisíaco
Que vi em ti
Através de ti
Tua imagem
Desnuda
De carne e sangue e veias
E alma
É sol de meu desejo
A iluminar todo meu dia
A repousar-me os olhos
De toda a feiúra do mundo
A imagem muda e móvel
Fez-se feroz desalinho
Aninhando-se
Carente de mim
E me vendo
E me tendo
Toda
Vivos, sem dúvida
Sem pensar
Embalando-nos
Sou a manhã cheia de sono
A tarde morna de maçã
A noite negra enluarada
Refletindo o sol
Reflito
Sobre tua pele lisa e macia
E clara
E salivo
Como quem deseja o doce
Como quem precisa
E te preciso, amor meu
E que bem é precisar-te
Necessária saudade
Prescindível saudade
E ter-te
Mesmo que de frente
Pela janela
Mesmo que feito de luz
Literalmente
É gozar em azáfama
De todos os eus
Que somos

(é descaber-se).

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Do Esquecimento



Conversávamos na sala, destituída de sofá, estante e livros. As mudanças deixam as sombras do que já se foi. Fica o que ainda não se tem. Famoso Porvir. Um envelope vazio - cheio de possibilidades. A sala, eu e você. Enfim, estávamos conversando sobre a capacidade de esquecer.
- Tu acha que esquecer é bom?
Não. Não foi assim a pergunta. Inclusive, já esqueci como foi. Vou dizer como ficou em mim.

Maravilhosa capacidade
De esquecer
Dom tão amigo
Meu e teu
E tu, o bem-vindo

Um esquecedor
Das desimportâncias
A meu lado
Ter-te
E mais a frente
Ver-nos
Toda a gente em nós
Que se apaixonou
Dom suavidade

De ser junto
No mar de carinhos
Que rufla e ronrona
No peito nosso
De se dar ao agora.

Foi assim que ficou em mim. O resto, já esqueci.

Do Esquecimento



Conversávamos na sala, destituída de sofá, estante e livros. As mudanças deixam as sombras do que já se foi. Fica o que ainda não se tem. Famoso Porvir. Um envelope vazio - cheio de possibilidades. A sala, eu e você. Enfim, estávamos conversando sobre a capacidade de esquecer.
- Tu acha que esquecer é bom?
Não. Não foi assim a pergunta. Inclusive, já esqueci como foi. Vou dizer como ficou em mim.

Maravilhosa capacidade
De esquecer
Dom tão amigo
Meu e teu
E tu, o bem-vindo

Um esquecedor
Das desimportâncias
A meu lado
Ter-te
E mais a frente
Ver-nos
Toda a gente em nós
Que se apaixonou
Dom suavidade

De ser junto
No mar de carinhos
Que rufla e ronrona
No peito nosso
De se dar ao agora.

Foi assim que ficou em mim. O resto, já esqueci.

O Grito I



(Fors Ferro, Mujer Bien parada)

O telefone me grita
Mas não quero
Não quero atender
Quem quer que seja
Mesmo que seja você
Não quero
Especialmente se lá dentro dele
Estiver sua voz

O telefone me grita
(Griiiiiita, Griiiiiiita)
Como eu gritava
Ainda agora, com Bethânia
Gritávamos eu, Bethânia e o telefone

Teus beijos nunca mais

Ah! Como eu queria a certeza
De que nunca mais

A certeza
Certeza como chuva quase caindo
Como carro quase partindo
Como sol quase nascido
Estrela que quasímoda

(E nem nada disso é certeza)

Uma certeza
Dessas que se inventa que é certo
Que se está fazendo o certo

Mesmo que desejo arda tanto
Mais que sol sagarana
Que ferida nua ao sal

Me arde o desejo
E sofro a alegria
De tanto sentir

De tanto amar
De gostar demais
De ter coração tão destroçado
Velho
Apertado
Coração
Que diz que tudo está
Ainda tão lá dentro
Que se espremem as coisas todas

Em tão pouco tempo
(por tão pouco temo)
Que será do resto
Que medo me dá
De fixar-me assim
Só de medo

Pra que não exploda
E o nó não aperte ainda mais
O nó do peito

De tanto amar